CRNICA, Balas de estalo,1883

Balas de Estalo

Texto-fonte:

Obra Completa de Machado de Assis.

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, Vol.
III, 1994.

Publicado originalmente na Gazeta
de Notcias, Rio de Janeiro, de 02/07/1883 a 04/01/1886.

1883

2 de julho

Sabe-se que a Sociedade Portuguesa
de Beneficncia acaba de abrir uma enfermaria  medicina dosimtrica. Este  o
nome, creio eu; e no h por onde trocar os nomes s coisas, que j os trazem
de nascena.

Mas no basta abrir enfermarias; 
til explic-las. Se a dosimetria quer dizer que os remdios dados em doses
exatas e puras curam melhor ou mais radicalmente, ou mais depressa, , na
verdade, grande crueza privar os restantes enfermos de to excelso benefcio.
Uns ficaro meio curados, ou mal curados, outros sairo dali lestos e pimpes;
e isto no parece justo.

Note-se bem que eu no ignoro que
os doentes, por estarem doentes, no perdem o direito  liberdade; mas,
entendamo-nos:  a liberdade do voto, a liberdade de conscincia, a liberdade
de testar, a liberdade do ventre, (teoria Lulu Snior); por um sentimento de
compaixo, a liberdade de descompor. Mas, no que toca aos medicamentos, no!
Concedo que o doente possa escolher entre a alopatia e a homeopatia, porque so
dois sistemas,  ou duas escolas,  a escola cadavrica (verso Maximiano) e a
escola aqutica. Mas no tratando a dosimetria seno da perfeita composio dos
remdios, no h para o doente, a liberdade de medicar-se mal. Ao contrrio,
este era o caso de aplicar o velho grito muulmano:  cr ou morre.

Se, ao menos, a prpria dosimetria
permitisse o uso de ambos os modos, as doses bem medidas, e as doses mal
medidas, tinha a enfermaria uma explicao. E no seria absurdo. Conheci um
mdico, que dava alopatia aos adultos, e homeopatia s crianas, e explicava
esta aparente contradio com uma resposta pica de ingenuidade:  para que hei
de martirizar uma pobre criana? A prpria homeopatia, quando estreou no
Brasil, teve seus eclticos; entre eles, o Dr. R. Torres e o Dr. Tloesquelec,
segundo afirmou em tempo (h quarenta anos) o Dr. Joo V. Martins, que era dos
puros. Os eclticos tratavam os doentes, 'como a eles aprouvesse'. 
o que imprimia ento o chefe dos propagandistas.

Mas a dosimetria  contrria a
esses tristes recursos. Parece mesmo que esta nova religio ainda no passou do
vers. 18, cap. IV, de So Mateus, que  o lugar em que Jesus chama os primeiros apstolos, Pedro e Andr: 'Vinde aps mim, e farei que
sejais pescadores de homens'. No h ainda tempo de ter hereges nem
cismticos: est nas primeiras pescas de doentes.

O nico ponto em que a escola
dosimtrica se parece com a homeoptica  na facilidade que d ao doente de
tratar-se a si mesmo; mas isto no quer dizer que tenha de cair no mesmo abuso
do ecletismo. Quer dizer que a cincia, como todas as moedas, tem seus trocos midos.
Dois amigos meus andam munidos de caixas dosimtricas; ingerem isto ou aquilo,
conforme um papelinho impresso, que trazem consigo. Levam a sade nas
algibeiras, chegam mesmo a distribu-la aos amigos.

L que isto seja novo,  o que
nego redondamente. O autor destas vulgarizaes parece ser um certo
Asclepades, contemporneo de Pompeu. Esse cavalheiro era mestre de eloqncia;
mas sentindo em si outros talentos, estudou a medicina, criou uma arte nova, e
anunciou cinco modos de cura aplicveis a todas as enfermidades. Esto ouvindo?
Cinco, nem mais uma plula para remdio. Essas drogas eram: dieta, abstinncia
de vinho, frices, exerccio a p e passeios de liteira. Cada um sentia que
podia medicar-se a si prprio, escreve Plnio,  e o entusiasmo foi
geral. Tal qual a homeopatia e a dosimetria. Nem uma nem outra tocou ao
sublime daquele Asclepades, que, segundo o mesmo autor, encontrando o saimento
de um desconhecido, fez com que o inculcado morto no fosse deitado  fogueira,
levou-o consigo e curou-o; mas, em suma, aguardemos o primeiro fregus que a
escola cadavrica remeter para a Jurujuba.

Voltando ao ponto, espero que a
direo da Beneficncia atenda aos meus conselhos. No negue a cem doentes o
que to liberalmente distribui a sete ou quinze. Que o semelhante cure ao
semelhante, ou o contrrio ao contrrio, so afirmaes que se excluem; mas,
contrrio ou semelhante,  de rigor que as doses sejam as mesmas.

4 de julho

Ocorreu-me compor umas certas
regras para uso dos que freqentam bondes. O desenvolvimento que tem
tido entre ns esse meio de locomoo, essencialmente democrtico, exige que
ele no seja deixado ao puro capricho dos passageiros. No posso dar aqui mais
do que alguns extratos do meu trabalho; basta saber que tem nada menos de
setenta artigos. Vo apenas dez.

ART. I

Dos encatarroados

Os encatarroados podem entrar nos bondes
com a condio de no tossirem mais de trs vezes dentro de uma hora, e no
caso de pigarro, quatro.

Quando a tosse for to teimosa,
que no permita esta limitao, os encatarroados tm dois alvitres:  ou irem a
p, que  bom exerccio, ou meterem-se na cama. Tambm podem ir tossir para o
diabo que os carregue.

Os encatarroados que estiverem nas
extremidades dos bancos, devem escarrar para o lado da rua, em vez de o fazerem
no prprio bonde, salvo caso de aposta, preceito religioso ou manico,
vocao, etc., etc.

ART. II

Da posio das pernas

As pernas devem trazer-se de modo
que no constranjam os passageiros do mesmo banco. No se probem formalmente as
pernas abertas, mas com a condio de pagar os outros lugares, e faz-los
ocupar por meninas pobres ou vivas desvalidas, mediante uma pequena
gratificao.

ART. III

Da leitura dos jornais

Cada vez que um passageiro abrir a
folha que estiver lendo, ter o cuidado de no roar as ventas dos vizinhos,
nem levar-lhes os chapus. Tambm no  bonito encost-los no passageiro da
frente.

ART. IV

Dos quebra-queixos

 permitido o uso dos
quebra-queixos em duas circunstncias:  a primeira quando no for ningum no bonde,
e a segunda ao descer.

ART. V

Dos amoladores

Toda a pessoa que sentir
necessidade de contar os seus negcios ntimos, sem interesse para ningum,
deve primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal confidncia, se ele
 assaz cristo e resignado. No caso afirmativo, perguntar-lhe- se prefere a
narrao ou uma descarga de pontaps. Sendo provvel que ele prefira os
pontaps, a pessoa deve imediatamente pespeg-los. No caso, alis
extraordinrio e quase absurdo, de que o passageiro prefira a narrao, o
proponente deve faz-lo minuciosamente, carregando muito nas circunstncias
mais triviais, repetindo os ditos, pisando e repisando as coisas, de modo que o
paciente jure aos seus deuses no cair em outra.

ART. VI

Dos perdigotos

Reserva-se o banco da frente para
a emisso dos perdigotos, salvo nas ocasies em que a chuva obriga a mudar a
posio do banco. Tambm podem emitir-se na plataforma de trs, indo o
passageiro ao p do condutor, e a cara para a rua.

ART. VII

Das conversas

Quando duas pessoas, sentadas a
distncia, quiserem dizer alguma coisa em voz alta, tero cuidado de no gastar
mais de quinze ou vinte palavras, e, em todo caso, sem aluses maliciosas,
principalmente se houver senhoras.

ART. VIII

Das pessoas com morrinha

As pessoas que tiverem morrinha,
podem participar dos bondes indiretamente: ficando na calada, e
vendo-os passar de um lado para outro. Ser melhor que morem em rua por onde
eles passem, porque ento podem v-los mesmo da janela.

ART. IX

Da passagem s senhoras

Quando alguma senhora entrar, o
passageiro da ponta deve levantar-se e dar passagem, no s porque  incmodo
para ele ficar sentado, apertando as pernas, como porque  uma grande
m-criao.

ART. X

Do pagamento

Quando o passageiro estiver ao p
de um conhecido, e, ao vir o condutor receber as passagens, notar que o
conhecido procura o dinheiro com certa vagareza ou dificuldade, deve
imediatamente pagar por ele:  evidente que, se ele quisesse pagar, teria
tirado o dinheiro mais depressa.

22 de julho

O Sr. Deputado Penido censurou a
Cmara por lhe ter rejeitado duas emendas:  uma que mandava fazer desconto aos
deputados que no comparecessem s sesses; outra que reduzia a importncia do
subsdio.

Respeito as cs do distinto
mineiro; mas permita-me que lhe diga: a censura recai sobre S. Exa., no s
uma, como duas censuras.

A primeira emenda  descabida. S.
Exa. naturalmente ouviu dizer que aos deputados franceses so descontados os
dias em que no comparecem; e, precipitadamente, pelo vezo de tudo copiarmos do
estrangeiro, quis logo introduzir no regimento da nossa Cmara esta clusula
extica.

No advertiu S. Exa., que esse
desconto  lgico e possvel num pas, onde os jantares para cinco pessoas
contam cinco croquetes, cinco figos e cinco fatias de queijo. A Frana, com
todas as suas magnificncias,  um pas srdido. A economia ali  mais do que
sentimento ou um costume, mais que um vcio,  uma espcie de p torto, que as
crianas trazem do tero de suas mes.

A livre, jovem e rica Amrica no
deve empregar tais processos, que estariam em desacordo com um certo sentimento
esttico e poltico. C, quando h algum para jantar, mata-se um porco; e se
h intimidade, as pessoas da vizinhana, que no compareceram, recebem no dia
seguinte um pedao de lombo, uma costeleta, etc. Ora, isso que se faz no dia
seguinte, nas casas particulares, sem censura nem emenda, porque  que merecer
emenda e censura na Cmara, onde alis o lombo e as costeletas so remetidos s
no fim do ms? Nem remetidos so: os prprios obsequiados  que ho de ir
busc-los.

Demais, subsdio no  vencimento
no sentido ordinrio: pro labore.  um modo de suprir s
necessidades do representante, para que ele, durante o tempo em que trata dos
negcios pblicos, tenha a subsistncia afianada. O fato de no ir  Cmara
no quer dizer que no trata dos negcios pblicos; em casa, pode fazer longos
trabalhos e investigaes. Ser por andar algumas vezes na Rua do Ouvidor, ou
algures? Mas quem ignora que o pensamento, obra secreta do crebro, pode estar
em ao em qualquer que seja o lugar do homem? A mais bela freguesa dos nossos
armarinhos no pode impedir que eu, olhando para ela, resolva um problema de
matemticas. Arquimedes fez uma descoberta estando no banho.

Mas, concedamos tudo; concedamos
que a mais bela freguesa dos nossos armarinhos me leva os olhos, as pernas e o
corao. Ainda assim estou cumprindo os deveres do cargo. Em primeiro lugar,
jurei manter as instituies do pas, e o armarinho, por ser a mais recente,
no  a menos slida das nossas instituies. Em segundo lugar, defendo a bolsa
do contribuinte, pois, enquanto a acompanho com os olhos, as pernas e o
corao, impeo que o contribuinte o faa, e  claro que este no o pode
fazer, sem emprego de veculo, luvas, gravatas, molhaduras, cheiros, etc.

* * *

No  menos curiosa a segunda
emenda do Sr. Penido: a reduo do subsdio.

Ningum ignora que a Cmara s
pode tratar dessa matria no ltimo ano de legislatura. Da a rejeio da
emenda. O Sr. Penido no nega a inconstitucionalidade desta, mas argumenta de
um modo singularssimo. O aumento de subsdio fez-se inconstitucionalmente;
logo, a reduo pode ser feita pela mesma forma inconstitucional.

Perdoe-me S. Exa.; este seu
raciocnio no  srio; lembra o aforismo popular  mordedura de co cura-se
com o plo do mesmo co.

O ato da Cmara, aumentando o
subsdio, foi inconstitucional? Suponhamos que sim. Por isso mesmo que o foi, a
Cmara obrigou-se a no repeti-lo, imitando assim de um modo moderno a palavra
daquele general romano, que bradava aos soldados ao iniciar uma empresa
difcil:   preciso ir at ali, no  necessrio voltar!

15 de agosto

Nota-se h algum tempo certa
tristeza nos generais da Armada. H em todos uma invencvel melancolia, um
abatimento misterioso. A expresso jovial do Sr. Silveira da Mota acabou. O Sr.
De Lamare, conquanto tivesse sempre os mesmos modos pacatos, mostra na
fisionomia alguma coisa nova e diferente, uma espcie de aflio concentrada.
No falo do Sr. Baro da Passagem, nem do Sr. Lomba; todos sabem que esses
jazem no leito da dor com a mais impenetrvel das molstias humanas.

No atinando com a causa do
fenmeno, os mdicos resolveram fazer uma conferncia, e todos foram de opinio
que a molstia tinha uma origem puramente moral. Os generais sentem necessidade
de alguma coisa. No pode ser aumento dos vencimentos; eles contentam-se com o
soldo. Nem honras, eles as tm bastantes, e no querem mais. Nisto interveio o
Sr. Meira de Vasconcelos. S. Exa. conversou com os enfermos, e descobriu que
eles padeciam de uma necessidade de denominao nova. Fcil era o remdio; eis
a receita que S. Exa. lavrou ontem, no Senado, em forma de aditivo ao oramento
da Marinha:

Os postos de generais do corpo da
Armada passaro a ter as seguintes denominaes, sem alterao dos vencimentos
nem das honras militares:  Almirante (passa a ser) almirante da armada;
vice-almirante (idem) almirante; chefe da esquadra (idem) vice-almirante; chefe
de diviso (idem) contra-almirante.

No  de supor que o Senado
rejeite uma coisa to simples; podemos felicitar desde j os ilustres enfermos.

No ter escapado ao leitor, que,
por este artigo passamos a ter quatro categorias de almirantes, em vez de duas;
e ningum imagina como isto faz crescer os pepinos. Outra coisa tambm no ter
escapado ao leitor,  o dom prolfico deste aditivo, porquanto ele ainda pode
dar de si, quando a molstia atacar os outros oficiais, uma boa dzia de almirantes:
 um quase-almirante, um almirante adjunto, um almirante suplente, etc., at
chegar ao atual aspirante de Marinha, que ser aspirante a almirante.

No h que dizer nada contra a
medicao. A Cmara Municipal aplica-a todos os dias s ruas. Quando alguma
destas padece de falta de iluminao ou sobra de atoleiros, a Cmara muda-lhe o
nome. Rua de D. Zeferina, Rua de D. Amlia, Rua do Comendador Alves, Rua do
Brigadeiro Jos Anastcio da Cunha Souto; c'est pas plus malin que . Foi
assim que duas velhas ruas, a da Carioca e a do Rio Comprido, cansadas de
trazer um nome que as prendia demasiadamente  histria da cidade, pelo que
padeciam de enxaquecas, foram crismadas pela ilustre corporao:  uma passou a
chamar-se So Francisco de Assis, outra Malvino Reis.

***

Creio que o leitor sabe de um
banquete que as sumidades inglesas deram agora ao clebre ator Irving. O
presidente da festa foi o lord chief justice. Levantando o brinde 
rainha, disse, entre outras, estas palavras:

Usarei de uma metfora apropriada
 ocasio; direi que Sua Majestade, durante muitos anos, tem desempenhado um
grande papel no tablado dos negcios humanos, representando com graa, com
dignidade, com honra e com uma nobre simpleza. (Apoiados). Os seus
sditos sabem como ela amava o drama na mocidade... Agora, nos ltimos tempos,
sob a influncia de uma grande tristeza, tem se retirado do teatro pblico.

Ah! Se o Sr. Lafayette casse em
usar c uma tal metfora! Se Sganarello lhe deu tantas amarguras, que diramos
desta comparao da rainha com uma atriz, e do governo com um tablado? No sei
se j disse que o discurso foi do lord chief justice.

J o fato de ir este homem jantar
com um ator  extraordinrio; mas o que dir o leitor de um bilhete com que Gladstone,
que atualmente governa a Inglaterra, pede desculpa a Irving de no poder
comparecer, acrescentando que h dois anos para c, s tem ido aos jantares de lord
mayor, que so jantares de rigor? E a nfase com que o bispo de York
escreve, dizendo que os que se interessam pela moralidade pblica, devem
simpatizar com as honras feitas a Irving, que to nobremente tem levantado a
arte dramtica na Inglaterra?

No quero citar mais nada;
bastam-se estas palavras do lindo brinde do lord chief justice ao artista
festejado:

Em concluso: assim como a
Amrica nos mandou Booth, assim mandamos Irving  Amrica, e assim como Irving
e a Inglaterra receberam Booth de braos abertos, assim tambm, estou certo,
aquele grande e generoso pas receber o nosso primeiro e admirvel ator.

***

 vista destes deplorveis
exemplos quer-me parecer que Sganarello e Molire no fariam to m figura na
Cmara dos Comuns...

***

No vamos agora dar um banquete ao
Sr. Pedrosa s para imitar os ingleses.

***

Um articulista annimo, tratando
h dias do uso da folga acadmica nas quintas-feiras, escreveu que Moiss e
Cristo s recomendaram um dia de descanso na semana, e acrescenta que nem
Spencer nem Comte indicaram dois.

Nada direi de Spencer; mas pelo
que respeita a Comte, nosso imortal mestre, declaro que a afirmao  falsa.
Comte permite (excepcionalmente,  verdade) a observncia de dois dias de
repouso. Eis o que se l no Catecismo do grande filsofo:

O dia de descanso deve ser um e o
mesmo para todas as classes de homens. Segundo o judasmo, esse dia  o sbado;
 e segundo o cristianismo,  o domingo. O positivismo pode admitir, em certos
casos, a guarda do sbado e do domingo, ao mesmo tempo. Tal , por
exemplo, o daquelas instituies criadas para a contemplao dos filhos da
Gr-Bretanha, como sejam, entre outras, os parlamentos de alguns pases, etc. E
a razo  esta. Sendo os ingleses, em geral, muito ocupados, pouco tempo
lhes resta para ver as coisas alheias. Da a necessidade de limitar os dias de
trabalho parlamentar dos ditos pases, a fim de que aqueles insulares possam
gozar da vista recreativa das mencionadas instituies. (Cat. Posit., pgina
302).

Rio de Janeiro, 3 do Brigadeiro
Jos Anastcio da Cunha Souto de 94 (14 de agosto de 1883).

16 de outubro

No momento em que me sentava a
escrever, recebi uma carta de um nosso hspede ilustre. As-tu vu le
mandarin? Pois foi ele mesmo, o mandarim, que me escreveu, pedindo a fineza
de inserir nas 'Balas de Estalo'' uma exposio modesta das impresses que
at agora tem recebido do nosso pas.

No traduzi a carta, para lhe no
tirar o valor. Alm disso, h dela alguns juzos demasiado crus, que melhor 
fiquem conhecidos to-somente dos que sabem a lngua chinesa. Em alguns
lugares, o meu ilustre correspondente inseriu expresses nossas; ou por no
achar equivalente na lngua dele ou (como me parece) para mostrar que j est
um pouco familiar com o idioma do pas. Eis a carta:

Vu pan Llio,

Lamakatu ap ling-ling 'Balas
de Estalo', mapapi tung? Ker siri mamma, ulama'i tik.

Ton-ton pacamar Rua do Ouvidor
nappi Botafogo, nappi Laranjeiras nappi Petrpolis gog. China cava miraka Rua
do Ouvidor! Naka ling! tica milung! Ita marica armarinho, gavamacu moa bonita,
vala ravala balvo; caixeiro sika maripu derretido. Moanigu vaia pea fita,
agulha, veludo, colchete, iva curva trapalhada. Moo lingu istu passa na rua,
che-beru pitigaia entra, namora, rini mamma.

Viliki xaxi xali xaliman. Acalag
ting-ting valixu. Upa Costa Braga rel minag katu Integridade abaxung kapi a
ver navios. Lamarika ana bapa bung? Gog xupit? Nepa in pav. Brasil
desfalques latecatu. Inglese poeta, Shakespeare, kar: make money; upa lamar
in lngua Brasil:  mete dinheiro no bolso. Vaia, Vaia, gapaling capita
passa a unha sim teka laparika. Eting pe-se a panos; etang mer xilindr.

lt poxta, China kiva Li-vai-p,
ab nan Otaviano Hudson, naka panaka, neka paneca, mingu. Musa vira kassete.

 Mira lung Minas Gerais longu
senado. Vet min Lima Duarte passi Cesrio Alvim; mar kari Evaristo da Veiga
seba Incio Martins. Rebag sara Coromandel? Teca laia Coromandel?

Aba lili tramway Copacabana. Vasi
lang? Tacatu, pacatu, pacatu. Hu-huchi edital Wagner, limaraia Duvivier. Toca
xuxu Figueiredo de Magalhes, upa, upa upa. Baba China pri. Hh...

Siba- lami assemblia provincial
nanakat. Mir bob xalu Galvo Peixoto: ridin teca maneca cabelinho na venta.
Pantutu? Hermann limpatuba Arang chikang Companhia Telefnica ruru mamma, ipi,
xuchi paripangatu; Caminha, Magalhes Castro, xela kapa, xela kipa, xela kopa.
Neka siri lipa Cmara dos Deputados abaling. China seca pareka amolador empala.
Laka pitak? Nana pari.

Faro e Lino papyros, biblos, mak
gog. Lino abatukamu, Faro abatiki. Eba  lat! Casteles zuru! Club Beethoven
paka xali! Tarinanga ax acaritunga. Harritoff dansa mari xali!

Xulica Brasil par; aba lingu
retrica, palrao, tempo perdido, pari mamma; xulica Kurimantu. Iva nen, iva
tat. Brasil gamela tika moka, ingls ver. Veriman? Calunga, mussanga, monau
dengu. Valavala. Dara dara bastonara. Malan drice paku. Ocuoco; momero-diar.
Ite, issa est.

Mandarim de 1 classe.

TONG KONG SING

Como se ter visto, no
meio de alguns reparos crus, h muita simpatia e viva observao. Quanto ao
estilo,  do mais puro,  da escola de Macau, s doutrinas do sculo XII antes
da Criao. A nossa crtica ter notado a linda imagem com que o ilustre
escritor define o progresso, chegando  praia da Copacabana: pacatu, pacatu,
pacatu. Em suma,  um documento honroso para o autor e para ns.

23 de outubro

A Gazeta de Londres publicou, em seu nmero
de 8 do ms passado, um ofcio do vice-rei da ndia ao Conde Granville,
contendo informaes interessantssimas para a questo dos trabalhadores
asiticos. Visto que h tanto horror aos chins, pareceu-me interessante
transcrever esse documento:

 S. Exa. o Sr. Conde Granville,
Secretrio de Estado dos Negcios Estrangeiros.

Calcut, 13 de agosto de 1883.

Senhor Conde.

Noutro ofcio que ora dirijo ao
Honrado Secretrio de Estado das Colnias, dou conta de alguns fatos relativos
ao trabalho agrcola na ndia. Peo licena a V. Exa. para resumi-los aqui, no
caso de que o governo de Sua Majestade tenha de intervir naqueles pases da
Amrica, onde o trabalho chim  usado, ou vai s-lo.

Em primeiro lugar, devo lembrar a
V. Exa. que  preciso distinguir o chim do chim. O chim comum est de h muito
abandonado em toda a sia, onde foi suplantado por uma variedade de chim muito
superior  outra. Essa variedade, como j tive ocasio de dizer ao governo de
Sua Majestade,  o chimpanz.

O deplorvel equvoco que, durante
dilatados anos, classificou o chimpanz entre os macacos, estava j h muito
abandonado. Mas persistia a convico de que, embora pertencente  famlia
humana, o chimpanz fosse refratrio ao trabalho. Esta mesma convico vai
desaparecer, depois das brilhantes experincias feitas nos domnios de Sua
Majestade, e at na China e no Japo.

O primeiro sdito de Sua Majestade
que empregou o chimpanz, foi Sir John Sterling, que reside na ndia h
trinta anos. Desde 1864 o seu trabalhador era o chim comum. Ultimamente, porm,
deu-se uma desordem, verdadeira rebelio, e a maior parte dos trabalhadores
retiraram-se. Sir John Sterling resolveu liquidar e voltar pare a
Europa; mas tendo notcia de que o chimpanz era moralmente superior ao chim
comum, mandou contratar uns trinta para ensaio, e deu-se muito bem com eles.
Da a seis meses a plantao tinha cerca de cem indivduos: hoje conta
setecentos e trinta. Dois parentes seus lanaram mo do mesmo instrumento de
trabalho; hoje h muitssimas plantaes que no tm outro.

Foram os parentes de Sir
John Sterling, que me deram as notcias que nesta data transmito a V. Exa. o
Sr. Secretrio das Colnias, e que vou resumir para uso de V. Exa..

A primeira vantagem do chimpanz 
que  muito mais sbrio que o chim comum. As aves domsticas, geralmente
apreciadas por este, (galinhas, patos, gansos, etc.), no o so pelo outro, que
se sustenta de cocos e nozes. O chimpanz no usa roupa, calado ou chapu. No
vive com os olhos na ptria; ao contrrio, Sir John Sterling e seus
parentes afirmam que tm conseguido fazer com que os chimpanzs mortos sejam
comidos pelos sobreviventes, e a economia resultante deste meio de sepultura
pode subir, numa plantao de dois mil trabalhadores, a duzentas libras por
ano.

No tendo os chimpanzs nenhuma
espcie de sociedade, nem instituies, no h em parte alguma embaixadas nem
consulados; o que quer dizer que no h nenhuma espcie de reclamao
diplomtica, e pode V. Exa. calcular o sossego que este fato traz ao trabalho e
aos trabalhadores. Est provado que toda a rebelio do chim comum provm da
imagem, que eles tm presente, de um governo nacional, um imperador e inmeros
mandarins. Por outro lado, a imprensa no poder tomar as dores por ele, para
no confessar uma solidariedade da espcie, que ainda repugna a alguns.

Quanto aos lucros, dizem-me que
so de vinte e cinco a vinte e oito por cento. Sir John Sterling fez no
ano de 1881, com o chim comum, vinte mil libras; em 1882, tendo introduzido em
maro os primeiros chimpanzs, apurou quinze mil libras; e nos primeiros seis
meses deste ano vai em onze mil e quinhentas. A perfeio do trabalho , ou a
mesma, ou maior. A celeridade  dobrada, e a limpeza  to superior, que Sir
John no viu nada melhor na Inglaterra.

No ofcio ao Secretrio das
Colnias, mando alguns dados estatsticos, desenvolvidos, que no reproduzo
para no alongar este.

A princpio houve relutncia em
admitir o chimpanz pelo fato de andar muita vez a quatro ps; mas Sir John
Sterling, que  naturalista e antropologista emrito, fez observar aos parentes
e amigos, que a atitude do chimpanz  uma questo de costumes. Na Europa e
outras partes, h muitos bpedes por simples hbito, educao, uso de famlia,
imitao e outras causas, que no implicam com as faculdades intelectuais. Mas
tal  a fora do preconceito que, assim como no caso daqueles bpedes se
conclui da posio das pernas para a qualidade da pessoa, assim tambm se faz
com o chimpanz; sendo ambos o mesmssimo caso:  uma questo de
aparncia e preconceito. Felizmente, a propaganda vai fazendo desaparecer esse
erro funesto, e o chimpanz comea a ser julgado de um modo eqitativo,
cientfico e prtico.

Rogo a V. Exa. se digne submeter
estes fatos ao conhecimento do Sr. Gladstone.

Sou, etc.

WEBSTER.

Esta carta  realmente
importante, e espero sejam devidamente apreciadas e no fiquem perdidas as
lies que contm. O nosso defeito  no dar ateno a coisas srias! Esta 
das mais srias.

As pessoas que preferem os chins,
no podem deixar de aceitar este substituto. Segundo a carta transcrita, o
chimpanz tendo as mesmas aptides do outro chim,  muito mais econmico. Por
outro lado, os adversrios, os que receiam o abastardamento da raa, no tero
esse argumento, porque o chimpanz no se cruzar com as raas do pas.

7 de novembro

Nascer rico  uma grande vantagem
que nem todos sabem apreciar. Qual no ser a de nascer rei? Essa  ainda mais
preciosa, no s por ser mais rara, como porque no se pode l chegar por
esforo prprio, salvo alguns desses lances to extraordinrios, que a histria
toda se desloca. Sobe-se de carteiro a milionrio; no se sobe de milionrio a
prncipe.

Entretanto, dado o caso de vocao
(porque a natureza diverte-se s vezes em andar ao invs da sociedade), como h
de um homem que sente mpetos rgios, combinar o sentimento pessoal com a paz
pblica? A est o caso em que nem o mais fino Escobar era capaz de resolver;
a est o que resolveram alguns cidados de Guaratinguet.

Reuniram-se e organizaram uma
irmandade de Nossa Senhora do Rosrio, que  irmandade s no nome; na
realidade,  um reino; e tudo indica que  o reino dos Cus. Os referidos
cidados acharam o meio de cingir a coroa sem vir busc-la a So Cristvo:
elegem anualmente um rei, e a coroa passa de uma testa a outra, pacificamente,
alegremente, como no jogo do papelo. Aqui vai o papelo. O que traz o papelo?

No presente ano (1883-1884), o Rei
da irmandade  o Sr. Martins de Abreu, nome pouco sonoro, mas no  de
sonoridade que vivem as boas instituies. A Rainha  a Sra. D. Clara Maria de
Jesus. H um Juiz do Ramalhete, que  o Sr. Francisco Ferreira, e uma juza do
mesmo Ramalhete que  a Sra. D. Zelina Rosa do Amor Divino. No h a menor
explicao do que seja este ramalhete.  realmente um ramalhete ou  nome
simblico do principado ministerial?

Segue-se o Capito do Mastro. Este
cargo coube ao Sr. Antnio Gonalvez Bruno, e no tem funes definidas.
Capito do Mastro faz cismar. Que mastro, e por que capito? Compreendo o Juiz
da Vara; compreendo mesmo o Alferes da Bandeira. Este  provavelmente o que
leva a bandeira, e, para supor que o capito tem a seu cargo carregar um
mastro,  preciso demonstrar primeiramente a necessidade do mastro. J no digo
a mesma coisa do Tenente da Coroa, cargo desempenhado pelo Sr. Joo Marcelino
Gonalves. Pode-se notar somente a singularidade de ser a coroa levada por um
tenente; mas, dadas as propores limitadas do novo reino, no h que recusar.
H tambm um sacristo, que  alferes, o Sr. alferes Bueno, e... No; isto pede
um pargrafo especial.

H tambm um (digo?) h tambm um
Meirinho. O Sr. Neves da Cruz  o encarregado dessas funes citatrias e
compulsivas, e provavelmente no  cargo honorfico; se o fosse, teria outro
nome. No; ele cita, ele penhora, ele captura os irmos do Rosrio. Assim,
pois, esta irmandade tem um tesoureiro para recolher o dinheiro, um procurador
para ir cobr-lo e um meirinho para compelir os remissos. Un capo d'opera.

Agora, como  que se tratam uns
aos outros esses dignitrios? No sei; mas presumo, pelo pouco que conheo da
natureza humana, que eles no ficam a meio caminho da fico. O Rei pode ter
Majestade, e assim tambm a Rainha. E quando receberem os cumprimentos,
adivinho que os recebero com certa complacncia fina, certo ar digno e grande.
Ho de chover os ttulos  Vossa Majestade, Vossa Perfumaria, Vossa
Mastreao... Em roda o povo de Guaratinguet, e por cima a lua cochilando de
fastio e sono.

24 de novembro

A Folha Nova afirma em seu nmero de
ontem, na parte editorial, que os membros da polcia secreta, agora dissolvida,
tinham o costume de gritar para se darem importncia: Sou polcia secreta!

Pour un comble, viol un comble. H de haver alguma
razo, igualmente secreta, para um caso to fora das previses normais. Por
mais que a parafuse, no acho nada, mas vou trabalhar e um dia destes, se Deus
quiser, atinando com a coisa, dou com ela no prelo.

Porquanto (e esta  a parte
sublime do meu raciocnio), porquanto eu no creio que fosse a idia de
darem-se importncia que levasse os secretas a descobrirem-se.

Conheci esses modestos
funcionrios. No eram s modestos, eram tambm lgicos.

Nenhum deles bradaria que era
secreta, com a inteno vaidosa de aparecer; mas, dado mesmo que quisessem
faz-lo, era intil porque os petrpolis que traziam na mo definiam
melhor do que os mais grossos livros do universo. Eu pergunto aos homens de boa
vontade, razo clara e corao sincero:  Quando a gente via, na esquina, trs
ou quatro sujeitos encostadinhos da Silva, com fuzis nos olhos, e petrpolis
na mo, no sabia logo, no jurava que eram trs ou quatro secretas?

Afinal achei a razo do fato que
assombrou ao nosso colega e a ns. Peo ao leitor que espane primeiro as
orelhas e faa convergir toda a ateno para o que vou dizer, que no  de
compreenso fcil.

Os secretas compreenderam que a
primeira condio de uma polcia secreta era ser secreta. Para isso era
indispensvel, no s que ningum soubesse que eles eram secretas, como
at que nem mesmo chegasse remotamente a suspeit-lo. Como impedir a descoberta
ou a desconfiana? De um modo simples:  gritando: Sou secreta! os
secretas deixavam de ser secretas, e, sabendo o pblico que
eles j no eram secretas, agora  que eles ficavam
verdadeiramente secretas. No sei se me entendem. Eu no entendi nada.

Mas, neste assunto, tudo o que se
possa dizer no vale a cena, que se deu h cinco ou seis anos, na Rua da
Uruguaiana. Est nos jornais do tempo. Um grupo de homens do povo perseguia a
um indivduo, que acusavam de ter praticado um furto. Os perseguidores corriam,
gritando:  secreta!  secreta! Perto da Rua do Ouvidor, conseguem
apanhar o fugitivo, e aparece um urbano. Este chega, olha para o perseguido, e,
com um tom de repreenso amiga:  Deixa disso, Gaudncio!

Polcia secreta, que se divulga,
ministros de uma repblica, que matam o presidente, eis a dois fenmenos que
comprovam aquele dito do Cardeal Antonelli: il mondo casca. Que diria o
bom cardeal, se visse, como vi h dias, um frade dentro de um tlburi? 
verdade que chovia, e que a chuva, quando cai, no poupa ningum; pode ser
mesmo que a coisa no encontre oposio nos cnones. Mas para mim a questo 
de esttica. H em mim um resto de costela romntica, que no permite frade
fora do mosteiro. Concedo-lhe que ande a p, concedo-lhe um cavalo, uma cama,
um refeitrio; mas homem, tlburi!

16 de dezembro

Valentim Magalhes perdeu uma bela
ocasio de no ficar zangado. As suas 'Notas  Margem', de ontem, so
uma das mais odiosas injustias deste tempo, alis to farto delas.

No tenho nada com os quatro
bacharis em direito que foram ao enterro de Teixeira de Freitas, nem com os
que l no foram. Entretanto, podia lembrar ao meu amigo Valentim Magalhes,
que algum motivo poderoso, embora insignificante, pode ter causado a escassez
de colegas no enterro; por exemplo, a falta de calas pretas.

Por mais poeta que seja, Valentim
Magalhes tem obrigao (visto que est na imprensa) de compulsar os documentos
oficiais e comerciais, os livros dos economistas, as tabelas de importao e
exportao. Se o fizesse, saberia que todos os anos, desde fins de novembro at
princpios de maro, os pases quentes exportam para a Groenlndia grande
nmero de calas pretas. Nos pases frios, a exportao verifica-se entre abril
e agosto. Este fenmeno tem sido objeto de profundas cogitaes. Laveleye (Du
Vtement Humain, pg. 79) afirma que o consumo imoderado de calas pretas
entre os groenlandeses h de produzir imensa alterao nos hbitos europeus. Eis as prprias palavras
do economista belga:

Je crois mme, avec de bons
auteurs, que dans un sicle l'Europe ne portera plus que de pantalons gris,
jaunes ou mme bleus, car il est aver qu'avec nos moyens chimiques c'est
impossible de teindre une telle quantit de pantalons noirs. Il faudra bien, ou
changer nos habitudes, ou supprimer les groelandais.

Leia Valentim Magalhes o ornal
dos Alfaiates (tomo XVII, pg. 14) e achar que, nos ltimos dez anos, a
exportao de calas pretas da Europa e dos Estados Unidos para a Groenlndia
atingiu a dez milhes de exemplares.

Essa pode ser a causa da escassez
dos amigos e colegas. Essa foi tambm a causa da pouca gente que acompanhou
Alencar ao ltimo jazigo. Alencar morreu em dezembro. Tambm ele era jurisconsulto, e era romancista, orador e poltico. No era s isto:
era o chefe da nossa literatura. Poderemos crer que a pouca gente no enterro
dele era uma expresso de indiferena? De nenhum modo.

Mas, em suma, nada tenho com os
mortos. Vivam os vivos!

Os vivos so os que meu amigo
Valentim designa pelo nome de medalhes. Em primeiro lugar, h ainda um certo
nmero de espritos bons, fortes e esclarecidos que no merecem tal designao.
Em segundo lugar, se os medalhes so numerosos, pergunto eu ao meu amigo: 
Tambm eles no so filhos de Deus? Ento, porque um homem  medocre, no pode
ter ambies e deve ser condenado a passar os seus dias na obscuridade?

Quer me parecer que a idia do meu
amigo  da mesma famlia da de Plato, Renan e Schopenhauer, uma forma
aristocrtica de governo, composto de homens superiores, espritos cultos e
elevados, e ns que fssemos cavar a terra. No! mil vezes no! A democracia
no gastou o seu sangue na destruio de outras aristocracias, para acabar nas
mos de uma oligarquia ferrenha, mais insuportvel que todas, porque os
fidalgos de nascimento no sabiam fazer epigramas, e ns os medocres e
medalhes padeceramos nas mos dos Freitas e Alencares, para no falar dos
vivos.

E, depois, onde  que o meu
Valentim compra as suas balanas? Ignora ele que a felicidade humana e social
depende da repartio eqitativa dos nus e das vantagens? Perante qual
princpio  aceitvel essa teoria, de dar tudo a uns e nada aos outros? Lstima
que Teixeira de Freitas no tivesse uma cadeira de legislador. Mas, com todos
os diabos! no se pode ao mesmo tempo votar as leis e consolid-las. Que um as
consolide, e tanto melhor, se a obra sair perfeita; mas que outros as faam;
que o Sr. Jos Zzimo, que no consolidou nada, levante a voz no arepago da
nao. Ele no paga imposto? No est no gozo dos direitos civis e polticos?
Que lhe falta, pois? No inventa,  verdade; mas o meu amigo esquece que tudo
ou quase tudo est inventado:  a plvora, a imprensa, o telescpio.

Portanto, emende a sua filosofia
social, e venha tomar ch comigo.

1884

10 de janeiro

Ho de ter pacincia; mas, se
cuidam que a bala hoje  de quem a assina, enganam-se. A bala  de um finado, e
um velho finado, que  pior;  de Drummond, o diplomata. Se o leitor pode
desviar os olhos das graves preocupaes de momento, para algumas coisas do
passado, venha ler dois ou trs pedaos da memria indita que a Gazeta
Literria est publicando. A memria, realmente, trata de coisas
antediluvianas, coisas de 1822; mas, em suma, 1822 existiu, como este ano de
1884 h de um dia ter existido; e se qualquer de ns fala de seu av, que os
outros no conheceram, falemos um pouco de Drummond, Jos Bonifcio, D. Joo VI
e D. Pedro.

Diabo! Mas, pelos modos, no  uma
bala de estalo,  uma bala de artilharia! No, no; tudo o que h mais bala de
estalo. Eu s extraio de Memria aquilo que o velho Drummond escreveu
prevendo a Gazeta de Notcias e os autores desta nossa confeitaria
diria. No  que a Memria no seja toda curiosssima de anedotas do
tempo; mas os que se interessam por essas coisas, so naturalmente em pequeno
nmero, e eu s amolarei a maioria dos meus semelhantes, quando no der por
isso; de propsito, nunca.

Assim, por exemplo, creio que ao
leitor de hoje importa pouco saber, se em 1817, dadas as denncias contra os
maons, houve grandes patrulhas e tropas nos quartis, s pare prender o maon
Lus Prates, que morava na Rua da Alfndega. Creio mesmo que no lhe interessa
este juzo de Drummond acerca do oficial encarregado de prender aquele indivduo:
'era o Coronel Gordilho (diz o velho diplomata) que depois foi pelo
merecimento da sua ignorncia Marqus de Jacarepagu e senador pelo
imprio.' Entretanto, esta expresso  merecimento da sua ignorncia  
de bala de estalo. Vamos, porm, a uma anedota desse mesmo ano de 1817,
galantssima, uma verdadeira bala de estalo, feita pelo rei D. Joo VI, que
tambm tinha momentos de bom humor:

Entre os maons que se denunciaram
a si mesmos, refiro os nomes de dois, pelas cenas bufas que essas denncias causaram.
Foram o Marqus de Angeja e o Conde de Parati. O rei caiu estupefato das
nuvens, e ainda lhe parecia impossvel que dois camaristas seus, ambos
estimados e um valido, fossem maons! O Marqus de Angeja ajuntou aos protestos
do seu arrependimento a oferta, que foi aceita, de toda a sua prata para as
urgncias do Estado. Foi logo expedido em comisso para Portugal, a fim de
tomar o comando e conduzir ao Rio de Janeiro a diviso auxiliadora, que se
mandava vir extrada do exrcito de Portugal. Quanto ao Conde de Parati, o
negcio era mais srio. O rei era muito afeioado a este conde, que foi no Rio
de Janeiro o seu primeiro valido e morava no pao. Nem os protestos de
arrependimento, nem a oferta de sua prata, que a no tinha, porque se servia da
que era da casa real, podiam inspirar inteira confiana a respeito de quem, em
razo do seu ofcio e das relaes de amizade, devia continuar no servio e no
valimento de Sua Majestade. Em to apuradas circunstncias, o rei saiu pela
tangente de um expediente assaz curioso. Disse ao conde, que, pare lhe no
ficar nada do passado, de que se arrependia, era necessrio que tomasse o
hbito de irmo da Ordem Terceira de So Francisco da Penitncia. Foi um dia de
festa no pao aquele em que o conde prestou juramento e foi recebido irmo da
Ordem Terceira. O contentamento do rei no podia ser maior. O Conde de Parati,
para fazer a vontade  Sua Majestade, andou no pao todo aquele dia com o
hbito da Ordem; destinado a lav-lo dos seus erros.

Na verdade, a cena  engraada, e
fora  dizer que o absolutismo tinha coisas boas. O marqus, dando a prata
para salvar a pele, est indicando ao nosso governo constitucional um recurso
til nas urgncias do Estado. Mas o caso do conde  melhor. Esse maon,
obrigado a passear vestido de hbito de So Francisco, foi um belo achado do
Rei. De certo modo, foi uma antecipao do conflito que mais tarde levou dois
bispos aos tribunais, com a diferena que aquilo que o Conde de Parati s pde
fazer obrigado, foi justamente o que a maonaria queria fazer por vontade
prpria:  andar de hbito. No penso nisto que me no lembre do nome que em
geral teve esse famoso conflito, um nome inventado para castigo dos meus
pecados. Lembra-se o leitor? Questo epscopo-manica. Recite isto com certa
nfase:  questo epscopo-manica. No lhe parece que vai andando aos
solavancos numa calea de molas velhas? Epscopo-manica.

J transcrevi outros trechos, mas
recuei. So interessantes, muito interessantes, mas no so alegres. So
anedotas relativas todas  Independncia, e nelas  que entram D. Pedro e Jos
Bonifcio. Por conseqncia; o dito por no dito; no dou mais nada.

Contudo, sempre lhes direi, aqui,
que ningum nos ouve: o conselho de ministros no pao, as palavras de Jos
Bonifcio ao Bregaro; a volta de D. Pedro depois de declarar a Independncia; a
gente que correu a So Cristvo; a imperatriz, que, no tendo mais fitas
verdes para fazer laos, f-los com as do prprio travesseiro; D. Pedro, um
rapaz de 24 anos, impetuoso e ardente; Jos Bonifcio, grave e forte, e, quando
preciso, alegre; a gente que encheu  noite o teatro; as senhoras de lao verde
ao peito; toda essa nossa aurora d-me uma certa sensao profunda e saudosa,
que no encontro... onde? no nariz do leitor, por exemplo.

26 de abril

Enfim! Os lobos dormem com os
cordeiros, e as lingias andam atrs dos ces. So as notcias mais frescas do
dia.

Que os lobos dormem com os
cordeiros, basta ver o anncio que anda nas folhas, um anncio extraordinrio,
pasmoso, um anncio da Rua do Hospcio. Vende-se ali, est ali  espera de
algum amador que o queira comprar, no um chapu ou um gato, no um jogo de
cortinas, um armrio, um livro, uma comenda que seja, mas um (custa diz-lo!)
mais um (nimo!) mas um (palavra, s escrever o nome d um arrepio pela espinha
abaixo), mas um (vamos!) mas um tigre.

Sim, senhores, vende-se ali um
tigre. O tigre, essa fera que os poetas arcdicos nunca deixaram de dizer que
era da Hircnia, e ao qual comparavam os namorados, quando elas olhavam para
outros; o tigre j no  um simples desenho dos livros infantis ou uma criatura
empalhada do museu; o tigre vende-se na Rua do Hospcio, como o ch preto e as
cadeiras americanas.

Um pouco mais, e vamos ouvir
discursar um camelo ou um jumento, ou damos a calada a verdadeiros cavalos. Se
isto no  a terra da promisso, faam-me o favor de dizer o que .

Quanto aos ces perseguidos por
lingias, vo ver se minto.

Morreu um homem, deixando em
testamento alguns legados. Noutro tempo, os legatrios nunca mais perdiam de
olho o inventrio, tinham procurador para lhes cuidar do negcio, farejavam o
cartrio, e passavam algumas noites em claro. Tudo mudou depois que os tigres se vendem na Rua do Hospcio. Agora so os testamenteiros que andam atrs dos
legatrios. Um daqueles, desesperado de esperar por estes, fez um anncio
repleto de legtima impacincia, em que declara, decorrido algum tempo da
publicao do testamento do Comendador Pacheco, que, estando o inventrio a
encerrar-se, pede aos interessados vo requerer o que for a bem do seu direito
'sob pena de, julgadas as partilhas, irem haver do herdeiro da tera os
seus legados.'

Ubinam gentium sumus? Os legados atrs dos
legatrios! as lingias farejando os ces! Deus meu, bateu finalmente a hora
da harmonia e do desinteresse? Vamos ver as comendas atrs das casacas, e elas
a fugirem-lhes vexadas e desdenhosas? Os vencimentos em vez de os irmos ns
buscar, iro ter com a gente? Os bens passaro a correr atrs dos frades?

15 de maio

Chegando anteontem,  noite, de
Macacu, onde fui estudar as febres de 1845, fiquei surpreendido com a notcia
de ter o meu nome figurado em uma comisso que foi pedir a Lulu Snior a
reentrada do colega Dcio. Jurei a todas as pessoas que era falso; mas mostraram-me
o nmero da Gazeta em que Lulu Snior narrava tudo, e com efeito vi o
meu nome, e at palavras que me so atribudas.

Parecendo-me a graa um tanto
pesada, entendi que era caso de um desforo pelas armas, e incumbi dois amigos,
o Dr. F. C., distinto mdico, e um membro do Parlamento, de lhe irem pedir
satisfao ou testemunhas.

Eram oito horas da manh, quando
os meus dois amigos treparam ao morro, e onze quando voltaram ambos com a alma
aos ps. Imaginei a princpio que ele recusara o duelo; mas o Dr. F. C.
tirou-me logo esta idia, dizendo:

 Coisa pior, coisa pior.

 Que  ento?

 Tenha nimo; seja homem. O seu
amigo...

 Que tem?

 No se irrite contra ele. Tudo
aquilo  um puro caso patolgico. Estivemos seguramente duas horas juntos, e
reconheci que ele est louco.

 No me diga isto!

 No digo louco varrido,
formalmente louco; mas padece de alucinaes, idias delirantes; no est bom,
no; e se no tiverem cuidado, pode acabar mal, muito mal. A histria da
comisso foi verdadeira, quero dizer, ele imaginou que tinha a comisso diante
de si, conversou com as pessoas, ouviu as palavras e escreveu-as. Quando
chegamos, ele sups logo que ramos outra comisso, e que ramos cinco. Dirigiu-se
a uma cadeira vazia pare lhe dizer:  'Mas, V. Sa. como relator da
comisso...' Em suma, padece do que chamamos em medicina comissiomania ou
mania das comisses. A prova  que o sondei logo, segundo nos ensinam os
patologistas, e perguntei-lhe se iria hoje  igreja de So Francisco,  Rua
Municipal, e ao paquete Amazone. Respondeu-me alegre que sim, que tinha
que falar em So Francisco com o comissrio da Ordem Terceira, na Rua
Municipal com dois comissrios de caf, e no paquete com o respectivo comissrio.
 V? Sempre a mesma mania.

 Mas, ento, perdido?...

 No; ainda pode salvar-se. Essas
alucinaes e delrios, quando no tratados, podem chegar  demncia total, e
mesmo  idiotice e  imbecilidade, para a qual noto-lhe uma certa tendncia.
Urge no perder tempo.

 Mas, doutor,  impossvel, ele
raciocina perfeitamente.

 Que tem isso? H mil, h cem mil
pessoas no universo, que raciocinam perfeitamente, e, entretanto, padecem de
uma dessas alucinaes ou delrios. Conheo um alferes que est persuadido de
ser major. Um deputado da legislatura de 1864 imaginava que o Imperador lhe
oferecia todas as manhs a pasta dos negcios estrangeiros. Contou-me mais de
uma vez como se passavam as coisas. O Imperador entrava (era na casa de D.
Maria, Rua da Ajuda), ia ao quarto dele, com a pasta na mo, e dizia-lhe:
'Romualdo, tu por que  que no hs de ser ministro?' Pois bem; este
deputado proferiu muitos dos melhores discursos parlamentares de 1864 e 1865.
Voc no tem lido nos jornais notcias de comisses que vo oferecer isto ou
aquilo, um retrato, uma venera, etc., a pessoas completamente obscuras ou
insignificantes?

 Tenho; leio muitas vezes.

 Pois saiba que no h tal. So
casos de comissiomania. Essas pessoas vem, sinceramente, por alucinao, uma
comisso diante de si, oferecendo-lhes alguma coisa  venera ou retrato, ouvem
os discursos, agradecem, convidam para um copo d'gua, e crem que danam, e
que as danas se prolongam at  madrugada. So casos puramente patolgicos.
No h neles a menor sombra de comisso, ao menos no estado agudo da molstia,
porque  observao feita que, quando a cura comea a operar-se, o doente
ilude-se a si mesmo, arranjando uma comisso de verdade, que vai deveras  casa
dele com a venera, que ele mesmo comprou, e lhe fazem discursos, comem
realmente, e as danas prolongam-se at de manh...

 Pobre Lulu Snior! Que faremos
ento?

 Sujeit-lo a um regime rigoroso.
Eu creio que os excessos da mesa, os comes e bebes,  que o tm perdido. O
ilustre Maudsley vem em apoio da minha opinio, no seu magnfico livro:
'Se os homens (diz ele) quisessem viver com sobriedade e castidade,
diminuiria logo o nmero dos loucos, e mais ainda na gerao seguinte'. E
ele aconselha aos homens uma coisa a que chama self-restraint, restringir-se,
abster-se. Entende-me?

 Perfeitamente.

 Ora
bem;  o que convm aplicar ao seu amigo. Nada de finos pratos, nem borgonha,
nem champanha; dem-lhe durante seis meses bacalhau de porta de venda e vinho
de Lisboa fabricado no Rio de Janeiro; podem mesmo aumentar no vinho a dose
txica, com um ou dois decigramas de pau-campeche por litro, ou meio decigrama
de estricnina:  a mesma coisa.

4 de agosto

Agora que vamos ter eleio nova,
lembraram-se alguns amigos que eu bem podia ser deputado. Tanto me quebraram a
cabea, que afinal consenti em correr s urnas. Resta s a profisso de f, que
 o ponto melindroso.

Eu podia,  semelhana de um
candidato ingls, em 1869, fazer este pequenino speech: 'Quero a liberdade
poltica, e por isso sou liberal; mas para ter a liberdade poltica  preciso
conservar a constituio, e por isso sou conservador'. Mas, alm de
copi-lo, se apresentasse um tal programa (o que no fica bem), no sei se
essas poucas linhas, que parecem um paradoxo, no so antes (comparadas com as
nossas coisas) um trusmo.

Porquanto:

H muitos anos, em 1868, quando
Lulu Snior andava ainda no colgio, e, se fazia gazetas, no as vendia e menos
ainda as publicava, nesse ano, e no ms de dezembro, fui uma vez  Assemblia
Provincial do Rio de Janeiro, vulgarmente salinha. Orava ento o Deputado
Magalhes Castro. Nesse discurso, essencialmente poltico e terico, o digno
representante ia dizendo o que era e o que no era, o que queria e o que no queria.

Ao p dele, ou defronte, no me
lembro bem, ficava o deputado Monteiro da Luz, conservador, e o deputado
Herdia, liberal, que ouviam e comentavam as palavras do orador. Eles o
aprovavam em tudo; e, no fim, quando o Sr. Magalhes Castro, recapitulando o
que dissera, perguntou com o ar prprio de um homem que sabe e define o que
quer, eis o dilogo final (consta dos jornais do tempo):

O SR. MAGALHES CASTRO:  Agora
pergunto: quem tem estes desejos o que ? o que pode ser?

O SR. MONTEIRO DA LUZ:  
conservador.

O SR. HERDIA:   liberal.

O SR. MONTEIRO DA LUZ:  Estou
satisfeito.

O SR. HERDIA:  Estou tambm
satisfeito.

Portanto, basta que eu exponha as
teorias para que ambos os partidos votem em mim, uma vez que evite dizer se sou
conservador ou liberal. O nome  que divide.

Resta, porm, a questo do
momento, o projeto do governo, a liberdade dos 60 anos, com ou sem indenizao,
ou o projeto do Sr. Felcio dos Santos, que tambm  um sistema, ou o do Sr.
Figueira, que no  um nem outro. Sobre este ponto confesso que estive sem
saber como explicar-me, at que li a circular de um distinto deputado,
candidato a um lugar de senador. Nesse documento que corre impresso,
exprimia-se assim o autor: 'Quanto  questo servil, j expendi o meu modo
de pensar em dois folhetos que publiquei, um sobre a baixa do acar, outro
sobre colonizao'.

Desde que li isto vi que tinha
achado a soluo necessria ao esclarecimento dos leitores. Com efeito, 
impossvel que eu no tenha publicado algum dia, em alguma parte, um outro
folheto sobre qualquer matria mais ou menos correlata com os atuais projetos.
Na pior das hipteses, isto , se no tiver publicado nada, ento  que estou
com a votao unnime. A razo  que devemos contar em tudo com a presuno dos
homens. Cada leitor querer fazer crer ao vizinho que conhece todos os meus
folhetos, e da um piscar de olhos inteligente e os votos.

Eu, pelo menos,  o que vou fazer.
De tanta gente que andou pelas ruas, no centenrio de Cames, podemos crer que
uns dois quintos no leram Os Lusadas, e no eram dos menos fervorosos.
O mesmo me vai acontecer com o Sr. Peixoto. Vou dizer a toda a gente que li e
reli os dois folhetos do Sr. Peixoto, tanto o do acar como o da colonizao;
acreditarei que so in 8, com 80 ou 100 pginas, talvez 120, bom papel,
estatsticas e notas. Interrogado sobre o valor comparativo de ambos,
responderei que prefiro o do acar por um motivo patritico, visto que o
acar  um produto do pas e a colonizao vem de fora; mas direi tambm que o
da colonizao tem idias muito prticas e aceitveis.

Podia tambm citar a Cmara
anterior, que com infinita serenidade votou pela reforma eleitoral
constitucional, e depois pela mesma reforma extraconstitucional; mas no adoto
esse alvitre, um dos mais singulares que conheo, para no ser acusado
injustamente de mudar a opinio ao sabor dos ministros. Prefiro entrar sem
programa, e eis aqui o meu plano consubstanciado nesta anedota de 1840:

Era uma vez um sujeito que
aparecia em todos os casamentos. Em sabendo de algum vestia-se de ponto em
branco e ia para a igreja. Depois acompanhava os noivos  casa, assistia ao
jantar ou ao baile. Os parentes e amigos da noiva cuidavam que ele era um
convidado da noiva, e, vice-versa, cuidavam que era pessoa do noivo.  sombra
do equvoco ia ele a todas as festas matrimoniais.

Um dia, ao jantar, disse-lhe um
vizinho:

 V. Sa.  parente do lado do
noivo ou do lado da noiva?

 Sou do lado da porta, respondeu
ele, indo buscar o chapu.

Levava o jantar no bucho.

23 de agosto

Anda nos jornais, e j subiu s
mos do Sr. Ministro dos Negcios Estrangeiros, uma representao do Clube ou
Centro dos Molhadistas contra os falsificadores de vinhos. Trata-se de alguns
membros da classe que, a pretexto de depsito de vinhos, tm nos fundos da casa
nada menos que uma fbrica de falsificaes. Segundo a representao, os
progressos da qumica permitem obter as composies mais ilusrias, com dano da
sade pblica.

Ou me engano, ou isto quer dizer
que se trata de impedir a divulgao de certa ordem de produtos, a pretexto de
que eles fazem mal  gente. No digo que faam bem; mas no vamos cair de um
excesso em outro.

Os homens reunidos em sociedade
(relevem-me este tom meio pedante) esto virtual e tacitamente obrigados a
obedecer s leis formuladas por eles mesmos para a convenincia comum. H,
porm, leis que eles no impuseram, que acharam feitas, que precederam as sociedades,
e que se ho de cumprir, no por uma determinao de jurisprudncia humana, mas
por uma necessidade divina e eterna. Entre essas, e antes de todas figura a da
luta pela vida, que um amigo meu nunca diz seno em ingls: struggle for
life.

Se a luta pela vida  uma lei
verdadeira e s um louco poder neg-lo, como h de lutar um molhadista em
terra de molhadistas? Sim, se este nosso Rio de Janeiro tivesse apenas uns
vinte molhadistas,  claro que venderiam os mais puros vinhos do mundo,  e por
bom preo,  o que faria enriquecer depressa, pois no os havendo mais baratos,
iriam todos compr-los a eles mesmos.

Eles, porm, so numerosos, so
quase inumerveis, e tm grandes encargos sobre si; pagam aluguis de casa,
caixeiros, impostos, pagam muita vez o pato, e ho de pagar no outro mundo os
pecados que cometerem neste, e tudo isso lutando, no contra cem, mas contra
milhares de rivais. Pergunto: o que  que lhes fica a um canto da gaveta? No
iremos ao ponto de exigir que eles abram um armazm s para o fim de perder. O
mais que poderamos querer  que no o abrissem; mas uma vez aberto, entram na
pura fisiologia universal; e tanto melhor se a qumica os ajuda.

Tambm matar  um crime. Mas as
leis sociais admitem casos em que  ilcito matar, defendendo-se um homem a si
prprio. Bem; o molhadista do n. 40, que falsifica hoje umas vinte pipas de
vinho, que outra coisa faz seno defender-se a si mesmo, contra o molhadista do
n. 34 que falsificou ontem dezessete? Struggle for life, como
diz o meu amigo.

Depois, faamos um pouco de
filosofia Pangloss, penetremos nas intenes da Providncia. Se com drogas
qumicas se pode chegar a uma aparncia de vinho, no parece que este resultado
 legtimo, lgico e natural? Acaso a natureza  uma escola de crimes? E dado
mesmo que um tal vinho seja danoso  sade pblica, no pode acontecer que seja
til  virtude pblica, levando os homens a abster-se? E, porventura, a virtude
merece menos que a sade? No so ambas a mesma coisa, com a diferena que a
virtude  ainda superior? No entrar tudo isso nos clculos do Cu?

***

Eu bem sei que era melhor no
vender nada, nem vinho puro, nem vinho falsificado, e viver somente daquele
produto a que se refere o meu amigo Baro de Capanema, no Dirio do Brasil de
hoje: 'Alguns milhes de homens livres no Brasil (escreve ele) vivem do
produto da pindaba...' Realmente eu conheo um certo nmero que no vive
de outra coisa. E quando o escritor acrescenta: '...pindaba do tatu que
arrancam do buraco...' penso que alude a alguns nqueis de mil-ris que
tm sado da algibeira de todos ns.

Era melhor; mas isto mesmo pode
dar lugar a falsificaes. Nem todas as pindabas so legtimas. E a prpria
qumica finge algumas, por meio das lgrimas que so, em tais casos, qumica verdadeira.

***

Talvez por isso tudo,  que um
cavalheiro, que no sei quem seja, mas que mora na Travessa do Maia, lembrou-se
de fazer este anncio: 'Braso de armas, composio de cartas da nobreza,
rvore genealgica, todo e qualquer trabalho herldico, em pergaminho, pintura
em aquarela e dourados, letras gticas, trata-se na travessa  etc.'

Esse cidado no viver na
pindaba, nem lhe diro que faz vinho nos fundos da fbrica. No faz vinho, faz
histria, faz geraes,  escolha, latinas ou gticas. E no se pense que 
ofcio de pouca renda. Na mesma case convidam-se as senhoras que se dedicam 
arte de pintura e quiseram trabalhar. Se ainda acharem que h a muita qumica,
cito-lhes fsica, cito-lhes um 'grande cartomante' (sic) da
Rua da Imperatriz, que d consultas das 7 s 9 da manh. Fsica, e boa fsica.

Que querem?  preciso comer.
Cartomancia, herldica, pindaba de tatu, ou vinhos confeccionados no fundo do
armazm, tudo isso vem a dar na lei de Darwin.

29 de outubro

J tnhamos Lafaiete, ministro de
Estado e presidente do Conselho, citando Molire na Cmara. No  tudo. Para
cit-lo bastam florilgios e o incomensurvel Larousse, nelas o nosso
ex-ministro leva o desplante ao ponto de o ler e reler. Felizmente, a indignao
parlamentar e pblica lavou a Cmara e o pas de to grande mancha, e podemos
esperar com tranqilidade o juzo da histria.

Agora temos Taunay, em vsperas de
eleio, cuidando das msicas do Padre Jos Maurcio, e citando (custa-me
diz-lo), citando Haydn e Mozart.

No ignoro que tudo isto de Taunay
e Lafaiete, afinal de contas, so francesias de nomes e de cabeas. Ouviram
dizer que em Frana alguns deputados lem os clssicos, e imaginaram
transportar o uso para aqui.

No advertiram que nem todas as
coisas de um pas podem aclimar-se em outro. No concluamos da pomada Lubin para o Misantropo. So coisas diferentes. Paul-Louis-Courrier, to
conhecido dos nossos homens, compondo na cadeia um opsculo poltico,
interrompia o trabalho para escrever  mulher que lhe mandasse uma certa frase
de Beaumarchais. Segue-se da que devemos todos ler Beaumarchais? Pelo amor de
Deus!

O caso de Taunay  mais grave.
Lafaiete conspurcou,  verdade, a tribuna parlamentar com um pobre-diabo que,
posto viva h dois sculos na memria dos homens, era, todavia, um saltimbanco
ou pouco mais. Taunay levanta os braos no Cu, consternado, porque as obras
musicais do Padre Jos Maurcio andam truncadas, perdidas ou quase perdidas.

A melhor explicao que se pode
dar de um tal destempero,  que o estado mental de Taunay no  bom; mas, se
no  assim, no sei como qualifique esta preocupao do meu amigo.

Reparem bem que Taunay embarca
para a provncia de Santa Catarina, onde vai pedir que lhe dem votos para
deputado. Nesse momento solene, em que o mais medocre esprito gemeria pela
queda de alguns delegados ou majores, Taunay lastima a perda de alguns
responsrios de Jos Maurcio.

Responsrios! Mas  de
suspensrios que tu precisas, Taunay, tu precisas de suspensrios eleitorais
que te levantem e segurem as calas legislativas. Deixa l os responsrios do
padre. Esto perdidos? pacincia; perde-se muita coisa por esse mundo. Eu hoje,
ao ler-te perdia tramontana, e tu, se vais nesse andar, perdes a eleio.

J tinhas a enxaqueca literria e
as belas pginas de Inocncia, e como se isso no bastasse, pes
c para fora a tua sabena musical. Taunay, Taunay, amigo Taunay, deixa as
coisas de arte onde elas esto, achadas ou perdidas; muda de fraseologia,
atira-te aos cachorros, paulas, lees, todo esse
vocabulrio, que s aparentemente d ares de aldeia, mas encerra grandes e
profundas idias. J estudaste o coronel? Estuda o coronel, Taunay. Estuda
tambm o major, e no os estuda s, ama-os, cultiva-os. Que s tu mesmo, seno
um major, forrado de um artista? Descose o forro, et ambula.

Sim, Taunay, fica prtico e local.
Nada de responsrios, nem romances e ests no trinque, voltas eleito e podes
ento,  vontade, danar cinco ou seis polcas por ms. Tambm  msica, e no 
de padre.

3 de novembro

O Sr. Dr. Castro Lopes deseja
juntar aos seus louros de latinista eminente os de legislador. Apresenta-se
candidato pelo 1 distrito, com uma circular em que promete aplicar todos os
esforos em prover de remdio as finanas do pas.

Tendo-as estudado desde longos
anos, o recente candidato formulou alguns projetos, que apresentar na Cmara,
tendentes principalmente a aliviar a nao da sua dvida interna e externa,
sem o mnimo gravame nem do povo nem do tesouro. Povo e tesouro para os
efeitos puramente pecunirios pode dizer-se que so a mesma coisa; mas o
importante  que a medida, qualquer que seja,  nada menos que a salvao do
Estado.

Vede, porm, como uma idia se
liga a outra. A circular recordou-me um drama, que escrevi h muitos anos
(vinte e trs, no digam nada), obra incorreta e fraca, mas que ainda assim
conservei comigo at 1878, ano em que mudei de casa e queimei vrios
manuscritos.

Chamava-se Triptolemo XVII ou
O Talism. Tratava tambm de um Estado oberado de grandes dvidas.
Triptolemo quer casar a filha, a princesa Miostis, com o prncipe Falco, e
no acha quem lhe empreste dinheiro para as bodas. Oferece altos juros,
hipotecas, comisses gordas, e nada, ningum acode. Ao contrrio, os credores
renem-se, amotinam-se e correm ao pao, que fica cercado por eles, pedindo cem
altos brados que lhes mandem dar tudo, capital e juros.

Os ministros sucedem-se com uma
rapidez vertiginosa. Duram sete a oito minutos; no achando meio de pagar a
dvida pblica, so enforcados logo. O ltimo nomeado est com a pasta desde as
nove e cinco; Triptolemo vem dizer-lhe que s faltam oito para salvar o Estado
ou morrer e retira-se.

Nisto aparece um respeitvel
ancio que declara possuir um segredo para salvar tudo, o Estado e a vida do
ministro. Este manda-o embora, abre a janela e contempla a forca.

 Daqui a dez minutos serei
cadver, murmura ele.

 No! brada uma voz.

Era uma fada, a fada Argentina, 
que, enamorada da beleza do ministro, vem oferecer-lhe um talism,
ensinando-lhe que, sempre que bater com ele no ombro de Triptolemo, as
algibeiras deste regurgitaro de ouro. O ministro recusa crer; mas a fada
pede-lhe que v verific-lo e desaparece.

Nove horas e onze minutos. Entra
Triptolemo; fora ouvem-se os berros dos credores, o pao est prestes a ser
assaltado. Ento o ministro pede licena a Triptolemo, bate-lhe no ombro, e as
algibeiras rgias comeam a entornar moedas de ouro. Estupefao do rei e do
ministro. Outro toque, outra emisso, e as moedas correm, descem, amontoam-se.
So ducados, libras, florins, liras, duros, rublos, thalers, 
tudo, so milhes, vinte milhes, duzentos milhes, quinhentos milhes.
Triptolemo paga aos credores juros e capital, casa a filha e o talism 
guardado nas arcas do Estado como um recurso para os lances difceis.

No fim, aparece outra vez o ancio
respeitvel e confessa em pblico e raso que o seu meio, posto que eficaz, era
muito mais lento.

 Consistia, concluiu ele, na
aplicao desta regra de Franklin: 'Se te disserem que podes enriquecer
por outro modo, que no seja o trabalho e a economia, no acredites'. Eu
aplicava a regra ao pagamento das dvidas, que  um modo de enriquecer. Paga o
que deves, v o que te fica. Mas, reconheo que era levar muito tempo, e...

J se compreende que a circular me
lembrasse o drama. O nico ponto obscuro para mim  se o remdio da circular 
o talism ou a regra de Franklin.

1885

26 de janeiro

H pessoas que no sabem, ou no
se lembram de raspar a casca do riso para ver o que h dentro. Da a acusao
que me fazia ultimamente um amigo, a propsito de alguns destes artigos, em que
a frase sai assim um pouco mais alegre. Voc ri de tudo, dizia-me ele. E eu
respondi que sim, que ria de tudo, como o famoso barbeiro da comdia, de
peur d'tre oblig d'en pleurer. Mas to depressa lhe dei essa resposta
como recebi das mos do destino um acontecimento deplorvel, que me obriga a
ser srio, na casca e no miolo.

Nem h outro modo de apreciar o
ato praticado pela polcia, ontem, pouco antes das dez horas da manh, nas duas
casas em que esto expostos alguns ossos de defunto.

Apareceu em ambas um agente
policial, acompanhado de dois urbanos, e polidamente pediu aos donos que
retirassem os ossos da vitrina. Responderam-lhe naturalmente que no podiam
faz-lo, desde que ali foram levados por outras pessoas, mas que iam
entender-se com elas. O agente, porm, que levava o plano feito, declarou que
no trazia ordem de esperar e insistiu em que os ossos fossem retirados
imediatamente.

Antes de obedecer,
perguntaram-lhe, em ambas as casas, se havia lei que proibisse a exposio dos
ossos de gente morta. Na primeira, apanhado de supeto, deu uma resposta que
lhe servia tambm para a outra, disse que, efetivamente, no havia lei
especial, mas que a lei era feita para as hipteses possveis, no para
absurdos. Reconhecia as intenes puras de todos e no entrava nem podia entrar
na controvrsia dos meros; mas, como agente da autoridade, no podia consentir
em tal profanao.

Em uma das casas, um rapazinho,
fregus adventcio, como tinha algumas lambujens da qumica dos ossos,
lembrou-se de dizer que no havia tal profanao: tratava-se de um punhado
disto e daquilo. Mas para a polcia no h qumica, no h nada. Resolvida a ir
adiante, pediu segunda vez a retirada dos ossos. Em ambas as casas, ainda lhe
disseram que, aparentando respeitar os mortos, a polcia diminua-os, desde que
punha os respectivos ossos abaixo de um estandarte de carnaval: pode expor-se
um emblema de folia, uma vitela de duas cabeas, um anans monstro, e no se h
de expor dois ou trs meros, quatro que sejam?

Mas estava escrito. A polcia
trazia o plano de, sem lei nem nada, exceto uma razo de convenincia e decoro,
fazer retirar dali os ossos, e conseguiu-o. Meteu-os em duas urnas, trazidas
pelos urbanos, e remeteu-os para a Faculdade de Medicina. Em tudo isso, no h
duvida que se portou com muito tato e polidez; mas nem por isso os homens
srios deixaram de ficar acabrunhados, ao ver essa limitao da liberdade.

Eu, alm desta razo ltima,
fiquei aborrecido, porque tinha mandado dizer a umas primas de Itabora que
viessem ver os ossos do Malta e os do outro que pelo nome no perca: elas
chegam amanh e no acham nada; e, pobres como so, tero de fazer maior
despesa do que contavam. Costumam, efetivamente, todos os anos, vir  Corte
pelo carnaval, mas desta vez adiantaram a viagem para ver as duas coisas  os
meros e os mscaras  e s lhe ficaram os mscaras. No  pouco, mas no  tudo.

Enfim, est acabado. Concluo
dizendo  autoridade que  um erro abusar do poder; as liberdades vingam-se, e
a liberdade de expor no  a menos vivaz e rancorosa. Hoje tiram-nos o direito
de expor um par de canelas; amanh arrancam-nos o de expor as nossas queixas.
No vejam nisso um trocadilho: premissa traz conseqncia. Liberdade morta,
liberdade moribunda.

30 de janeiro

Sabe o leitor o que lhe trago
aqui? Uma prola. No acredita? J esperava por isso; mas a minha vingana 
que voc to depressa lhe puser o olho, pe-lhe a mo, e manda engast-la em um
boto de camisa, se no for casado, porque ela  tamanha, que est pedindo um
colo de senhora.

Pesquei-a agora mesmo na costa da
Cmara Municipal. Gosto daqueles mares, s vezes tempestuosos, s vezes
banzeiros, mas sempre fecundos. Dizem que h um plano de fazer desaguar ali os
rios Maranho e Caiap, contra todas as indues de geografia, e a despeito das
leis da hidrulica. Contanto que me no tirem as prolas.

Vamos  que acabo de colher. Todos
os anos, em se aproximando o entrudo, a Cmara manda correr um edital que o
probe, citando a postura e apontando as penas. At aqui a ostra; agora a
prola. Este ano a Cmara fez saber duas coisas: primeiro, que a postura est
em seu inteiro vigor; segundo, que deve ser cumprida literalmente. Sim,
meu senhor, literalmente; deve ser cumprida literalmente.

Je suis dj charm de ce petit
morceau.

Isto em trocos midos, quer dizer:
Meus filhos, olhem que agora  serio. Estou cansada de publicar editais que nem
mesmo os ingleses vem. No, no pode ser. Canso-me em dizer que atirar gua 
um delito, encrespo as sobrancelhas, pego na vara de marmeleiro, e  o mesmo
que se casse um carro. Nada, agora  srio. Ho de cumprir literalmente a
postura, ou vai tudo raso.

Entretanto, a coisa  menos fcil
do que parece. A postura impe multa aos que jogam entrudo, e, no podendo o
infrator pagar a multa, sofrer 'dois a oito dias de priso'; sendo
escravo, porm, sofrer 'dois a oito dias de cadeia'. Como encaminhar
literalmente esses dois infratores, um para a priso, outro para a cadeia? Se
no fosse a condio da literalidade, eu, no caso dos urbanos, mandava-os ambos
para o xilindr, que  um meio-termo; mas devendo ser literal, no saberia que
fazer.

Um grande romano recomendava, para
os casos de dvida, absteno. H de ser provavelmente a prtica dos urbanos.
No sabendo distinguir entre as duas penas, mandaro os infratores para suas
casas.

Mas tambm pode ser que eles
prefiram as mximas crists aos preceitos pagos, e, em tal caso, lembrados de
que a letra mata e o esprito vivifica, traduziro o literalmente do
edital por esta frase: trabalhe o refle. Se a letra mata, no h nada mais literal
que o refle.

Mas o que o leitor no suspeita 
que no lhe dou esta prola, e assim castigo a incredulidade com que me
recebeu. Vou restitu-la  matrona municipal. Ela a por ao colo, nos trs dias
de entrudo, para assistir ao baile dos limes-de-cheiro, que promete ser
esplndido, to esplndido que ela acabar por danar com os outros.

Se assim acontecer, que far a
Cmara nos anos seguintes? Ter de recorrer a outros advrbios, ferrenhamente,
implacavelmente, terrivelmente, e sempre inutilmente, porque
nestas coisas, amiga minha,  ou se trata de um recreio popular, e  preciso
fazer como aquele chefe de polcia, que o trocou por outro;  ou se trata de
eleies, e ento, antes de dar um advrbio  execuo das leis,  melhor
dar-nos o sentimento da legalidade, que est muito por baixo.

E depois, pode ser que o povo
imagine que o direito de fazer entrudo, como o de expor ossos de defunto
nas vitrinas,  constitucional. Se assim for, creia a Cmara que ele h de
defend-lo, a todo custo, considerando que, se hoje lhe tirasse o de jogar
gua, amanh pode tirar-lhe o de profanar ossos nas vitrinas da Rua do Ouvidor.
Premissa traz conseqncia; liberdade morta, liberdade moribunda. Ou mais
derramadamente: as liberdades dependem tanto umas das outras, que o dia da
morte de uma  a vspera da morte de outra. V l em vinte palavras o que
estava em duas.

17 de fevereiro

No acabo de entender por que
motivo as folhas de hoje, unanimemente, noticiam que o entrudo este ano foi
menor que nos anteriores, quando a verdade  que no houve entrudo nenhum, nem
muito, nem pouco. No se chamar entrudo ao nico limo que se atirou na
cidade, e foi obra de um homem que chegou na vspera e no tinha lido as ordens
proibitivas da polcia e da Cmara Municipal. Assim o disse ele ao subdelegado,
pagando a multa em dobro, e declarando (por um nobre sentimento de filantropia)
que o excesso da multa legal fosse aplicado ao fundo de emancipao. O
subdelegado apertou-lhe as mos com efuso e dignidade. Eu teria feito a mesma
coisa.

 O seu ato, disse-lhe ele, desfaz
a m impresso que causou  polcia e  edilidade esta nica contraveno a
ordens, no somente legais e justas, mas at reclamadas por toda a gente.
Compreende que a autoridade no se exporia a fazer correr editais para no
serem cumpridos; era como se pusesse um rabo de papel em si mesma. Neste caso,
antes calar que falar. Compreende tambm que seria perigoso acostumar a
multido ao desrespeito da lei e da autoridade. A multido tem a mesma lgica
das crianas, e diria que, se se pode deixar de cumprir uma prescrio
policial, nas prprias barbas da polcia, tambm se pode fazer a mesma coisa s
outras leis. Veja, entretanto, que edificante espetculo apresenta a nossa
cidade. Os prprios fabricantes de limes-de-cheiro tm ido entreg-los 
polcia. Nem aquele afago clssico, e ao mesmo tempo to filosfico, de esmagar
um ou dois limes no pescoo das namoradas, nem esse mesmo se praticou, to
profundo  o sentimento da legalidade manifestado nesta ocasio.

O delinqente respondeu com
palavras igualmente elevadas e cabidas, a que o subdelegado replicou com outras
da mesma feio, e acabaram almoando juntos.

E se essa foi a contraveno
nica, aqui vai agora um admirvel exemplo de estrita obedincia s ordens policiais.

Sabe-se que nestes trs dias, das
quatro horas da tarde em diante, no passa carro sem pessoa mascarada, nas ruas
da Quitanda, Ourives, Gonalves Dias e Uruguaiana, na parte compreendida entre
as do Rosrio e Sete de Setembro. Mora na primeira daquelas ruas um compadre
meu, negociante de massames e aparelhos nuticos (Ship-Chandler), com
armazm na Rua da Sade. Em outubro ltimo, foi acometido de uma frouxido de
nervos, que o no permite andar a p. Comprou um carro, em que sai de casa para
o armazm, s oito horas da manh, e que o traz do armazm para casa  s 5 da
tarde.

Diante da ordem policial, achou-se
o meu compadre um tanto perplexo, por lhe parecer que as qualidades e
disposies do carro no ficavam alteradas pelo fato de trazer a pessoa que vai
dentro um pedao de papelo na cara ou no bolso. Releu a ordem a ver se ficavam
executados os moradores daquelas ruas, mas no achou nada. Nesse conflito entre
o dever e as circunstncias, no quis recorrer  minha casa, onde ele sabe que
ter sempre cama e um lugar  mesa. No, senhor; mandou comprar uma mscara. s
cinco horas sai da Rua da Sade sem mscara; chega  esquina da Rua do Rosrio,
manda parar o carro, pe a mscara, o carro continua a andar, e chega  porta
da casa sem inconveniente.

Chamem-me o que quiserem; declaro
que acho isto um bonito procedimento. Com pequena despesa (pois no h
necessidade de mscara rica para andar algumas braas de rua), submete-se um
homem  regra comum, sem grave alterao dos hbitos. Note-se que a mscara,
apesar de barata, no  feia. Quem quiser v-la ainda hoje v postar-se na Rua
da Quitanda, esquina da do Rosrio. s cinco horas e dez ou cinco e quinze
minutos, ver parar um carro, e observar o resto. Nestes dois dias tem sido o
recreio da vizinhana.

8 de maro

H um falar e dois entenderes,
costuma dizer o povo, e no diz tudo, porque a verdade  que h um falar e
dois, cinco ou mais entenderes, segundo os casos. Contemplamos, por exemplo, a
companhia de Carris Urbanos.

A ltima assemblia geral dos
acionistas desta companhia adotou duas propostas: uma para reconstruir o
capital por meio de medidas que se vo descobrir e estudar, e outra para
distribuir provisoriamente os dividendos de trimestre em trimestre. Na vida comum, estas duas propostas pareceriam excluir-se. Eu, quando tenho que
reconstruir a algibeira, no dou aos amigos mais que um aperto de mo. Nenhum
me pilha charuto. Nas associaes o caso  diferente.

Em primeiro lugar o dividendo
trimestral  o mesmo que o semestral ou anual; d-se em quatro partes em vez de
se dar em duas. S aumenta a escriturao e o trabalho.

Em segundo lugar, o sistema que
consistisse em pegar dos dividendos e reconstruir com ele o capital,
suspendendo a entrega aos acionistas por algum tempo, seria ridiculamente
emprico e singularmente odioso, alm de valer tanto como uma pinga dgua.
Emprico, porque  assim que fazem os autores de quadrinhas, modinhas e outras
obrinhas miudinhas: estando cansados de compor, vo primeiro refazer o
intelecto, por qu? Eis o que eles no sabem. Odioso, porque quando o acionista
estava em casa, ruminando a morte da bezerra, as pessoas que o foram buscar,
no lhe disseram que os capitais so sujeitos a emagrecer no vero; ao contrrio,
em geral os capitais, mormente os capitais em preparo, so de uma gordura que
faz pena.

A est porque as duas medidas,
que na vida comum no chegariam a ir juntas, esto ali perfeitamente votadas,
principalmente a segunda, que  a que me interessa;  a nica que vale a pena.

O mesmo digo  companhia de So
Cristvo, que anda discutindo na imprensa quem ho de ser os seus diretores; e
discutindo a soco, a pontap, a bolacha, quando a coisa para mim est resolvida
por si mesma:  a do personagem de Molire.

Le vritable Amphytrion,

c'est lAmphytrion o lon dne.

Tudo isto  claro e
clarssimo, para quem se der ao trabalho de ver se as coisas correspondem todas
ao nome que tm. As questes devem ser examinadas. As idias devem comear por
ser entendidas. No sou eu que o digo; di-lo um dos ornamentos do nosso clero,
Monsenhor Calino, que ainda ontem me fazia esta reflexo:

 Voc repare que cada coisa tem
o seu nome; mas o mesmo nome pode no corresponder a coisas ou pessoas
semelhantes. Quiosque, por exemplo. L fora o quiosque  ocupado por uma mulher
que vende jornais. C dentro  o lugar onde um cavalheiro vende bilhetes de
loteria e cigarrinhos de palha nacional. Nome idntico, coisas diversas, lei de
aclimao.

8 de maro

A arte de dizer as coisas sem
parecer diz-las  to preciosa e rara, que no resisto ao desejo de recomendar
dois modelos recentes.

Um deles  at um decreto. Com o
especioso pretexto de reformar o regulamento de 12 de maio de 1883, o Sr.
Conselheiro De Lamare expediu uma verdadeira advertncia  oposio da Cmara,
para o caso de que esta queira dar batalha ao Ministrio. No recusa a batalha (abalroao,
na terminologia do documento), mas no quer ser apanhado de surpresa. Da
as multiplicadas recomendaes aos barcos de boca aberta, ou embarcaes de
pescaria, tanto os que pescam de rede, como os de linha ou de arrasto, para
que tragam luzes de duas ou mais cores, a fim de serem vistos de todos os
pontos do horizonte. Horizonte  um sinnimo.

O segundo modelo desta arte de
escrever  o programa da Associao Instrutiva e Beneficente.

Esta associao, que vai inaugurar
os seus trabalhos no dia 25 do corrente, d mdico e botica aos scios, cem
mil-ris para o enterro, e quinhentos mil-ris como legado aos substitutos
institudos pelo scio morto. Conta seis mdicos, quatro alopatas e dois
homeopatas, e duas farmcias. Um dos farmacuticos  membro do conselho. Quanto
s obrigaes, so, por enquanto, a entrada mensal de 4$180; em breve, porm,
s se admitiro scios que entrem com 100$000 de jia.

On ne parle ici que de ma mort  exclama certo personagem
de comdia. No
se pode dizer outra coisa deste prospecto, em que a gente sai do mdico para a
botica, e da botica para o mdico. E a parte instrutiva? A parte instrutiva c
est:  A associao, por sua administrao, tendo tido imensos pedidos para
que quanto antes d comeo aos seus trabalhos, mas sendo o seu intuito nunca
prejudicar os associados, resolveu, por ora, suspender o benefcio da instruo
primria, contido em estatutos, para p-lo em vigor em poca mais favorvel;
bem como que ir contratando outros farmacuticos...

Bem; adiemos a instruo primria
para tempos melhores. No nos falta tudo; temos as farmcias, que  a parte
beneficente.

O pior  que a associao ainda
no comeou os seus trabalhos, e j pesa sobre ela a mo da fatalidade,
trazendo uma lacuna, ainda que passageira,  diretoria. Adoeceu uma pessoa da
famlia do tesoureiro, e este teve de retirar-se para o interior, donde oxal
que volte, antes mesmo que a instruo principie. Tudo, porm, se recomps
ficando a tesouraria interinamente confiada a um dos farmacuticos, que j era
membro do conselho. Creio haver dito que vo ser contratados outros
farmacuticos, e conseguintemente outras farmcias, tanto alopticas como
homeopticas... Mas,
com os diabos! On ne parle ici que de ma mort!

14 de maro

Trago aqui no bolso um remdio
contra os capoeiras. Nem tenho dvida em dizer que  muito superior ao clebre
Xarope do Bosque, que fez curas admirveis e at milagrosas, at princpios de
1856, decaindo em seguida, como todas as coisas deste mundo. A minha droga pode
dizer-se que tem em si o sinal da imortalidade.

Agora, principalmente, que a
guarda urbana foi dissolvida, entregando ontem os refles, receiam alguns que
haja uma exploso de capoeiragem (s para os moer), enquanto que outros crem
que a substituio da guarda  bastante para fazer recuar os maus e
tranqilizar os bons. Ho de perdoar-me: eu estou antes com o receio do que com
a esperana, no tanto porque acredite na exploso referida, como porque desejo
vender a minha droga. Pode ser que haja nesta confisso uma ou duas gramas de
cinismo; mas o cinismo, que  a sinceridade dos patifes, pode contaminar uma
conscincia reta, pura e elevada, do mesmo modo que o bicho pode roer os mais
sublimes livros do mundo.

Vamos, porm,  droga, e comecemos
por dizer que estou em desacordo com todos os meus contemporneos,
relativamente ao motivo que leva o capoeira a plantar facadas nas nossas
barrigas. Diz-se que  o gosto de fazer mal, de mostrar agilidade e valor,
opinio unnime e respeitada como um dogma. Ningum v que  simplesmente
absurda.

Com efeito, no duvido que um ou
outro, excepcionalmente, nutra essa perverso de entranhas; mas a natureza
humana no comporta a extenso de tais sentimentos. No  crvel que tamanho
nmero de pessoas se divirtam em rasgar o ventre alheio, s para fazer alguma
coisa. No se trata de vivisseco, em que um certo abuso, por maior que seja,
 sempre cientfico, e com o qual, s padece cachorro, que no  gente, como se
sabe. Mas como admitir tal coisa com homem e fora do gabinete?

Bastou-me fazer esta reflexo,
para descobrir a causa das facadas annimas e adventcias, e logo o medicamento
apropriado. Veja o leitor se no concorda comigo.

Capoeira  homem. Um dos
caractersticos do homem  viver com o seu tempo. Ora, o nosso tempo (nosso e
do capoeira) padece de uma coisa que poderemos chamar  erotismo de
publicidade. Uns podero crer que  achaque, outros que  uma recrudescncia de
energia, porque o sentimento  natural. Seja o que for, o fato existe, e basta
andar na aldeia sem ver as casas, para reconhecer que nunca esta espcie de
afeco chegou ao grau em que a vemos.

Sou justo. H casos em que acho a
coisa natural. Na verdade, se eu, completando hoje cinqenta anos, janto com a
famlia e dois ou trs amigos, por que no farei participante do meu
contentamento este respeitvel pblico? Embarco, desembarco, dou ou recebo um
mimo, nasce-me um porco com duas cabeas, qualquer caso desses pode muito bem
figurar em letra redonda, que d vida a coisas muito menos interessantes. E,
depois, o nome da gente, em letra redonda, tem outra graa, que no em letra
manuscrita; sai mais bonito, mais ntido, mete-se pelos olhos dentro, sem
contar que as pessoas que o ho de ler, compram as folhas, e a gente fica
notria sem despender nada. No nos envergonhemos de viver na rua;  muito mais
fresco.

Aqui tocamos o ponto essencial. O
capoeira est nesta matria como Crbillon em matria de teatro. Perguntou-se a
este, por que compunha peas de fazer arrepiar os cabelos; ele respondeu que,
tendo Racine tomado o Cu para si e Corneille a Terra, no lhe restava mais que
o Inferno em que se meteu. O mesmo acontece ao capoeira. No pode distribuir
mimos espirituais, ou drogas infalveis, todos os porcos nascem-lhe com uma s
cabea, nenhum meio de ocupar os outros com a sua preciosa pessoa. Recorre 
navalha, espalha facadas, certo de que os jornais daro notcias das suas
faanhas e divulgaro os nomes de alguns.

J o leitor adivinhou o meu
medicamento. No se pode falar com gente esperta; mal se acaba de dizer uma
coisa, conclui logo a coisa restante. Sim, senhor, adivinhou,  isso mesmo: no
publicar mais nada, trancar a imprensa s valentias da capoeiragem. Uma vez que
se no d mais notcia, eles recolhem-se s tendas, aborrecidos de ver que a
crtica no anima os operosos.

Logo depois a autoridade, tendo 
mo algumas associaes, becos e suspensrios ainda sem ttulo, entra pelas
tendas e oferece aos nossos Aquiles uma compensao de publicidade. Vitria
completa: eles aceitam o derivativo, que os traz ao Cu de Racine e  Terra de
Corneille, enquanto as navalhas, restitudas aos barbeiros, passaro a
escanhoar os queixos da gente pacfica. Ex fumo dare lucem.

19 de maro

Toda a gente sabe que eu, sempre
que  preciso elogiar-me, no recorro aos vizinhos; sirvo-me da prata de casa,
que  prata velha e de lei. Agora mesmo, podia dizer prata ordinria ou
casquinha; mas no digo. Digo prata de lei.

O sistema da mutualidade,
inventado por Trissotin e Vadius, tem o defeito da dependncia em que nos pe
uns dos outros Diz Trissotin a Vadius: Aux ballades surtout, vous tes
admirable. Se Vadius, em vez de responder, como na comdia: Et dans les
bouts-rims je vous trouve adorable, disser simplesmente: A propsito,
que  que h do ministrio?  l se vai todo o plano de Trissotin,
que gastou o seu versinho bonito, sem receber nada.

Em vez disso, inaugurei o meu
sistema, fundado no princpio de que o homem deve dizer tudo o que pensa. Se o
meu vizinho pensa que  um pasccio, por que no h de escrev-lo? Se eu cuido
que sou um cidado conspcuo e ilustrado, por que hei de cal-lo? A verdade,
quer ofenda o meu vizinho, quer me lisonjeie, deve ser pblica. Nua saiu ela do
poo, nua deve ir s casas particulares. Quando muito, pem-se-lhe umas
pulseiras de ouro; em vez de dizer ilustrado, direi  profundamente
ilustrado.

Agora vejam. Isto que  justo,
claro, transparente e racional, no o tinha podido at aqui meter no bestunto
dos meus contemporneos. Vivia como uma espcie de Maom sem Ali, pregava no
vcuo, falava a surdos. Nas Cmaras, continuava a dobrar-se o colo humilde de
Trissotin: 'Perante esta Cmara to rica de talentos, eu, o ltimo dos
seus membros...' Logo Vadius retificando: 'No apoiado! V. Exa.  um
dos ornamentos do pas!' Concordo que  bonito, mas est trocado.

Desanimado, cheio de desgostos,
que s pode sentir quem j foi profeta sem aderentes, ia abandonar a empresa,
quando a Providncia fez reunir os acionistas do Banco Auxiliar; foi a primeira
manifestao desse poder misterioso e oportuno. A segunda foi o parecer da
comisso do exame de contas, papel excelente, em que leio que o Sr. Del
Vecchio, 'no louvvel intuito de concorrer para desenvolver o
banco', tinha proposto em tempo certa reforma. E o Sr. Del Vecchio 
justamente um dos signatrios do parecer; circunstncia que ele acentua bem,
para mostrar a sua adeso  idia nova.

Del Vecchio, amado Del Vecchio, tu
que acreditaste em mim, fica sendo o meu califa. No h mais que um Deus, e
Maom  o seu profeta. Agora posso fugir para Medina, a verdade vencer, a
despeito da fraqueza de uns, da maldade de outros e do erro de todos.

Coraes que sufocais em grmen os
mais belos adjetivos do mundo, deixai que eles brotem francamente, que cresam
e apaream, que floresam, que frutifiquem! So os frutos da sinceridade. Eia,
coraes medrosos, sacudi o medo, bradai que sois grandes e divinos. As
primeiras pessoas que ouvirem a confisso de um desses coraes retos, diro
sorrindo umas para as outras:

 Ele diz que  nobre e divino.

As segundas:

 Parece que ele  nobre e divino.

As terceiras:

 Com certeza ele  nobre e
divino.

As quartas:

 No h nada mais nobre e divino.

As quintas:

 Ele  o que  mais nobre
e divino.

As sextas:

 Ele  o nico que  nobre e
divino.

E tu descansars nas stimas, que
amaciaro para ti o regao absoluto. Tudo porque eu, um dos caracteres mais
elevados do nosso tempo, esprito esclarecido e abalizado, iniciei a prtica do
verdadeiro princpio. E o que  que se d comigo mesmo? Lulu Snior, que  hoje
(com razo) um dos meus mais estrnuos admiradores, j no me chama outra
coisa:  esprito abalizado para c, esprito abalizado para l. Ainda ontem:

 Llio, tu que s um dos
espritos mais abalizados que conheo, podes dizer-me por que  que no jantar
poltico ao Silva Tavares no houve discursos polticos?

 Culpa do cozinheiro, respondi
eu. Como se no bastasse um poisson fin  la diplomate, incluiu ele no menu,
publicado no Pas, uma certa Dinde farcie  la Prigord... Prigord,
como sabes,  puro Talleyrand, Talleyrand-Prigord, o gro-mestre dos
diplomatas.

 No se pode contestar que s um
dos espritos mais abalizados deste pas.

 Apoiado! um dos seus ornamentos!

24 de maro

Aqui h dias o Clube de Engenharia
deu parecer sobre uma mquina denominada Fluminense. Para saber o que
era, parece que bastava pergunt-lo ao Clube, ou ao inventor; mas, como as
imaginaes vadias dias contraem maus costumes, preferi ocupar a minha a ver se
acertava por si mesma com a aplicao da coisa.

No posso, no devo, no quero
contar ao leitor qual foi o processo da minha imaginao, nem por que voltas e
revoltas, depois de crer que era uma mquina para via frrea, acabei supondo
que se tratava de um aparelho destinado a despolpar caf! Parece pulha que, sem
mais recurso que o da simples conjetura e um pouco de induo, pudesse alcanar
to prodigioso resultado; mas  a pura verdade.

Pois, senhores, posso limpar a mo
 parede com o meu trabalho de imaginao: a mquina era simplesmente de
loteria. Se  boa ou m, no vi; limito-me a publicar o caso, para escarmento
dos espritos temerrios, ou rotineiros, no sei como diga; mas qualquer
palavra serve, contanto que fique escarmento, que  o principal.

A primeira coisa que revela a
mquina de que eu trato,  a f no futuro. Os sapateiros no fariam mais
sapatos, se acreditassem que todos iam nascer com pernas de pau. Inventar uma
mquina para a loteria, disposto a aperfeio-la com o tempo,  implicitamente
declarar que no est perdida a f na permanncia da instituio. O contrrio
seria absurdo.

Ora, no como veculo da postura,
mas como rgo de uma instituio,  que a mquina foi ter ao Clube de
Engenharia para ser examinada. Como obra prtica, admito que se preferisse ver
a ateno do Clube ocupada com algum aparelho de despolpar caf; mas em teoria
 a mesma coisa. H at autores que afirmam que, ainda pelo lado prtico, no
h diferena nenhuma, porque ambas as mquinas despolpam, uma caf, outra
algibeiras; mas isto no passa de um execrvel calembour indigno da
cincia.

O que fica aventado  que a
instituio da loteria tem ainda algumas boas dcadas de existncia. Deus a
conserve! Ela  o auxlio da piedade econmica, organizada em irmandades, que
alumiam o Altssimo com a porcentagem da basbacaria humana, que  (perdoe a sua
ausncia) a melhor aplice que eu conheo, sem desfazer nas do Estado. Ela
distribui o po, o lenol, levanta pontes, conserta estradas, cuida do homem
todo, corpo e alma, por fora e por dentro, na vida e na morte.

Quando porm no fosse assim, a
cincia nada tem que ver com a utilidade ou perversidade das instituies. O
lado social no lhe pertence, mas s o mecnico. Demais, h um princpio de
solidariedade que liga todas as instituies de um pas, a loteria e a
engenharia. Foi o primeiro aparelho nacional que o Clube examinou? No quer
dizer nada; por algum se h de comear, e, mquina por mquina, antes a Fluminense
que a do Fieschi, a infernal, que levava a gente desta para melhor. O que
no mata engorda, dizem os velhos; mas supondo mesmo que emagrea... Opportet
magricellas esse, com perdo de quem me ouve.

29 de maro

O Sr. Alves dos Santos exerce os
cargos de vigrio e de deputado provincial no Rio de Janeiro. Isto permite-lhe
cumprir  risca o preceito evanglico, dar a Csar o que  de Csar, os
oramentos, e a Deus o que  de Deus, a orao. J  dar muito: mas o Sr. Alves
dos Santos quis dar mais alguma coisa, e mandou-me duas fortes sacudidelas por
intermdio de um discurso.

Um colega (temporal) de Sua
Reverendssima tinha proposto que se representasse ao governo geral sobre a
necessidade de mandar procos para as duas freguesias que os no tm h cinco
meses. Levantou-se o Sr. Alves dos Santos e props que, em vez disso, se
oficiasse ao sr. bispo para que informe quantas freguesias esto sem proco
(declarou que eram muitas), e deu como razo do requerimento substitutivo a
plausibilidade de parecer que o primeiro era uma censura ao diocesano, que nenhuma
culpa tem na falta de procos nas freguesias.

At aqui vai tudo bem. Se o bispo
no tem culpa,  injusto censur-lo. Mas por que  que o bispo no tem culpa?
Por dois motivos: o primeiro  a falta de sacerdotes, e aqui vai a primeira
sacudidela, que no foi a maior. Tm morrido durante o episcopado atual mais de
duzentos padres, e apenas se ordenaram vinte; os seminrios esto desertos, e
h anos que no se d uma s ordenao nesta diocese, por no haver mais
vocaes para o estudo sacerdotal.

Ao voltar do abalo, perguntei a
mim mesmo se h razo para censurar o bispo, quando ele escolhe para as
freguesias padres estrangeiros. Onde no h, el-Rei o perde. Entretanto,
admirado da falta absoluta de vocaes eclesisticas, e cogitando nas
conseqncias que daqui vos podem vir, tratei de ver se achava no discurso
alguma razo explicativa de um tal fenmeno, alm do que, por mim mesmo, e fora
dele, pareceu-me haver achado.

E dei com outra no discurso. O Sr.
Alves dos Santos disse, de passagem, que o sr. bispo reformou os estudos, e
dificultou um pouco mais a ordenao, 'por querer um clero, no ignorante,
mas com a ilustrao necessria para combater as perigosas idias do
sculo.' Deus me defenda de debater nesta coluna brincalhona, e com to
graves personagens, a questo de saber se o perigo  das idias ou dos
sentimentos do sculo; limito-me a concluir da reforma dos estudos, que em
pouco tempo estar o sr. bispo sem ter quem mande para as freguesias, a no
querer por l os jornalistas que o censurarem. A est um resultado com que se
no contava h vinte anos, e, por menos que se espalhe a todo o Brasil, teremos
este singular contraste: um povo catlico, em que ningum quer ser padre... Mas
eu tenho pressa de chegar  segunda sacudidela.

A segunda foi esta: 'O padre,
em geral, (disse o Sr. vigrio Santos) procura as melhores freguesias, nas
quais possa subsistir sem o grande nus de cura dalmas.'

Desta vez ca no cho. Ao
levantar-me, reli o trecho, era aquilo mesmo, sem perfrase. A perfrase  um
grande tempero para essas drogas amargas. Se eu chamar tratante a um homem, ele
investe para mim; mas se eu lhe disser que o seu procedimento no  adequado
aos princpios corretos e sos que Deus ps na conscincia humana para o seguro
caminho de uma vida rigorosamente moral,  quando o meu ouvinte houver
desembrulhado o pacote, j eu voltei  esquina. Foi o que o Sr. vigrio Santos
no fez, e podia faz-lo.

Que o padre, em geral, procure as
melhores freguesias, em que possa subsistir, v; nem todos ho de ser uns Sos
Paulos, nem os tempos comportam a mesma vida. Mas o que me fez cismar, foi este
acrscimo: 'sem o grande nus de cura dalmas'. Isto, se bem entendo,
quer dizer ganhar muito sem nenhum trabalho. Mas, vigrio meu,  justamente o
emprego que eu procuro, e no acho, h uns vinte e cinco anos, pelo menos. No
cheguei a pr anncios, porque acho feio; mas falo a todos os amigos e
conhecidos, obtenho cartas de recomendao, palavras doces, e mais nada. Se
tiver notcia de algum, escreva-me pelo correio, caixa n. 1712.

3 de abril

H algum, disse o Sr. Senador
Joo Alfredo, citando um velho dito conhecido, h algum que tem mais esprito
que Voltaire,  todo o mundo.

No sei se j alguma vez disse ao
leitor que as idias, para mim, so como as nozes, e que at hoje no descobri
melhor processo para saber o que est dentro de umas e de outras,  seno
quebr-las.

Aos vinte anos, comeando a minha
jornada por esta vida pblica que Deus me deu, recebi uma poro de idias
feitas para o caminho. Se o leitor tem algum filho prestes a sair, faa-lhe a
mesma coisa. Encha uma pequena mala com idias e frases feitas, se puder,
abenoe o rapaz e deixe-o ir.

No conheo nada mais cmodo.
Chega-se a uma hospedaria, abre-se a mala, tira-se uma daquelas coisas, e os
olhos dos viajantes fascam logo, porque todos eles as conhecem desde muito, e
crem nelas, s vezes mais do que em si mesmos.  um modo breve e econmico de
fazer amizade.

Foi o que me aconteceu. Trazia
comigo na mala e nas algibeiras uma poro dessas idias definitivas, e vivi
assim, at o dia em que, ou por irreverncia do esprito, ou por no ter mais
nada que fazer, peguei de um quebra-nozes e comecei a ver o que havia dentro
delas. Em algumas, quando no achei nada, achei um bicho feio e visguento.

No escapou a este processo a
idia de que todo o mundo tem mais esprito do que Voltaire, inventada por um
homem ilustre, o que foi bastante para lhe dar circulao. E, palavra, no caso
desta, senti profundamente o que me aconteceu.

Com efeito, a idia de que todo o
mundo tem mais esprito do que Voltaire,  consoladora, compensadora e
remuneradora. Em primeiro lugar, consola a cada um de ns de no ser Voltaire.
Em segundo lugar, permite-nos ser mais que Voltaire, um Voltaire coletivo,
superior ao Voltaire pessoal. s vezes ramos vinte ou trinta amigos; no era
ainda todo o mundo, mas podamos fazer um oitavo de Voltaire, ou um dcimo.
Vamos ser um dcimo de Voltaire? Juntvamo-nos; cada um punha na panela comum o
esprito que Deus lhe deu, e divertamo-nos muito. Saamos dali para a cama, e
o sono era um regalo,

Perdi tudo isto. Peguei desta
compensao to cmoda e barata, e deitei-a fora. Funesta curiosidade! O que
achei dentro, foi que todo o mundo no tem mais esprito que Voltaire, nem mais
gnio que Napoleo. Cito estes dois grandes homens, porque o segundo l est
citado na frase do eminente senador.

Sim, meus amigos. Choro lgrimas
de sangue com a minha descoberta; mas que lhes hei de fazer? Consolemo-nos com
o ser simplesmente Macrio ou Pantaleo.

Multipliquemo-nos para vrios
efeitos, para fazer um banco, uma cmara legislativa, uma sociedade de dana,
de msica, de beneficncia, de carnaval, e outras muitas em que o bulo de cada
um perfaz o milho de todos; mas contentemo-nos com isto.

Nem me retruque o leitor com o
fato de ter de um lado a opinio do autor da idia, e as geraes que a tm
repetido e acreditado, enquanto do outro estou apenas eu. Faa de conta que sou
aquele menino que, quando toda a gente admirava o manto invisvel do rei,
quebrou o encanto geral, exclamando:  El-Rei vai nu! No se dir
que, ao menos nesse caso, toda a gente tinha mais esprito que Voltaire.
Est-me parecendo que fiz agora um elogio a mim mesmo. Tanto melhor;  minha
doutrina.

9 de abril

Fui ontem visitar um amigo velho,
Fulano Pblico, e achei-o acabando de almoar; chupava os ltimos ossinhos do
processo do colar de brilhantes. A casa em que mora,  um resumo de todas as
habitaes, desde o palcio at o cortio, para exprimir  creio eu  que ele 
o complexo de todas as classes sociais. Minha genealogia, bradava-me ele h
anos, remonta  origem dos tempos. No dia em que houve duas rs para ouvirem o
coaxar de uma terceira, nesse dia nasceu o meu primeiro pai'.

Entrei, mandou-me sentar, e
ofereceu-me almoo, que recusei. No fim, entre uma xcara de caf e um charuto,
perguntou-me o que queria.

 Meu caro Pblico... ia eu
dizendo.

 Chama-me ilustrado. Chama-me
respeitvel ou digno, se queres. Nada de adjetivos familiares. Vens pedir-me
ainda para as vtimas da Andaluzia?

 No.

Respirou; depois ouviu-me com
muita ateno. Se eu me ria, ele ria tambm; se levantava os braos, fazia a
mesma coisa:  a sua teoria de hospitalidade. Confessou-me que receia ficar com
a sela na barriga. Acabou o colar de brilhantes, acabou a menina da fortaleza,
acabou a menina espancada; acabou tudo. O prprio roubo do consulado, que
prometia render, sabe ele que foi tudo mentira; no s estavam l os trezentos
contos, mas ainda se achou um acrscimo de quatro patacas; foi o prprio gatuno
que, no ato da tentativa, sentiu um aperto no corao, e l deixou, alm do que
estava, tudo o que trazia consigo. A Cmara dos Deputados  tambm acabou.

 No, senhor; est verificando os
poderes. No se reuniu na semana passada porque era de penitncia. Na
segunda-feira, se no fez sesso, foi por causa da morte de dois membros.

 Quer-me parecer que era melhor,
nos casos de morte de um representante, fazerem as nossas Cmaras o que fazem
todas as cmaras do mundo: notcia do fato, alocuo do presidente adequada aos
mritos do finado, e continuam os trabalhos, que so de interesse pblico.

 Velhaco! Tu o que queres,  que
no te tirem o manjar dos debates.

 No h tal; aceito qualquer
coisa. Ao almoo, tendo uma fritadinha de cachaes, navalhadas de escabeche,
algum desfalque, e caf por cima, estou pronto. Ao jantar, contento-me com uma
boa arara; mas no rejeito segunda. O mais  o que me der o cozinheiro.

 Sim; mas a bela cozinha
parlamentar  outra coisa. Confessa que ests aborrecido com a Cmara.

 No digo que no.

 Tens o Senado.

 Fica um pouco longe. E depois,
eu apesar de tudo, tenho umas esquisitices. Acho que este negcio de discutir
no Senado o projeto do Governo, antes que os convocados especialmente digam
alguma coisa,  contra a etiqueta.

 No sei por qu.

 Cada Cmara tem o seu papel: a
dos deputados derruba os Ministrios, o Senado organiza-os.

 Sendo assim,  bom que se saiba
j a opinio de quem tem de organizar o novo gabinete, se o houver.

 Crs que haja?

 Francamente, eu, nisto como em
outras coisas, opino com o outro que dizia: creio que dois e dois so quatro,
e quatro e quatro so oito; mais je n'en suis pas sr.

20 de abril

Como  possvel que hoje, amanh
ou depois, tornem a falar em crise ministerial, venho sugerir aos meus amigos
um pequeno obsquio. Refiro-me  incluso de meu nome nas listas de
ministrios, que  de costume publicar anonimamente, com endereo ao Imperador.

H de parecer esquisito que eu,
at aqui pacato, solicite uma fineza destas que trescala a pura ambio.
Explico-me com duas palavras e deixo de lado outras duas que tambm podiam ter
muito valor, mas que no so a causa do meu pedido.

Na verdade, eu podia comparar a
ambio s flores, que primeiro abotoam e depois desabrocham; podia dizer que,
at aqui, andava abotoado. Por outro lado, se a ambio  como as flores, por
que no ser como as batatas, que so comida de toda a gente? E tambm eu no
sou gente? no sou filho de Deus? Nos tempos de carestia, a ambio chega a
poucos, Csar ou Sila? mas nos perodos de abundncia estende-se a todos, a
Balbino e a Maximino. Faam de conta que sou Balbino.

Mas no quero dar nenhuma dessas
razes, que no so as verdadeiras causas do meu pedido. Vou ser franco, vou
abrir a minha alma ao sol da nossa bela Amrica.

A primeira coisa  toda subjetiva;
 para ter o gosto de reter o meu nome impresso, entre outros seis, para
ministro de Estado. Ministro de qu? De qualquer coisa: contanto que o meu nome
figure, importa pouco a designao. Ainda que fosse de verdade, eu no faria
questo de pastas, quanto mais no sendo. Quero s o gosto;  s para ler de
manh, sete ou oito vezes, e andar com a folha no bolso, tir-la de quando em
quando, e ler para mim, e saborear comigo o prazer de ver o meu nome designado
para governar.

Agora a segunda coisa, que  menos
recndita. Tenho alguns parentes, vizinhos e amigos, uns na Corte e outros no
interior, e desejava que eles lessem o meu nome nas listas ministeriais, pela
importncia que isto me daria. Creia o leitor que s a presena do nome na
lista me faria muito bem. Faz-se sempre bom juzo de um homem lembrado, em
papis pblicos, para ocupar um lugar nos conselhos da Coroa, e a influncia da
gente cresce. Eu, por exemplo, que nunca alcancei dar certa expresso ao meu
estilo, pode ser que a tivesse da em diante; expresso no estilo e olhos azuis
na casa. Tudo isso por uma lista annima, assinada  Um brasileiro ou A
Ptria.

No me digam que posso fazer eu
mesmo a coisa e mand-la imprimir, como se fosse de outra pessoa. Pensam que
no me lembrei disso? Lembrei-me; mas recuei diante de uma dificuldade grave.

Compreende-se que uma coisa destas
s pode ser arranjada em segredo, para no perder o merecimento da lembrana.
Realmente, sendo a lembrana do prprio lembrado, l se vai todo o efeito, para
ficar em segredo, era preciso antes de tudo disfarar a letra, coisa que nunca
pude alcanar; e, se uma s pessoa descobrisse a histria e divulgasse a
notcia, estava eu perdido. Perdido  um modo de falar. Ningum se perde neste
mundo, nem Balbino, nem Maximino.

Eia, venha de l esse obsquio!
Que diabo, custa pouco e rende muito, porque a gratido de um corao honesto 
moeda preciosssima. Mas pode render ainda mais. Sim, suponhamos, no digo que
acontea assim mesmo; mas suponhamos que o Imperador, ao ler o meu nome, diga
consigo que bem podia experimentar os meus talentos polticos e administrativos
e inclua o meu nome no novo gabinete. Pelo amor de Deus, no me atribuam a
afirmao de um tal caso; digo s que pode acontecer. E pergunto, dado que
assim seja, se no  melhor ter no ministrio um amigo, antes do que um inimigo
ou um indiferente?

No cobio tanto; contento-me com
ser lembrado. Terei sido ministro relativamente. H muitos anos, ouvi uma
comdia, em que um furriel convidava a outro furriel para beber champagne.

 Champagne! exclamou o
convidado. Pois tu j bebeste alguma vez champagne?

 Tenho bebido... relativamente.
Ouo dizer ao capito que o major costuma beb-lo em casa do coronel.

No peo outra coisa; um clice de
poder relativo.

25 de abril

Ningum dir,  primeira vista,
que entre a nascente instituio dos guardas-noturnos e a Assemblia Provincial
de Sergipe, haja o menor ponto de contato. Mas, fitando bem os olhos, v-se
logo que h um, e no pequeno.

Relativamente aos guardas,
confesso que a princpio achei a coisa esquisita, por me parecer que se tratava
de um Estado no Estado; mas as explicaes vieram, e vimos todos, que se trata
de uma simples medida de vigilncia particular, limitada ao quarteiro, sem
nenhuma ao pblica. Pelo amor de Deus, no vo acreditar que  este o ponto
de contato com a Assemblia Provincial de Sergipe, ou qualquer outra. Se o
fosse, no teria dvida em diz-lo; mas  que no .

A Assemblia sergipana, segundo as
notcias de hoje, abriu-se solenemente h mais de um ms, e no tornou a
reunir-se por falta de nmero,  de quorum,  o termo tcnico,  que
alis ainda no tinha no prprio dia da abertura. Vejam bem: ainda no havia quorum
no dia da abertura da Assemblia. No sou eu que o digo,  a Gazeta de
Sergipe.

Estou a crer que o leitor j
comea a descobrir o ponto de contato entre os guardas e a Assemblia
sergipana; mas, ainda que o no descubra, peo-lhe que me acene com os olhos
que sim, e ento seremos dois, e daremos maior fora  reclamao que proponho,
reclamao pecuniria, ou, nos prprios termos da coisa, uma restituio.

Porquanto, os sergipanos pagam o
subsdio  Assemblia, para que esta lhes faa as leis, assim como ns pagamos
imposto ao Estado, para que ele, entre outros servios de que se incumbe, nos
guarde as casas e as pessoas. Ora, se a Assemblia sergipana, em vez de fazer
as leis necessrias aos sergipanos, limita-se a beber os ares da bela Aracaju;
e se ns, por segurana, pagamos a quem nos vigie a porta; parece (salvo erro)
que h aqui lugar para clamar como o Chicaneau de Racine: H! rendez donc
l'argent!

Escrevi Chicaneau? Mas a nossa
posio e a dos sergipanos  muito mais slida que a de Chicaneau. Este queria
to-somente peitar o porteiro do juiz, ao passo que ns no queremos peitar
ningum neste mundo. Os sergipanos dizem: 'No podendo ns mesmos fazer as
leis, incumbimos estes cavalheiros de as fazerem; e para que no percam o seu
tempo, os indenizamos do que deixam de ganhar...' E ns:  'como
temos de ganhar a nossa vida, vendendo, fabricando, medicando ou advogando,
fica este cavalheiro, em nome do Estado, incumbido de fazer uma poro de
coisas, entre outras guardar a integridade da nossa fazenda, dos nossos narizes
e do nosso sono; pelo que receber, com diversos ttulos, um tanto por ano'.

Se isto  peitar, no sei o que
seja contratar. Em vez da exclamao srdida de Chicaneau, prefiro uma frmula
singela e grave, que se ajusta a ambos os casos presentes: quibus exige quorum.
Entretanto, como  meu vezo antigo no apontar um mal que lhe no d logo o
remdio, vou dizer aqui o que se pode fazer sem reclamao nem barulho. Nada de
barulhos. No  remdio para ambos os casos, note-se bem, mas para um s, ou
mais exatamente para um daqueles e outro que me est pingando dos bicos da
memria. Fica o da Corte para melhor ocasio.

O remdio  este:

Li h dias, anteontem, que a
Assemblia Provincial da Bahia foi adiada por falta de subsdio. Assim, temos
que na Bahia h deputados sem subsdio, e em Sergipe subsdio sem deputados. O
remdio  transferir o subsdio de Sergipe para os deputados da Bahia, e os
deputados do referido Sergipe para quando se anunciar. No atual estado, nem
Sergipe nem Bahia tm leis, por falta de uma ou de outra coisa; mas, com o meio
que lembro, uma das duas provncias ganha a legislatura. Dir-me-o que Sergipe
no ganha nada. Perdo, e a experincia?

10 de maio

 Amanh  um grande dia! exclamou
o meu amigo, faiscando-lhe os olhos de contentamento.

No posso dizer o nome dele;
suponhamo-lo Calisto. Amanh  um grande dia para ele, porque  o da
apresentao do Ministrio s Cmaras, fato que na vida do meu amigo equivale a
um batizado de criana na vida de todos os pais. Vo entend-lo em poucas
linhas.

Calisto s adora uma coisa, mais
do que as crises ministeriais,  a apresentao dos Ministrios novos s
Cmaras. Moo anunciada pode contar com ele. E gosta das crises compridas,
atrapalhadas, arrastadas, cheias de esperanas longas e boatos infinitos. Mas
to depressa se organiza o Ministrio, como lhe cai a alma aos ps. O que o
consola ento, e muito,  a idia da apresentao; nem mais nem menos o que lhe
acontece desde o dia 4.

Amanh vai ele muito cedo para a
porta da Cmara dos Deputados, com biscoitos no bolso e pacincia no corao. A
pacincia, com perdo da palavra,  um biscoito moral, dado pelo Cu a muito
poucos. Calisto  dos poucos.  capaz de agentar um temporal, uma soalheira,
uma carga de cavalaria, sem arredar p da porta da Cmara, at que lha abram.
Abrem-lha, ele entra, sobe, arranja um bom lugar.

No atribuam ao Calisto nenhuma
preocupao poltica, pequena ou grande, nenhum amor ao Dantas ou ao Saraiva,
ao projeto de um ou de outro, nem  grande questo que se debate agora mesmo em
todos os espritos. No, senhor; este Calisto  um distintssimo curioso, na
poltica e no piano. Importa-lhe pouco saber de um problema ou da sua soluo.
Contanto que haja barulho, d o resto de graa.

Justamente o dia de amanh cheira
a chamusco, debate grosso, veemncia, chuva de apartes, improprios, tmpanos,
confuso. Pode ser que no haja nada; mas ele cuida que h, e lambe-se todo de
contente s com a idia de um pandemnio.

Na imaginao dele, a coisa h de
se passar assim. Os primeiro minutos de nsia e curiosidade,  votaes
distradas, arengas curtas. Pela uma hora da tarde, anuncia-se o Ministrio,
que aparece rompendo a custo a multido de curiosos. Grande burburinho,
crescente ansiedade. Sentam-se os ministros, explica-se a crise, e o Saraiva
tem a palavra para expor o programa. O profundo silncio com que ele h de ser
ouvido  um dos regalos do Calisto, que ouve atravs do silncio o tumulto das
almas.

Depois rompe um deputado. Qual
deputado? No sabe qual seja, mas h de ser um, provavelmente o Jos Mariano,
ou algum com quem se no conte, e est acesa a guerra  brotam os apartes,
agitam-se os nimos; vem outro orador, mais outro  cruzam-se os remoques,
surgem os punhos cerrados, bufam as cleras, retinem os entusiasmos. E o meu
Calisto, de cima, olhar para baixo, e gozar um bom dia, um dia raro, igual
quele 18 de julho de 1868, quando o Itabora penetrou na Cmara liberal, com
os conservadores. O Calisto ainda se lembra que no jantou nesse dia.

Agora, que a questo ainda  mais
grave, a sesso h de render mais,  ou dar sorte, que  a
locuo do meu amigo. Calisto espera sair amanh dali, abarrotado de comoo
para seis meses. Jura a quem quer ouvir, que no tem preferncias nem
antipatias. Tambm no quer saber se do debate lhe sair alguma restrio
pessoal ou pecuniria. Contanto que haja tumulto, est ganho o dia, e o dia
seguinte pertence a Deus.

Ide v-lo,  sada da Cmara,
olhando embasbacado; estar ainda alegre. Mas no dia seguinte, que o diabo diz
que tambm  dele, vereis o meu pobre Calisto arrimado a alguma porta ou
esquina,  espreita de algum sucesso que passe, desconsolado como na pera do
nosso Antnio Jos:

To alegres que fomos,

To tristes que viemos.

16 de maio

Ontem, ao voltar uma esquina, dei
com os impostos inconstitucionais de Pernambuco. Conheceram-me logo; eu  que,
ou por falta de vista, ou porque realmente eles estejam mais gordos, no os
conheci imediatamente. Conheci-os pela voz, vox clamantis in deserto.
Disseram-me que tinham chegado no ltimo paquete. O mais velho acrescentou
at que, j agora, ho de repetir com regularidade estas viagens  Corte.

 A gente, por mais
inconstitucional que seja, concluiu ele, no h de morrer de aborrecimento na
cela das probabilidades. Uma chegadinha  Corte, de quando em quando, no faz
mal a ningum, exceto...

 Exceto... ?

 Isso agora  querer perscrutar
os nossos pensamentos ntimos. Exceto o diabo que o carregue, est satisfeito?
No h coisa nenhuma que no possa fazer mal a algum, seja quem for. Falei de
um modo geral e abstrato. Voc costuma dizer tudo o que pensa?

 Tudo, tudo, no; nem eu, nem o
meu vizinho boticrio, e mais  um falador das dzias.

 Pois ento!

 Em todo caso, demoram-se?

 Temos essa inteno. O pior  o
calor, mas felizmente comea a chover, e se a chuva pega, junho a vem com o
inverno, e ficamos perfeitamente. Est admirado?  para ver que j conhecemos o
Rio de Janeiro. Contamos estar aqui uns trs meses, no pode ser que vamos a
quatro ou cinco. J fomos  Cmara dos Deputados.

 Assistiram  recepo do
Saraiva, naturalmente?

 No, fomos depois, no dia 13,
uma sesso dos diabos. Ainda assim, o pior para ns no foi propriamente a
sesso, mas o demnio do Jos Mariano, que, apenas nos viu na tribuna dos
diplomatas, logo nos denunciou  Cmara e ao Governo. No pode calcular o medo
com que ficamos. Eu, felizmente, estava ao p de duas senhoras que falavam de
chapus, voltei-me para elas, como quem dizia alguma coisa, e dissimulei sem
afetao; mas os meus pobres irmos  que no sabiam onde pr a cara. Hoje de
manh, queriam voltar para Pernambuco; mas eu disse-lhes que era tolice.

 So todos inconstitucionais?

 Todos.

 Vamos aqui para a calada. E
agora, que tencionam fazer?

 Agora temos de ir ao Imperador,
mas confesso-lhe, meu amigo receamos perder o tempo. Voc conhece a velha
mxima que diz que a histria no se repete?

 Creio que sim.

 Ora bem,  o nosso caso.
Receamos que o Imperador, ao dar conosco, fique aborrecido de ver as mesmas
caras, e, por outro lado, como a histria no se repete... Voc, se fosse
Imperador, o que  que faria?

 Eu, se fosse Imperador? Isso
agora  mais complicado. Eu, se fosse Imperador, a primeira coisa que faria era
ser o primeiro ctico do meu tempo. Quanto ao caso de que se trata, faria uma
coisa singular, mas til: suprimiria os adjetivos.

 Os adjetivos?

 Vocs no calculam como os
adjetivos corrompem tudo, ou quase tudo; e quando no corrompem, aborrecem a
gente, pela repetio que fazemos da mais nfima galanteria. Adjetivo que nos
agrada est na boca do mundo.

 Mas que temos ns outros com
isso?

 Tudo. Vocs como simples
impostos so excelentes, gorduchos e corados, cheios de vida e futuro. O que os
corrompe e faz definhar  o epteto de inconstitucionais. Eu, abolindo por um
decreto todos os adjetivos do Estado, resolvia de golpe essa velha questo, e
cumpria esta mxima, que  tudo o que tenho colhido da histria e da poltica,
e que a dou por dois vintns a todos os que governam este mundo: Os adjetivos
passam, e os substantivos ficam.

21 de maio

Deusa eterna das iluses, Maia,
divina Maia, entorna sobre mim a tua nfora e conta-me o que se no passar hoje,
nem amanh, nem depois, nem segunda-feira.

Hoje, reunida a Cmara dos
Deputados, elege logo a mesa e a comisso de resposta  fala do trono. A
comisso rene-se imediatamente, e, considerando que j no ano passado
encerrou-se o Parlamento sem responder nada  coroa; que este ano, durante a
sesso extraordinria, nem se pde nomear a comisso; e finalmente que esta
lacuna, posto se trate de uma formalidade e no de um princpio, pode ser
interpretada por alguns, no como um descuido, mas como um sintoma da podrido
da prpria Cmara, resolve formular o projeto para ser apresentado amanh.

Amanh, sexta-feira,  lido o
projeto perante a Cmara, que aplaude a solicitude da comisso, e pede urgncia
para o debate. O presidente d o projeto para a ordem do dia de sbado.

No sbado, a cidade, estupefata,
v reunir-se a Cmara, que at aqui cumpria fielmente aquela regra do
Pentateuco que todo o israelita traz de cor, a saber: 'no sbado, entrars
na tua tenda, e no sairs dela'. Rene-se a Cmara para o fim de resgatar
pela brevidade a omisso das duas ltimas sesses.

Logo no princpio do debate pede a
palavra um deputado cujo nome me no ocorre, e comea uma dissertao acerca
das origens do sistema representativo e do uso do voto de graas; mas a Cmara brada-lhe
energicamente que passe ao dilvio.

No tem diversa sorte outro
orador, que deseja saber por que motivo esto vagas algumas comarcas do Norte e
se o carcereiro Reginaldo foi ou no metido em processo. Reginaldo? A Cmara levanta os ombros, diz-lhe que no se trata de questinculas
locais e o deputado senta-se.

Varridos assim esses ltimos
elementos de um passado igualmente maador e pueril, comea o debate, que no
dura mais de trs horas, falando em primeiro lugar o Sr. Andrade Figueira, em
nome do Partido Conservador, e seguindo-se-lhe os Srs. Loureno de Albuquerque,
Jos Mariano e o presidente do conselho. Este faz algumas declaraes
importantes; diz redondamente  Cmara que, na questo de saber se o oramento
deve preceder  reforma servil, ou esta quele, a opinio do Governo  que
devem ser tratados ambos ao mesmo tempo.

Antes das cinco horas estar
votado o projeto; o Senado, para no ficar atrs da Cmara, ter discutido e
votado o seu, e as respectivas mesas oficiaro ao Governo comunicando que as
respostas esto prontas. O Imperador marca o dia de segunda-feira,  uma hora
da tarde, no pao da cidade. Cerimonial do costume.

Assim, aps longos anos de desvio
nesta matria, e de omisso nos ltimos tempos, o Parlamento far da discusso
da resposta  fala do trono o que ela deve ser: uma expresso sumria e
substancial dos sentimentos dos partidos, em vez de um concerto sinfnico, em
que todos os tenores e todos os trombones desejam aparecer.

Maia, divina Maia, deusa eterna
das iluses...

28 de maio

Rien n'est sacr pour un sapeur! Leio nas folhas
pblicas, que a morte de Vtor Hugo tem produzido tanta sensao como os preos
baixos da grande alfaiataria Estrela do Brasil. Rien n'est sacr pour un
tailleur!

Eu, em criana, ouvi contar a
anedota de uma casa que ardia na estrada. Passa um homem, v perto da casa uma
pobre velhinha chorando, e pergunta-lhe se a casa era dela. Responde-lhe a
velha que sim.  Ento permita-me que acenda ali o meu charuto.

Imitemos este homem polido e
econmico. Vamos acender os charutos no castelo de Hugo, enquanto ele arde.
Vamos todos, havanas e quebra-queixos, finos ou grossos, e os mesmos cigarros,
e at as pontas de cigarro. Nunc est fumandum. Incndios duram pouco, e
os fsforos so vulgares.

Completemos as estrofes com
coletes, faamos de uma ode uma sobrecasaca. Est chorando, meu amigo? Enxugue
os olhos no cs destas calas. Vinte e dois mil-ris, serve-lhe? V l, vinte e
um. E olhe que  por ser para si. A gramtica no  boa, mas o
sentimento  sincero. Ce sicle avait deux ans... Pano fino; veja aqui, que est
mais claro. Gastibelza, lhomme  la carabine... Vai pelos vinte e um?  de graa.
Vinte? Vinte  pouco; d vinte e quinhentos. No? Est bom; v l... Pote,
ta fentre tait ouverte au vent...

 claro que isto pode aplicar-se a
outras coisas, no s aos coletes. Em geral inventamos pouco, e a idia que um
emprega fica logo rafada. Haja vista o Caf Papagaio, que j deu de si o Caf
Arara e o Caf Piriquito, e dar muitos outros, se Deus quiser, porque primeiro
acabar o uso do caf no mundo, do que as nossas belas aves no mato.

Que no venha o bando precatrio,
 s o que peo, e no peo pouco, porque, em vindo um, vm duzentos. Se fosse
um s, com outras festas diferentes, sim, senhor, era comigo; mas no pode ser
um s, h de ser como o Caf Papagaio e os carneiros de Panrgio. Tudo ir pelo
mesmo caminho. Os carros das idias, a vara e a bolsa, a guarda de honra, tudo
como no ritual. Eu, quando eles aqui andaram, estive quase a organizar um
bando, no precatrio, mas precatrio. Cometia um trocadilho
detestvel (vai em grifo para que no escape a ningum) mas ao menos salvava a
minh'alma, que no sei onde anda desde esse tempo.

Sei que resta a polca, que no h
de querer perder um petisco to raro, como a morte de um grande poeta. H a
dificuldade dos ttulos, que, segundo a esttica deste gnero de dana, devem
ser como os da ltima ou penltima publicada: Seu Filipe, no me embrulhe! No
se pode dizer:  Seu Vtor, no me embrulhe! A morte, ainda que seja de
um grande esprito, no se compadece com este gnero de capadoagem.

O modo de combinar as coisas seria
dar s polcas comemorativas um ttulo que, com o pretexto de aludir a escritos
do poeta, trouxesse o pico do escndalo. Freira no serralho, por
exemplo,  excelente, com esta epgrafe do poeta: De nonne, elle devient
sultane. E pontinhos. Ou ento este outro: A filha do papa! Eia,
polquistas, no desesperemos da basbacaria humana.

3 de junho

Ando to atordoado, que no sei se
chegarei ao fim do papel. Se escorregar, segure-me.

A primeira causa do atordoamento
(so muitas)  a revelao que nos fez o Sr. Dr. Prado Pimentel no artigo que
escreveu contra o vice-presidente de Sergipe, por intervir na eleio. S. Exa.
recorda ao Sr. Faro ( o nome dele) alguns servios que lhe prestou. Entre
estes figura a nomeao de tenente-coronel da Guarda Nacional, feita a
instncias de S. Exa.; cita mais o pedido que o Governo no pde satisfazer, de
um ttulo de baro,  Baro de Japaratuba.

Perdoe-me S. Exa.. Cuido que esta
revelao, desvendando o segredo profissional, vai lanar a mais cruel
desiluso no nimo de todos os agraciados deste pas. Eu mesmo, que no tenho
nada na casaca, nem no nome, estou que no posso comigo, pela razo natural de
que posso vir a ter alguma coisa. Em verdade, pelo que se passou na conscincia
e na imaginao do Sr. Faro, pode-se calcular o que acontece nas de todos que
recebem uma graa.

Na conscincia:

 Faro, ests tenente-coronel.
Podes crer que no h graa mais bem merecida. Se h alguma coisa que notar no
ato do governo, foi a demora.

Ests vendo, Faro?  o prmio da
modstia, do zelo, do amor aos princpios, e principalmente,  o reconhecimento
de que possuis o ar marcial. No negues, Faro; tu tens o ar marcial. Vai ali ao
espelho. No s Napoleo, mas ningum que te veja pode deixar de exclamar: Ou
eu me engano, ou este homem acaba tenente-coronel. E ests tenente-coronel, Faro.
No duvides; rel a carta imperial. Olha o chapu que o Graciliano te mandou da
Corte. No me digas que no tens batalho que comandar; o teu ar marcial far
crer que tens um exrcito. Incessu patuit Dea. Dea ou Faro so
sinnimos.

Na imaginao:

 Foi o Imperador que disse ao
Ministro da Justia, em despacho: 'Sr. Lafayette, no esquea o
Faro'.  Que Faro?  O Faro de Sergipe.  C est o decreto; digne-se
Vossa Majestade de assin-lo. E o Imperador, assinando o decreto, ia dizendo ao
ministro:  Posso afirmar-lhe, Sr. Lafayette, que tenho as melhores notcias
deste Faro.  Tambm eu, acudiu o Ministro da Justia.  Todos ns, disseram os
outros. E foi um coro de elogios: cada qual notava o teu zelo, retido e
clareza de esprito, temperana dos costumes, afabilidade das maneiras,
sintaxe, penteado, filosofia, etc., etc.

Tudo isso desaparece com a
revelao do Sr. Prado Pimentel. No desaparece para esse somente, mas para
todos os agraciados, que vo perder os aplausos da conscincia e as vises da
imaginao; passam a ser agraciados de um amigo, de um compadre, de um colega,
que vem  Corte e escreve no rol de lembranas: 'arranjar para o Chico
Boticrio uma comenda'. L se vai toda a teoria das graas do Estado. No,
o Sr. Dr. Prado Pimentel no podia desvendar o segredo profissional.

A segunda causa do meu
atordoamento foi a notcia que li, nuns versos publicados em honra de Vtor
Hugo, versos cheios de sentimento e vigor, entre os quais estes dois que me
estromparam:

Com suas filhas e netos,

Levou a cruz ao Calvrio.

Como se v, foi um suplcio de
famlia; mas, ainda sendo de famlia, todos os suplcios so lamentveis. E
aqui a consternao foi imensa. Ver aquele grande homem, ladeado de duas moas
e duas crianas, Calvrio acima, para l pr uma cruz,  ainda mais doloroso
que estupendo. E para que levaria l aquela cruz, se no tinha de morrer nela?
eis a o que me pareceu requinte da malvadez. A compensao nica de levar uma
cruz ao Calvrio  morrer nela. Deram ao pobre velho um suplcio, alm de
coletivo, gratuito.

J me lembrou se o novo poeta
apenas quis fazer uma figura. Em tal caso, desaparece esta segunda causa de
atordoamento, para s ficar um desejo ntimo, que no hesito em tornar pblico.
O desejo  que deixemos repousar o Calvrio por algum tempo. H j muito
Calvrio em verso e em prosa. Para que trocar este dobro de ouro em moedinhas
de nquel?  reduzi-lo a comprar cigarros.

Do Calvrio  Torre de So Jos 
um passo. Ouam agora a terceira causa do meu atordoamento.

Ontem, ao passar pela igreja, ouvi
tocar um belo tango ou fadinho; no sei bem o que era; mas realmente era coisa
patusca. Os sons vinham da torre; eram os sinos que falavam aos fiis da
parquia. J os tenho ouvido muitas vezes, e mais os da Lapa dos Mercadores,
que tambm nos do da mesma msica. Em qualquer outra ocasio, iria andando o
meu caminho; mas J estava atordoado, e ento quase ca.

Confesso-lhes que, a princpio,
fui injusto; atribu essa mistura de piedade e troa, a uma certa soma de
pulhice e trivialidade que suponho existir nos nossos miolos; mas adverti que a
culpa, se h culpa, deve ser toda do sineiro, que aproveita a ocasio de
anunciar aos fregueses a missa da manh para anunciar tambm o fandango da
noite.

E realiza ao mesmo tempo o que o
personagem de Boileau s podia fazer em horas separadas:

Le matin catholique et le soir
idoltre,

il dne de lEglise et soupe du
thtre.

Tu, meu sineiro, tu ceias e jantas
de uma e de outra cozinha, sem descer da torre. Os fregueses gostam, e a irmandade
gosta ainda mais. Artificioso muezzim cristo. Ulisses do badalo! Unes
assim o salmo ao couplet, em nome do Padre, do Filho e do Esprito
Santo.

8 de junho

Por libelo acusatrio,
dizem cinqenta cidados annimos contra a polcia, e especialmente o
Sr. Ciro de Azevedo, delegado, e, sendo necessrio,

P.P. que os autores estavam
pacificamente reunidos na casa n. 130 da Praa Onze de Junho, assistindo a uma
briga de galos, quando o ru apareceu acompanhado de alguns esbirros, e
dissolveu a reunio, com o pretexto de que era um espetculo brbaro, lanando
assim um labu a cinqenta cidados contribuintes e catlicos; pelo que

P.P. que o dito ru praticou um
duplo atentado, perturbando o uso do direito de reunio e deslustrando a fama
dos que o exerciam; e mais,

P.P. que, sendo o pensamento
secreto dos autores profundamente poltico e patritico, ainda mais grave se
tornou o ato da autoridade, que daquele modo, alm de ferir a lei e afrontar os
autores, atrasou a marcha do Estado; trplice violncia que a justia no deve
nem pode deixar impune, sob pena de abalar todos os alicerces da nossa vida
nacional, porquanto,

P.P. que, residindo na Inglaterra
a origem do sistema parlamentar e representativo,  a ela que devem recorrer
todos os Estados congneres, quando quiserem fortificar a prpria vida
poltica; sendo alis certo e universal, e nem pode neg-lo o ru, que a
imitao dos bons  um preceito de costumes, tanto na vida do indivduo como na
dos povos; pelo que,

P.P. que, lendo os autores, um dia
destes, os debates das cmaras, acharam que, a propsito da lei de foras de
terra e da resoluo prorrogativa do oramento, foram discutidos alguns
negcios de Sergipe, a reforma do estado servil, a dissoluo da Cmara em 1884, a organizao do conselho de estado, o poder pessoal e uma professora de primeiras letras, e
parecendo que esta prtica no  inglesa, assentaram de prover de remdio um
mal to grave; e assim,

P.P. que, no tendo assento na
Cmara, e no dispondo de um jornal sequer, trataram de escolher algum remdio
externo e indireto; e foi ento que um deles declarou possuir um galo, e
fazendo outro igual declarao, todos os demais autores, em nmero de quarenta
e oito, bateram na testa e exclamaram que o remdio estava achado, pois que a
briga de galos  prtica essencialmente britnica; e ainda mais,

P.P. que, escolhendo a briga de
galos, no tiveram os autores a mais remota inteno de aludir  atual briga
entre o Sr. Coelho e Campos, da Cmara, e o Sr. Baro da Estncia, do Senado, 
aluso sem mrito, porque cada um dos combatentes est no seu poleiro; e se a
alguma coisa quisessem os autores aludir, seria antes ao melhoramento trazido
pelo Dirio de Notcias, onde um altrusta conservador fala ao p de um
articulista conservador,  mesma mesa, como se estivessem em casa prpria; e,
sendo certo,

P.P. que, se no tiraram nenhuma
comparao do conflito entre os ditos senador e deputado, no lhes caiu no cho
uma palavra do discurso do primeiro destes, o citado Baro da Estncia, a qual
palavra  que o presidente de Sergipe, apenas ali chegou, demitiu todas as
autoridades da localidade de S. Exa., 'parecendo assim que ia hostilizar o
Partido Liberal e no o Conservador', palavra que, atenta a probidade e singeleza
de quem a proferiu, vale por um captulo de psicologia poltica; mas, sendo
certo,

P.P. que citam isto de passagem, e
para se defenderem de qualquer aluso menos cabida, no se demorando nisso, nem
no trecho em que outro digno senador, o Sr. Correia, se admira de que devam ao
tesouro 17.250:902$917 de impostos, e aconselha o meio executivo para
cobr-los, como querendo S. Exa. acabar violentamente com um dos ofcios mais
rendosos deste pas, que  no pagar impostos ao Estado; e, pois,

P.P. que, comeando a perder o fio
das idias, voltam aos galos e  casa n. 130 da Praa Onze de Junho, onde os
ditos galos brigavam, e onde o ru os foi dissolver, como se galo fosse gente
para merecer tanto barulho, e como se no fosse muito melhor fazer brigar os
galos do que brigarem as prprias pessoas umas com as outras, escorrendo sangue
das ventas humanas, sem divertimento para ningum, e principalmente para os
sangrados; e finalmente,

P.P. que param neste ponto, a fim
de no os aborrecer mais, aconselhando que, enquanto no chegam outros usos da
Inglaterra, vamos fazendo uso do galo e suas campanhas. Antes o galo que nada.

14 de junho

A razo que me faz amar, sobre
todas as coisas deste mundo, a nossa Ilma. Cmara Municipal,  que ali a gente
pode dizer o que tem no corao.

C fora tudo so restries e
cortesias. Um homem cr que outro  tratante e d-lhe um abrao, e raramente um
pateta morre com a persuaso de que o . Obra das convenincias, costumes da
civilizao, que corrompe tudo.

Na Ilustrssima  o contrrio.

Tudo ali parece respirar o estado
social de Rousseau,  a pura delcia da natureza em primeira mo. No h sedas
rasgadas, nem outras bugigangas e convenes.

Se nem todos observam a regra da
casa, que , logo  porta, desabotoar o colete e tirar os sapatos, no s para
estar  fresca como para meter os ps nas algibeiras dos outros,  porque no
se perdem facilmente os hbitos corruptos, mas basta que a regra exista, para
crer que a reforma total se far.

A ltima sesso (para no ir mais
longe) deu-nos um desses espetculos em que a natureza rude e ingnua vinga os
seus foros. Tratava-se da limpeza do matadouro.

Ao que parece, este servio estava
a cargo de Fuo Silva, que o fazia de graa, e foi dado a outro por 400$000
mensais. Um dos vereadores pegou do ato, e comeou por dizer que o presidente
no tinha culpa do que fizera, visto que foi mal informado por outro vereador,
e caiu em cima deste. No esteve com uma nem duas; disse-lhe claramente que
estava perseguindo o Silva, e protegendo a algum  custa dos cofres
municipais; que era um escndalo e j no era o primeiro; que o dito vereador 
uma potncia do matadouro, onde prefere a quem quer; que prorroga contratos sem
conhecimento da causa; que protege tambm um certo Marinho, e muitas outras
coisas, concluindo por dizer ironicamente que esperava que o outro, com a
eloqncia que todos lhe reconhecem, viria explicar o ato.

Tudo isso foi dito sem barulho, e
respondido sem barulho. A resposta do outro foi que o novo empresrio Fuo
Dumas, que faz a limpeza por 400$000, d 200$000 mensais ao primeiro, que a
fazia de graa. Juro por Deus Nosso Senhor que no estou inventando. A nica
coisa que fao  no entender nada. Nem isso, nem a proposta com que o orador
terminou, para que se faa o contrato definitivo com o dito Fuo Dumas, pagando
este  Cmara 100$000 mensais, em vez de receber os 400$000. Mas, repito, tudo
isto sem barulho.

Pode-se dizer,  verdade, que os
pontos mais escabrosos deviam ser excludos da ata, onde se relacionavam os
servios da Cmara, que no so poucos nem fceis. Com efeito, a natureza 
rude e franca; mas os ventos, que so os seus jornais, no transmitem tudo o
que ela arranca do corao; alguma coisa morre para todo o sempre. No; o
exemplo no presta; vejamos outro.

A civilizao, que no inventou o
defluxo, inventou o leno, que dissimula o defluxo, guardando no bolso os seus
efeitos. Mas a pura natureza ainda est com o chamado leno de cinco pontas,
que so, Deus me perdoe, os prprios dedos que ele nos deu, e a sua regra  ir
deixando os defluxos pelo caminho. Pois bem; deixe a Ilustrssima Cmara o uso
piegas do leno, no guarde na algibeira os seus defluxos, mas to-somente o
suor do seu trabalho. Deite o resto ao cho.

20 de junho

DILOGO DOS ASTROS

DOM SOL  Mercrio, d c os
jornais do dia.

MERCRIO  Sim, meu senhor. (Procurando
os jornais). Sempre me admira muito como  que Vossa Claridade pode
ler tantos jornais. So todos interessantes? Olhe, aqui tem o Escorpio.

DOM SOL  Uns mais que outros; mas
ainda que no tivessem interesse nenhum, era preciso l-los, para saber do que
vai pelo Universo. J chegou a Via-Lctea?

MERCRIO  Aqui est.

DOM SOL  Esta folha  das
menores; tem uma circulao de trezentos bilhes de exemplares.

MERCRIO  J no  mau! Aqui est
o Eclipse e a Fase...

DOM SOL  No so to bons.

MERCRIO  O Crescente, a Bela
Estrela Canopo e a Revista das Constelaes. Creio que  tudo. Falta
s o Cometa, mas, como sabe, s aparece de longe em longe; dizem at que
vai fechar a porta.

DOM SOL  (distrado) Il
faut qu'une porte soit ouverte ou ferme.

MERCRIO  Gracioso! mui gracioso!

DOM SOL  ( parte) O que
eu disse no tem graa nenhuma; foi uma coisa como qualquer outra, mas ele h
de rir por fora. (Alto) Bem, agora deixa-me.

MERCRIO  Perdo, mas... acho
aqui uma folha que nunca vi... Dirio do Brasil. Vossa Claridade
conhece-a?

DOM SOL  Dirio do Brasil?
No.

MERCRIO  Estava aqui com as
outras; so trs nmeros. Creio que  da Terra...

DOM SOL  Mercrio, tu sabes que
eu da Terra s leio o que diz respeito ao aspecto do cu, e isso mesmo s para
saber que figura fazemos l embaixo. Dirio do Brasil? Tu vs que
at o ttulo  brbaro. Leva, leva...

MERCRIO  (percorrendo um
nmero) Contudo, h coisas interessantes... Oh! c est o nome de Vossa
Claridade;  uma carta que lhe mandam. H de haver outras nos outros nmeros.
C est mais uma, mais duas.

DOM SOL  Cartas a mim? Eles que
me escrevem,  que tm alguma coisa nova ou interessante na cabea. Se assim
no fosse, no me escreveriam.

MERCRIO  Exato! perfeitamente
exato!

DOM SOL  ( parte) Isto
que acabo de dizer  inteiramente falso; mas a manha dele  achar exato tudo o
que no acha gracioso. (Alto) Mercrio, preciso de estar s; vai ali 
constelao da Grande Ursa fazer-lhe uma visita.

MERCRIO  Obedeo! ( parte)
Os tais nmeros do Dirio do Brasil foram recebidos por mim
mesmo  porta do Firmamento, para faz-los chegar s mos de Sua Claridade.
Esperemos agora o efeito da leitura. (Sai).

DOM SOL  Vejamos as tais cartas.
So trs... Tratam-me com muito azedume e ainda pior. Elemento qu?... Servil.
No sei o que . Elemento servil? Eu s conheo os antigos elementos, que eram
quatro, e hoje andam s dzias. Diz aqui que eu, se mergulhar numa pipa de
azeite no saio inclume; mas  que eu no mergulho. Para que diabo havia de
mergulhar numa pipa de azeite? Confesso que no entendo. (Depois de algum
tempo). Aqui parece que se me exorta a no esquecer um inolvidvel dever, e
no acho isto bom, porque o dever  coisa to rdua, que, ainda sendo
inolvidvel, por ser olvidvel. Provavelmente a palavra est na moda; l que 
bonita, . Inolvidvel! J me disseram que naquele pas certas palavras so
como o feitio do fraque, aparece um com um feitio novo, todos pegam do feitio,
at abandalh-lo; depois vem outro. Houve o feitio imaculado, depois
veio o feitio incomparvel, depois o feitio ntido, agora
 o inolvidvel. (Pausa). Comeo a ficar aborrecido. Mercrio!

MERCRIO  Pronto!

DOM SOL  J tinhas sado?

MERCRIO  J, sim, Senhor; estava
ali a cinco mil quilmetros, quando Vossa Claridade se dignou chamar-me.

DOM SOL  Mercrio, eu no entendo
estas cartas. Dizem-me coisas de que no sei absolutamente nada. Eu no mandei
ningum soprar coisa nenhuma no seio da Representao Nacional. No sei mesmo
onde  que ela fica.  alguma constelao nova?

MERCRIO  Saber Vossa Claridade
que, metaforicamente, por chamar-se uma constelao, mas no o , no natural
sentido.

DOM SOL  Ento o que ?

MERCRIO  Com sua licena,  a
assemblia das pessoas que povo escolhe para tratar dos seus negcios, fazer as
leis, votar os impostos. Compe-se de uma maioria e uma minoria.

DOM SOL  Mas ento este pedao de
carta alude  Lua, que tambm se divide em minguante e crescente...

MERCRIO  Gracioso! Mui gracioso!

DOM SOL  ( parte)  insuportvel!
Os senhores so testemunhas de que eu disse aquilo somente para matar o tempo,
mas o diabo acha gracioso tudo o que no acha exato. (Alto) Mercrio,
estas cartas provavelmente so para o Imperador daquele pas. Chamam-lhe sol,
como a Lus XIV, mas  pura sinonmia, no tem nada comigo.

MERCRIO  E o mais , que bem
pode ser assim. Pois agora direi a Vossa Claridade, que eu mesmo  que as
recebi  porta, com recomendao de as entregar em mo.  o que foi;
enganaram-se com o nome.

DOM SOL  Manda-as ao Imperador,
que naturalmente ter recebido muitas outras. Sabes se ele guarda-as todas?

MERCRIO  No, meu senhor, no
sei.

DOM SOL  Eu, no caso dele, s
guardava as que tivessem estilo. Olha, Mercrio, os arrufos passam, mas o
estilo fica. ( parte) Entendam l este paspalho: agora que eu
disse uma coisa melhorzinha,  que ele se deixa estar calado.

26 de junho

Custdio e Cristo Jnior! Tais so
os nomes de duas interessantes criaturas, cujos feitos andam nas folhas
pblicas e nos anais judicirios. Podia dizer isso em palavras menos graves,
mas ento descairia do assunto, que  gravssimo, e das pessoas e dos nomes.

Vejamos o que fez Custdio: depois
vejamos o que fez Cristo Jnior.

Custdio (subentende-se anjo
Custdio) no fez absolutamente nada. Foi Deus que matou as reses, ou ento foi
algum perverso que as envenenou. O certo  que elas apareceram ervadas e
mortas, na chcara Castanheiro, que o leitor da Corte no conhece, nem eu,
porque fica em Sorocaba. Custdio o que fez, foi pegar das reses, cort-las,
salg-las e vend-las.

Da alvoroo, pesquisa e
interrogatrio. Custdio confessa nobremente o que fez e o que no fez. O que
fez, foi como digo, cortar e salgar as reses; mas nem foi ele que as matou, nem
(ateno!) as vendeu para Sorocaba, mas para fora, para longe, para onde nenhum
sorocabano lhes metesse o dente.

Trago isto  colao, como dizia o
outro, para perguntar ao leitor como  que procederia, se tivesse de julgar
este homem. Ele  verdade que ia vender as reses envenenadas, que receberia por
elas um cobrinho, compraria um burro, talvez dois, talvez trs burros, viria 
Corte, ao teatro, para rir um pouco, mas  certo que no as ia vender em Sorocaba. Une nuance, quoi! Ia vend-las alhures, na Limeira, em So Jos dos Campos, longe dos olhos, longe do corao. Se h uma virtude universal e outra nacional,
por que no h de haver uma virtude municipal? Verdade em Sorocaba, erro na
Limeira. Para os ventres da Limeira, Custdio  execrando; para os de Sorocaba,
 anglico, verdadeiro Custdio, Custdio sem mais nada.

Cristo Jnior no fez a mesma coisa,
mas no  menos sutil o problema que oferece, nem menos nobre o seu impulso.
No se trata de um martrio, como se pode crer pelo nome; no morreu nem
morrer na cruz. Entretanto, o nome de Cristo Jnior parece estar aqui para
distingui-lo do outro Cristo, que  o Snior. Chamamos-lhe simplesmente Jnior.

Jnior parece que falsificava uns
bilhetes de loteria, e entrou a vend-los. Aparentemente,  um crime; mas se
atentarmos bem, veremos que , pelo menos, meia virtude.

Convm notar que Jnior pode ter
cedido a uma tal ou qual comicho interior. Santo Antnio teve igual prurido, e
resistiu, donde lhe veio a canonizao; Jnior no resistiu. Comendo-lhe o
carter, no pde deixar de meter-lhe as unhas e co-lo at fartar a epiderme.
Em termos lisos, Jnior teve ccegas de falsificar alguma coisa neste mundo,
fosse o que fosse,  escolha, virtude ou vcio; e escolheu o vcio.

Podia imitar uma nota de duzentos
mil-ris (bela e rara virtude!) mas preferiu os dez tostes da loteria, e fez
uma imitao to perfeita, que ia dando com os burros (do vizinho) n'gua. O
pior que podia acontecer  gente, era ficar com os bilhetes brancos na mo; mas
nem seria a primeira vez nem a ltima.

 Compre este nmero! Olhe esta
loteria, que tem um bonito plano! clamam os rapazes na Rua do Ouvidor, esquina
do Beco das Cancelas, quando metem  cara da gente os seus bilhetes.

Jnior tinha um plano muito
superior, que era ficar do mesmo modo com os cobres, e deixar nas mos da gente
a sombra de uma sombra. Mas como era o vcio de um vcio, podemos cont-lo por
meia virtude.

Meia virtude ou virtude municipal,
 a virtude posta ao alcance de todas as bolsas. Custdio ou Jnior, ou
qualquer outro nome, que eu de nomes no curo, como dizia o Garrett, que Deus
tenha por l muitos anos sem mm.

1 de julho

No concordo absolutamente com a
censura feita ontem pelo Jornal do Comrcio aos nossos costumes
parlamentares, e no concordo por trs razes to grandes, que no sei qual
delas  maior. A censura, como todos leram, teve por objeto a demora na
discusso da proposta da emisso de vinte e cinco mil contos, que foi
apresentada a 25 de maio, e s agora chegou ao Senado.

A primeira razo, por mais que a
achem m,  slida e legtima. H folgas extraordinrias na Cmara, dias de
repouso, dias de chuva, e todo o sbado vale domingo.  isto novo? Abra o Jornal
do Comrcio, o livro dos Anais; veja a sesso de 25 de agosto de
1841, e leia um discurso que l vem do finado Otni (Tefilo).

No  preciso lembrar que 1841
valia para ns uma segunda virgindade poltica. Acabava-se de declarar a
Maioridade, parecia que o Parlamento ia ser o beijinho da gente. Entretanto,
Otni declarou a 25 de agosto de 1841 que muitos deputados da maioria gostavam
de ficar nas suas chcaras, divertindo-se. 'Outros (exclama ele) querem ir
patuscar  Praia Grande!' E mais adiante afirma que  comum suceder no
haver casa s porque chove um pouco. O melhor  transcrever este trecho por
inteiro:

V. Exa. sabe que eu no tenho
medo do mau tempo (concluiu Otni), que qualquer que ele seja, apresento-me na
casa, e s vezes deixo de entrar, porque me revolta ver que, tendo eu vindo com
o meu guarda-chuva debaixo d'gua, muitos senhores se deixam ficar em casa; de
modo que s vezes deixa de haver casa porque chuvisca um pouco.

Lealmente, que culpa pode ter a
gerao de hoje de um costume to velho? Ou querem negar as leis do atavismo?
Note-se at uma circunstncia, que, por ser grave, deve pesar no nosso juzo
acerca dos contemporneos. O discurso de Otni era a propsito da ata de 24,
dia santo ento, no qual a Cmara resolveu trabalhar. Resolveu na vspera, e
no se reuniu; e, segundo o Cnego Marinho, que falou depois de Antnio Carlos,
os que no compareceram foram justamente os que votaram que se trabalhasse. No
posso dizer se isto foi assim mesmo, porque, a despeito das calnias de um tal
Lulu Snior, ainda no era nascido; mas o meu amigo Joo Velhinho, cuja memria
conserva a mesma frescura de outros tempos, jura que estava l, e que o Cnego
Marinho tinha razo; lembra-se como se fosse hoje.

A segunda razo que me faz recusar
a censura  que, em geral, as discusses de tais propostas so a ocasio mais
apropriada para tratar de tudo, e que no se pode tratar de tudo como um gato
passa por brasas. Ou seja um assunto qualquer, pequeno, local, indiferente, 
ou seja uma dessas belas teorias, amplas, vagas, assopradas, tudo leva tempo e,
se alm de tudo, ainda se h de falar da prpria matria da proposta,  claro
que no se pode gastar menos de um ms ou mais.

A terceira razo (e isto responde
a qualquer objeo que me faam com a Cmara dos Comuns ou outras), a terceira
razo  que se d com os governos o que se d com outros produtos naturais: o
meio os modifica e altera. L nas outras cmaras pode ser que as coisas marchem
de diverso modo. Mas segue-se que, por termos a mesma forma externa, devamos
ter o mesmo esprito interior? Seria cruel exigi-lo. Seria admitir que o
cabeleireiro faz o dndi. Maria Cristina dizia uma vez ao famoso Espartero: 
Fiz-te duque; nunca te pude fazer fidalgo.

E agora reparo que essa ltima
razo ainda me d outra, uma quarta razo, no menos esticada dos colarinhos.
Assim como um governo sem eqidade s se pode manter em um povo igualmente sem
eqidade (segundo um mestre), assim tambm um Parlamento remisso s pode medrar
em sociedade remissa. No vamos crer que todos ns, exceto os legisladores,
fazemos tudo a tempo. Que diria o sol, que nos deu a rede e o fatalismo?

8 de julho

O que  poltica? Aqui h anos,
creio que por 1849, lembrou-se algum de propor uma questo em um jornal. A
questo era saber o que  honra. Em vez, porm, de escrever deveras aos outros,
coligir as respostas e public-las, engendrou as respostas no escritrio, e
deu-as a lume.

Compreende-se que isso se fizesse
em 1849. Naquele tempo fazia-se a eleio a bico de pena. Mas, depois da lei de
1880, no h meio de recorrer a outra coisa que no seja o sufrgio direto.

Foi o que fiz em relao 
poltica. Peguei de tudo o que sabia nesta matria (e no valia dois caracis),
arranjei um embrulho e mandei deit-lo  praia. Depois escrevi uma carta aos
meus concidados, pedindo-lhes que me dissessem francamente o que consideravam
que fosse poltica, e dispensando-os de citar Aristteles nem Maquiavelli,
Spencer nem Comte, no s porque apenas se devem citar os devedores remissos (e
Deus sabe se aqueles quatro so credores de meio mundo!), como porque os
referidos autores so estranhos completamente ao

Tirolito que bate, bate,

Tirolito que j bateu.

Relativamente a este Tirolito, disse-lhes
que era uma cantiga, e que as cantigas, ao contrrio do que queria o nosso
lvares de Azevedo, fazem adiantar o mundo. Ils chantent, ils payront,
dizia no sei que profundo poltico francs; e o nosso maestro Ferrari,
original como um bom italiano, emendou a mxima, e aplicou-a aos nossos dias: Nous
chanterons, ils payeront. Um e outro so muito superiores aos mestres
apontados.

No tardou que o correio comeasse
a entregar-me as respostas; e, como eu no pagava o porte, reconheci que h
neste mundo uma infinidade de filhos de Deus, ou do diabo que os carregue, que
esto  espreita de um simples pretexto para comunicar as suas idias, ainda 
custa dos vintns magros.

No publico todas as definies
recebidas, porque a vida  curta, vita brevis. Fao, porm, uma escolha
rigorosa, e dou algumas das principais, antes de contar o que me aconteceu
neste inqurito, e foi o que se h de ver adiante, se Deus no mandar o
contrrio.

Uma das cartas dizia simplesmente
que a poltica  tirar o chapu s pessoas mais velhas. Outra afirmava que a
poltica  a obrigao de no meter o dedo no nariz. Outra, que , estando 
mesa, no enxugar os beios no guardanapo da vizinha, nem na ponta da toalha.
Um secretrio de club danante jura que a poltica  dar excelncia s
moas, e no lhes pr alcunhas quando elas j tm para esta. Segundo um morador
da Tijuca, a poltica  agradecer com um sorriso animador ao amigo que nos paga
a passagem.

Muitas cartas so to longas e
difusas, que quase se no pode extratar nada. Citarei dessas a de um barbeiro,
que define a poltica como a arte de lhe pagarem as barbas, e a de um boticrio
para quem a verdadeira poltica  no comprar nada na botica da esquina.

Um sectrio de Comte (viver s
claras) afirma que a poltica  berrar nos bondes, quer se trate dos
negcios da gente, quer dos estranhos.

No entendi algumas cartas. A
letra de outras  ilegvel. Outras repetem-se. Cinco ou seis do como suas, opinies
achadas nos livros. Uma dama gamenha escreve-me, dizendo que a poltica 
praticar com os olhos o que est no Evangelho de So Mateus, cap. VII, verso 7:
'batei e abrir-se-vos-'.

Note-se que, em todo esse monto
de cartas, no h uma s deputado ou senador, e contudo escrevi a todos eles
pedindo uma definio.

Minto; o Sr. Zama deu-me anteontem
uma resposta, embora indiretamente. S. Exa. disse na Cmara que quer a abolio
imediata, mas aceitou o projeto passado e aceita este, pela regra de Terncio:
quando no se pode obter o que se quer,  necessrio que se queira aquilo que
se pode. Regra que me faz lembrar textualmente aquela outra de Thomas
Corneille:

Quand on n'a pas ce que l'on aime.

Il faut aimer ce que l'on a.

Terncio ou Corneille, tudo vem
dar neste velho adgio, que diz que quem no tem co, caa com gato. 
oportunismo, confesso; mas prefiro-lhe o aparte de um deputado, no discurso do
Sr. Rodrigues Alves, quando este tachava um presidente de interventor, no
porque recomendasse candidatos, mas porque fez favores a amigos destes.
'Queria que os fizesse aos amigos de V. Exa.?' perguntou um colega.
Tal qual a poltica do boticrio: no comprar na botica da esquina.

19 de julho

Conheo um homem que, alm de
acudir ao doce nome de Guedes, acaba de receber um profundo golpe moral,
desfechado pelo Sr. Visconde de Santa Cruz.

Ponha o leitor o caso em si. H trinta anos, ou quase, que o Guedes espreita um trimestre de popularidade, um
bimestre, um mestre que fosse, para falar a prpria linguagem dele.
Ultimamente, j se contentava com uma semana, um dia, e at uma hora, uma s
hora de popularidade, de andar falado por salas e esquinas.

No se imagina o que este diabo
tem feito para ser popular. Deixo de lado 1863, por ocasio da Questo
Christie, em que ele props-se a ir arrancar as armas da legao inglesa. S
achou cinco imprudentes que o acompanharam; e, ainda assim, saiu com eles da
Rua do Ouvidor, a p. No Largo da Lapa achou-se com quatro; na Glria, com
trs, no Largo do Valdetaro, com dois, e no do Machado com um, que o convidou a
voltar para a Rua do Ouvidor.

Mais tarde, vendo passar o coche
triunfal do Rio Branco, por ocasio da lei de 28 de setembro, compreendeu que
era um bom veculo de molas, vistoso, e atirou-se  traseira; mas j l achou
outros, que o puseram fora a pontaps, e o meu pobre Guedes teve de voltar 
obscuridade.

Tentou outras coisas. Tentou uma
orchata higinica, uma loteria de crianas, uma polca, uma rua e uma casa de
fazendas baratas. Falhou tudo. A polca danou-se muito, mas ningum lhe decorou
o nome. A rua, Rua Joo Guedes, trouxe-lhe um singular destempero. Um dia,
sendo apresentado a uma famlia, disseram-lhe todos com ingenuidade  'Ah!
o senhor tomou o nome daquela rua em que morou um primo nosso!'

Afinal, deitou os olhos para o
fechamento das portas; e o leitor no  capaz de adivinhar quando foi que a
ateno se lhe volveu para ali. Foi por ocasio da morte de Ester de Carvalho.
Entre os artigos fnebres que ento apareceram, um houve em que se convidava os
esteristas a lanarem mo do movimento produzido pela morte da distinta atriz
para alcanar o fechamento das portas. O Guedes refletiu: estava achada a
popularidade.

A questo era pertencer  Cmara
Municipal; e o meu amigo fez tudo o que pde para isso. Sempre derrotado e
sempre resoluto, esperava ali meter o p, um dia, quando o Sr. Visconde de
Santa Cruz props, e os seus colegas aprovaram, que as portas se fechem aos
domingos e dias santos. Foi o mesmo que arrancarem-lhe o bocado da boca.

Agora, se realmente quer
popularidade, abra mo de planos complicados; limite-se a fazer anunciar, por
meio de aluses engenhosas, que  o Guedes, o clebre Guedes, que 
esclarecido, e varie os termos, passe de esclarecido a ilustrado, e de
ilustrado a eminente, e acrescente que  bonito, ce qui ne gte rien. O
leitor no acredita, nos primeiros quinze dias; no fim de vinte fica um tanto
perplexo; passados trinta, pergunta se realmente no se enganou; ao cabo de
cinqenta, jura que se enganou, que  o Guedes, o verdadeiro Guedes. Trs meses
depois, mata a quem lhe disser o contrrio.

Faa isto, meu amigo;  o segredo
do mulungu composto e da salsaparrilha, tanto da de Bristol como da de Sands.
Esperar cadeira de vereador  muito demorado. E depois, as idias so to
poucas  digo os motivos de popularidade,  que quando a gente est pensando em
plantar uma, j outro est colhendo os frutos da que plantou tambm; e a gente
no tem remdio seno recorrer  nica cultura em que no h concorrncia de
boa vontade, que  plantar batatas.  a ocupao atual de todos os Guedes.

26 de julho

Venha de l esse abrao;
trago-lhes um divertimento para passarem as noites.

Nem todos tero treze mil-ris
para dar por uma cadeira do Teatro Lrico. Eu tenho cinco; faltam-me oito.
Podia ir ao Teatro de So Pedro, onde a cadeira custa menos; mas eu s entendo
italiano cantado, e a Duse-Checchi no canta. Fui l algumas vezes levado pelo
que ouvia dizer dela e da companhia; fui, gostei muito do diabo da mulher,
fingi que rasgava as luvas de entusiasmo, para dar a entender que sabia
daquilo; nos lugares engraados ria que me escangalhava, muito mais do que se
fosse em portugus; mas, repito, italiano por msica.

Nos outros teatros dizem-me que s
h peas, ou muito tristes, ou demasiado alegres. Ora, eu no sou alegre, mas
tambm no sou triste. Meu av, que era carneiro de Panrgio, no passava de
sorumbtico. Ir ao teatro para cair num daqueles dois extremos, e adoecer, no posso.

Pode-se,  verdade, ler os jornais
 noite, e assim matar o tempo. Mas como deixar resfriar notcias importantes?
V que o faamos nos dias em que eles, para acudir aos cochilos da agncia
Havas, transcrevem da Nacin, de Buenos Aires, notcias telegrficas da
vida poltica e internacional do mundo; mas como faz-lo, quando, ainda h
dias, a mesma agncia nos comunicou este caso grave: 'Adelina Patti ganhou
o processo de divrcio contra o seu marido, o Marqus de Caux'.

Faam-me o favor de dizer com que
cara ficaria um homem que se respeita, andando pela rua, e ouvindo perguntar a
todos se sabiam do grande sucesso, do sucesso indescritvel e incomensurvel, o
sucesso dos sucessos: Adelina e Caux esto judicialmente separados.  No me
diga isto!   o que lhe digo: esto separados.

Tudo isto me levou a propor um
divertimento barato para as famlias honestas e econmicas, um jogo
de prendas. No se riam: o jogo de prendas j foi o nosso teatro
lrico.

Joga-se com qualquer nmero de pessoas,
mas nunca menos de dez. Podem ser vinte, trinta, quarenta, e quanto mais
melhor. Cada pessoa escolhe um personagem. Um  o vigrio, outro o sacristo,
outro o sineiro, outro o moleque do vigrio, outro o coadjutor, outro o barbeiro,
e etc. Chama-se o roubo do consulado. Joga-se completamente s
escuras.

O diretor do jogo coloca-se no
meio da sala, e conta que, tendo desaparecido as sobrepelizes da igreja,
 provvel que estejam na casa da costureira do vigrio. Acode a costureira:

 Mentes tu!

 Onde estavas tu?

 Estava em casa do sineiro.

Acode o sineiro:

 Mentes tu!

 Onde estavas tu?

 Em casa do sacristo.

Contesta o sacristo:

 Mentes tu!

 Onde estavas tu?

 Estava em casa do coadjutor.

E assim por diante at correr a
roda toda. Acabada a roda, volta-se ao princpio, e repete-se a mesma coisa com
os mesmos personagens, at dez e meia ou onze horas, que  boa hora de cear e
dormir.

H uma particularidade neste jogo:
 que ningum paga prenda. Dei-lhe o nome de jogo de prendas to-somente para
definir um divertimento de famlia. Ningum paga nada. Quando acontece que
algum dos personagens no responde  citao, a obrigao do outro  repetir o
nome, at que ele responda. Uma vez respondido, passa-se adiante.

Escusado  dizer que as
sobrepelizes no aparecem nunca; so apenas uma conveno.

Pode ser que lhe mude o nome;
dizem-me que inqurito  melhor que roubo do consulado, justamente
por no se falar em consulado; mas confesso que pus este disparate do nome para
lhe dar alguma graa.

Qualquer que seja o nome, cuido
que ficar popular nestas noites midas e aborrecidas. Tem a vantagem de no
cansar. Faz-se uma noite, repete-se na noite seguinte, sem fatigar
absolutamente nada:  muito superior ao da berlinda, e no obriga ningum a ir
para ela.

8 de setembro

As festas da Independncia, este
ano, so devidas especialmente  Cmara Municipal, e devem ser-lhe levadas em
conta, quando se houver de julg-la. Valha por isso, que valer bastante.

O que se lhe dispensava era
envolver nas festas um epigrama. No digo que um epigramazinho bem afiado no
tenha seu lugar; mas a ocasio  que era inoportuna.

A Cmara tinha de mandar pintar um
quadro e abriu concorrncia. Vrios foram os pintores que acudiram ao chamado
do edital, declarando na forma dele os preos. A Cmara examinou no os
quadros, que os no h ainda, nem esboos, examinou os preos e escolheu o mais
barato.

Com franqueza, a Cmara no tinha
o direito de ser cruel, mormente agora que nos convida a celebrar a nossa data
nacional.

Para que vir dizer-nos que somos
Cartago e no Atenas? que o preo mdico  o nosso princpio esttico? etc.,
etc. Supe a Cmara que o sabe melhor do que ns mesmos? No; ns o sabemos e
confessamos. A diferena  que o confessamos com humildade e franqueza, e isto
mesmo indica que temos aptido para a emenda, e que (com o favor de Deus)
havemos de emendar-nos um dia.

No se pode ser tudo ao mesmo
tempo, Csar e Joo Fernandes. Vamos sendo Joo Fernandes, por ora  o
comendador Joo Fernandes; dia vir em que sejamos Csar.

Tambm no gostei que a Cmara
agravasse o epigrama com uma razo administrativa e um conselho de caoada. A
razo  que lhe cabe zelar os dinheiros municipais e o conselho  o que deu um
dos vereadores para que o concurso fosse decidido por uma comisso de artistas.
Nem um nem outro valeu muito; a razo, porque a Cmara no tratava de calar a
minha rua, necessidade urgente e da natureza daquela em que toda a economia  beneficio;
 o conselho, porque, se os artistas  que haviam de decidir, ento eles  que
deveriam estar na Cmara.

Digo isto, sem o menor esprito de
zanga, por mais que me sinta mortificado. Digo s porque no quisera que,
quando a Cmara celebra o grande dia nacional por um modo elevado como a
emancipao de escravos, nos desfechasse um golpe destes.

Eu, pelo que me toca, se no dou,
nem dei nunca mais de quinze mil-ris por um quadro, seja ele do diabo,  fora
de dvida que sei honrar os que tenho com molduras riqussimas, largas, todas
douradas e j me lembrou pr duas grandes esmeraldas em um deles, mas o
De-Wilde, com quem me entendo nestas coisas, disse-me que no se usa.  por
isso que trago as esmeraldas na corrente do relgio.

E fao isso sem diferenar
mritos, em que no entro, fao a todos os quadros que possuo, ainda os que um
sobrinho meu costuma dizer que so pratos de erva. Pratos de ervas, v ele! Se
o fossem, j c estariam no bucho, h muito tempo, e as molduras passariam
a outros, que andam bem precisados delas.

Outra prova de que no desadoro as
artes  o dinheiro surdo que o Teatro Lrico me tem comido; to surdo, que, por
mais que o chamasse depois, nunca me ouviu nem voltou c. E as minhas pequenas
ainda gostam mais do que eu, porque eu e alguns amigos, um dia irritados com o
Ferrari, pateamos o Dom Joo de Mozart, e elas em casa disseram-me que
andei mal, e fiquei com a cara  banda mas, repito, no foi nada com o Ferrari,
foi com o Mozart, ou o contrrio, no me lembra bem.

Portanto, a Cmara, j pelo que
toca a outros, j pelo que me toca especialmente, foi injusta e cruel. Que seja
econmica e zele os nossos dinheiros, no serei eu que lho tire da cabea; mas
tudo se pode fazer sem ofensa a ningum, mesmo ainda de quem vendeu os seus
votos e est disposto a dar-lhos, contanto que, como hoje, resgate
brilhantemente alguns dos seus erros.

5 de outubro

Mal adivinham os leitores onde
estive sexta-feira. L vai; estive na sala da Federao Esprita Brasileira,
onde ouvi a conferncia que fez o Sr. M. F. Figueira sobre o espiritismo.

Sei que isto, que  uma novidade
para os leitores, no o  menos para prpria Federao, que me no viu, nem me
convidou; mas foi isto mesmo que me converteu  doutrina, foi este caso
inesperado de l entrar, ficar, ouvir e sair, sem que ningum desse pela coisa.

Confesso a minha verdade. Desde
que li em um artigo de um ilustre amigo meu, distinto mdico, a lista das
pessoas eminentes que na Europa acreditam no espiritismo, comecei a duvidar da
minha dvida. Eu, em geral, creio em tudo aquilo que na Europa  acreditado.
Ser obcecao, preconceito, mania, mas  assim mesmo, e j agora no mudo, nem
que me rachem. Portanto, duvidei, e ainda bem que duvidei de mim.

Estava  porta do espiritismo; a
conferncia de sexta-feira abriu-me a sala de verdade.

Achava-me em casa, e disse comigo,
dentro d'alma, que, se me fosse dado ir em esprito  sala da Federao,
assistir  conferncia, jurava converter-me  doutrina nova.

De repente, senti uma coisa
subir-me pelas pernas acima, enquanto outra coisa descia pela espinha abaixo;
dei um estalo e achei-me em esprito, no ar. No cho jazia o meu triste corpo,
feito cadver. Olhei para um espelho, a ver se me via, e no vi nada; estava
totalmente espiritual. Corri  janela, sa, atravessei a cidade, por cima das
casas, at entrara na sala da Federao.

L no vi ningum, mas  certo que
a sala estava cheia de espritos, repimpados em cadeiras abstratas. O
presidente, por meio de uma campainha terica, chamou a ateno de todos e
declarou abertos os trabalhos. O conferente subiu  tribuna, traste
puramente racional, levantaram-lhe um copo dgua hipottico, e comeou o
discurso.

No ponho aqui o discurso, mas um
s argumento. O orador combateu as religies do passado, que tm de ser
substitudas todas pelo espiritismo, e mostrou que as concepes delas no
podem mais ser admitidas, por no permiti-lo a instruo do homem; tal , por
exemplo, a existncia do diabo. Quando ouvi isto, acreditei deveras. Mandei o
diabo ao diabo, e aceitei a doutrina nova, como a ltima e definitiva.

Depois, para que no dessem por mim
(porque desejo uma iniciao em regra), esgueirei-me por uma fechadura,
atravessei o espao e cheguei a casa, onde... Ah! que no sei de nojo como o
conte! Juro por Allan-Kardec, que tudo o que vou dizer  verdade pura, e ao
mesmo tempo a prova de que as conversaes recentes no limpam logo o esprito,
de certas iluses antigas.

Vi o meu corpo sentado e rindo.
Parei, recuei, avancei e disse-lhe que era meu, que, se estava ocupado por
algum, esse algum que sasse e mo restitusse. E vi que a minha cara ria, que
as minhas pernas cruzavam-se, ora a esquerda sobre a direita, ora esta sobre aquela,
e que as minhas mos abriam uma caixa de rap, que os meus dedos tiravam uma
pitada, que a inseriam nas minhas ventas. Feitas todas essas coisas, disse a
minha voz.

 J lhe restituo o corpo. Nem
entrei nele seno para descansar um bocadinho, coisa rara, agora que ando a
ss...

 Mas quem  voc?

 Sou o diabo, para o servir.

 Impossvel! Voc  uma concepo
do passado, que o homem...

 Do passado,  certo. Concepo
v ele! L porque esto outros no poder, e tiram-me o emprego, que no era de
confiana, no  motivo para dizer-me nomes.

 Mas Allan-Kardec...

Aqui, o diabo sorriu tristemente
com a minha boca, levantou-se e foi  mesa, onde estavam as folhas do dia.
Tirou uma e mostrou-me o anncio de um medicamento novo, o rbano iodado,
com esta declarao no alto, em letras grandes: No mais leo de fgado de bacalhau.
E leu-me que o rbano curava todas as doenas que o leo de fgado j no
podia curar  pretenso de todo medicamento novo. Talvez quisesse fazer nisto
alguma aluso ao espiritismo. O que sei  que, antes de restituir-me o
corpo, estendeu-me cordialmente a mo, e despedimo-nos como amigos velhos:

 Adeus, rbano!

 Adeus, fgado!

11 de outubro

Ho de lembrar-se da minha
aventura esprita, e da promessa que fiz, de iniciar-me na nova igreja.
Vo ver agora o que me aconteceu.

Fui iniciado quinta-feira, s nove
horas da noite, e no conto nada do que se passou, porque jurei cal-lo, por
todos os sculos dos sculos. Uma vez admitido no grmio, preparei as malas
para ir estabelecer-me em Santo Antnio de Pdua.

Claro era o meu plano.
Metia-me na vila, deixava-me inspirar por potncias invisveis, predizia as
coisas mais joviais ou mais melanclicas deste e do outro mundo, reunia
gente, e fundava uma igreja filial. Antes de seis meses podamos ter ali um bom
contingente.

Vejam, porm, o que me sucedeu.
Era hoje que devia abalar daqui. Tudo estava pronto, malas, alma e algibeiras,
quando li o cdigo de posturas da Cmara Municipal de Santo Antnio de Pdua,
que est sujeito  aprovao da Assemblia Provincial do Rio de Janeiro. Nesse
cdigo leio este ominoso artigo, o art. 113:

'Fica proibido fingir-se
inspirado por potncias invisveis, ou predizer coisas tristes ou alegres'.

Caiu-me a alma aos ps. Da a
alguns minutos reli o artigo, para ver se me no enganara. Dei-o a ler
ao meu criado e a dois vizinhos; todos eles leram a mesma coisa, como este
acrscimo, que me escapou, que o infrator pagar de multa 50$ e ter oito dias
de priso.

No me digam que o artigo apenas
veda a simulao. Os fiscais de Santo Antnio de Pdua no podem saber quando 
que a gente finge, ou  deveras inspirado. Jeremias, que l fosse, e o seu secretrio
Baruch podiam dizer prolas; iriam ambos parar  cadela porque o art. 113 no
explica por onde  que se manifesta a simulao.

Desfiz tudo, as malas, a alma e as
algibeiras. Peguei em mim e atirei-me  rede, com o famoso cdigo na mo,
resolvido a achar-lhe algum ponto em que lhe pegasse. No achei nada. Ao
contrrio, todas as suas disposies mostram esprito precavido, delicado e
justo; ao menos,  o que imagino, porque ao cabo de cinco minutos dormia a sono
solto.

Acordei agora mesmo para ir jantar.
Podia dizer-lhes ainda alguma coisa, mas no tenho alma para nada. L se foi
todo o meu plano! Brbaro cdigo! Torturas do diabo! Aqui na Corte, a gente
pode dizer, por meio de cartas de jogar, uma poro de coisas alegres ou
tristes, e ainda em cima recebe dois mil-ris, ou cinco, se a notcia 
excelente e a pessoa  grada, e ningum vai para a cadeia; ao passo que ali em
uma simples vila do interior...

26 de outubro

Alm de outras diferenas que se
podem notar entre o sol e a chuva, h esta  que o sol, quando nasce,  para
todos, como diziam as tabuletas de charutaria de outro tempo, e a chuva e s
para alguns.

Hoje, por exemplo, levanto-me com
chuva, e fico logo aborrecido, desejando no sair de casa, no ler, no
escrever, no pensar  no fazer nada. A mesma coisa acontece ao leitor,
com a diferena que ele faz ou no faz nada se quer, e eu hei de pegar
do papel e da tinta, e escrever para a alguma coisa, tenha ou no vontade e
assunto.

Vontade j se v que no. Assunto
ainda menos; no posso dar tal nome ao caso do matadouro, que  antigo, e est
ficando (perdoe a sua ausncia) um tanto amolador. J l vo sete ou oito dias;
creio que  uma boa idade para qualquer negcio que se respeite,
recolher-se a bastidores, e dar lugar a outros.

Foi o que fizeram as barraquinhas.
As barraquinhas eram umas meninas bonitas, gorduchas, que apareceram
aqui roendo biscoitos, e nos divertiram muito h menos de um ms. No se
demoraram mais; to depressa viram aparecer o matadouro, esquivaram-se
com a mesma discrio com que a gente deixa um salo de baile.

Assim fez o montepio. Uma noite,
recebemos convite para assistir ao belo fogo de artifcio com que o montepio
entendera fazer-nos lembrar os tempos antigos da Lapa e de Mato-porcos.
Fomos, e no h dvida que, no gnero, foi coisa galante, muito animada,
principalmente a luta final da fragata com as fortalezas. Acabado o fogo,
deu-nos uma ceia; mas l porque nos deu fogo e ceia, no nos obrigou a ficar em
casa dele, e antes das duas horas da manh estvamos todos no vale de lenis,
esquecidos do anfitrio.

No procedeu diferentemente o caso
do consulado. Um dia de manh, fomos acordados ao som de aldrabadas fortes, que
atroavam a casa toda; mandamos ver quem era; era um distinto cavalheiro, que
pedia licena para vir cumprimentar-nos. Recebemo-lo como merecia. Homem
discreto e manso, no sabia nada, no sabia sequer da morte de Sesstris. E bem
vestido, note-se, corretamente vestido e engomado. Convidamo-lo para almoar;
almoou, fez-nos o favor de elogiar as batatas, mas no disse o nome delas, por
mais que lho pedssemos. No sabia o nome, no sabia nada. Acabado o almoo,
no esperou que lhe dssemos o menor sinal de desagrado ou de impacincia:
pegou no chapu, disse que ia ali e j voltava e safou-se.

E assim os outros. Chegam, aturdem
nos primeiros minutos, depois do algumas horas de palestra, bebem dois goles
de ch, e adeus.

Portanto, no tenho assunto. No
hei de,  falta dele, meter-me a encarecer alguma ao bonita. As boas aes
tm o preo na conscincia dos que as praticam; elogi-las muito  ofender a
modstia dos autores. L uma ou outra palavrinha doce,  no muito doce,  um
aperto de mo, e, se houver copo d'gua, um bom par de queixos, sim, senhor, 
comigo. Querer, porm, que eu, alm do trabalho de digerir o jantar de um
homem, venha c para fora dizer que ele  virtuoso, no  comigo,  aqui com o
meu vizinho. Nesse caso preferia roer num duro escndalo, a papar o melhor
guisado deste mundo.

So gostos.  como o Cristo de
Bernardelli. Com franqueza, acho que esto fazendo barulho demais. J se fala
em dar a mo ao rapaz, j ele  um bom talento, j tem grande futuro, e outras
coisas desse jaez, como se todos no fssemos filhos de Deus, e se Deus, para
fazer escultor a um homem, precisasse saber primeiro se ele se chama
Bernardelli.

Tambm eu gosto de mrmore. Tenho
c em casa uma pia de lavar as mos, que  de mrmore; no  to bonito como o
do Cristo, mas no  feio. O que h,  que o uso j o tem
estragado bastante. Custou-me oitenta mil-ris, tudo; oitenta ou cem, tenho as
contas guardadas.

Afinal, vo ver que tudo isso so
balelas de estudantes. Eu, que l fui  academia duas vezes (a segunda foi para
falar a um empregado que me deve quinze mil-ris) vi sempre estudantes que
entravam, com os seus livros debaixo do brao, e ficavam pasmados diante do
grupo. No os censuro, por isso; so rapazes. Tambm eu fui rapaz;
tambm gostei de bonecos.

6 de novembro

O Sr. Ministro da Justia entende
que os tabelies devem (com perdo da palavra) tabelionar. Entende que arrendar
o ofcio no  exerc-lo, segundo a inteno da lei.

Perdoe-me S. Exa.. Essa doutrina 
subversiva, no da ordem legal, mas da ordem natural, o que  pior. As leis
reformam-se sem risco; mas torcer a natureza no  reform-la,  deform-la.

Ponhamos de parte o caso de
verdadeira doena do serventurio, que o obrigue a pedir licena. Vamos ao
princpio geral. S. Exa. confunde nomeao e vocao. Ponhamos o caso em mim. Eu, se amanh me nomearem bispo, poderia receber com regularidade a cngrua e os
emolumentos; mas, por falta de vocao, preferia uma boa rede a todas as
cmaras eclesisticas. S. Exa. dir, porm, que esta hiptese  absurda; aqui
vai outra.

Suponhamos que no dia 15 de
janeiro, por uma dessas inspiraes geniais que o Cu concede aos povos nos
momentos supremos da Histria, elegem-me deputado. Vocao, aquilo que se chama
vocao ou aptido parlamentar, no a tenho; mas tenho respeito  vontade do
eleitor,  indicao das urnas, e, para conciliar a ordem soberana com a minha
inpia, dividiria o tempo de maneira que fosse algumas vezes  Cmara. Poderia
o eleitor, em tal caso, obrigar-me a conhecer as matrias, estud-las,
exp-las, redigir pareceres, fazer discursos? No; era cair no mesmo erro de
deformar a natureza com o intuito de reform-la. O mais que o eleitor podia e
devia fazer, era afirmar o seu direito soberano, elegendo-me outra vez.

O caso dos tabelies  mais grave.
No se trata de um cargo temporrio, como o de deputado, nem se lhe pode dar,
como a este, um tal ou qual exerccio mnimo e aparente, por meio de alguns
papis  Cmara. O oficio  vitalcio, e exerce-se ou no. Exerc-lo sem
vocao  produzir dois grandes males, em que S. Exa. no advertiu. Constrange-se um esprito apto para outra coisa a definhar nos
recessos de um cartrio, e arrisca-se a fazenda particular aos descuidos
possveis de quem faz as coisas sem amor.

Veia agora o contrrio. D-me Sua
Exa. um desses ofcios. Eu, que no nasci para ele, vou ter com outro, que
nasceu, que sabe, que ama a escritura e o traslado, e digo-lhe:  Velho  o
adgio que diz que onde come um portugus, comem dois e trs, e ns no podemos
desmentir a origem nacional. Voc fica aqui, que eu j volto.

No voltava,  claro. E ganhvamos
todos, comeando pela cincia, porque eu, mineralogista de algum valor, iria
viver o resto dos meus dias examinando as pedras de Petrpolis e da
Tijuca, e at as da Rua do Ouvidor, que, por estarem  mo,  ningum sabe o
que valem. No conto a vantagem do Governo, que acomodaria assim duas pessoas
na mesma cama. S. Exa. tem uma escapatria que  esta:  recusar o ofcio. Mas
eu pergunto se era decente faz-lo; pergunto se, vindo o Estado a mim, e
dizendo-me: Cidado, partcula de mim mesmo, aqui tens este ofcio, exerce-o,
segundo as leis e os costumes, escuta a viva, atende ao herdeiro, ouve
o vendedor e o comprador, lavra, traslada, registra',  pergunto se, em
tal caso, tinha eu o direito de recusar. Evidentemente, no.

No tenho a menor esperana de
fazer revogar o ato de S. Exa.. Mas estou certo de que estas idias ho de
frutificar. A questo  mais alta do que pode parecer aos frvolos. Trata-se de
pr nos atos do governo certas consideraes de ordem cientfica; trata-se de
mostrar que o Estado pode dar-me um ofcio, e at dois, se lhe parecer; mas no
pode, sem abuso e perigo, constranger-me a ocup-lo ou ocup-los.

E quando falo em Estado, refiro-me
a todos os seus rgos, cujo exerccio anticientfico entre ns  realmente
deplorvel. Leu S. Exa. o ltimo edital do juiz municipal de Barra Mansa?
Chamam-se ali compradores para os bens penhorados a um major; e entre outras
vacas, inscreve-se esta: 'Uma vaca magra, muito ruim, avaliada em
10$000'. No h procedimento menos cientfico. Por que  que a lei do
particular no ser a lei do Estado?

Nenhum particular diria tal coisa.
Querendo vender a vaca, o particular poria no anncio qualquer eufemismo
delicado; diria que era uma vaca menos que regular, uma vaca com defeito, uma
vaca para servios leves. Jamais confessaria que a vaca era muito ruim. E
vend-la-ia, creiam, no digo pelos dez mil-ris, mas por quinze ou dezoito
mil-ris. Se isto no  cientfico, ento no sei o que  cientfico neste
mundo e no outro.

23 de novembro

Participo aos meus amigos que vou
abrir (ou erigir) um quiosque. Resta-me s escolher o lugar e pedir licena 
Cmara.

Toda a gente sabe que o quiosque 
um dos exemplos mais expressivos da lei de adaptao. Creio que na capital
donde ele nos veio,  o lugar onde se mete uma mulher a vender jornais.

Aqui serve de abrigo a um ativo
cidado, que vende cigarros e bilhetes de loteria. Parece,  primeira vista,
que um negcio desses no h de deixar grandes fundos. Pois deixa; e a prova 
que ainda agora, a Cmara, concedendo um, para o Largo de So Francisco de
Paula, imps ao pretendente uma entrada de quinhentos mil-ris para O livro
de ouro.

Nunca as mos lhe doam  Cmara.
V fazendo as suas concesses, uma vez que sejam justas, com a clusula, porm,
de que os pretendentes ho de entrar para O livro de ouro, por onde se
vo libertar escravos no dia 2 de dezembro. A ltima sesso rendeu-lhe uns seis
contos. S um dos concessionrios tem de dar cinco contos de ris; os outros
quinhentos mil-ris so do dono de um estbulo.

O nico seno que se poder notar
nesse mtodo,  que, ao lado da filantropia real, estamos vendo florescer uma
filantropia artificial em grande escala; mas, depois do sol artificial do Sr.
Dr. Costa Lopes e dos vinhos artificiais de outras pessoas, creio que podemos
ir aposentando a natureza. A natureza est ficando velha; e o artifcio  um
rapago ambicioso.

No livro de ouro h vinho
puro, e sol verdadeiro. H uma parte, que  do melhor vinho cristo,
daquele que a mo esquerda ignora: os dez contos annimos que o Sr.
Conde de Mesquita para l mandou. Mas como o vinho puro no chega para o
festim da Cmara, lembrou-se ela  e em boa hora  de aceitar do outro,
considerando que no fim d certo, e os escravos ficam livres.

Tambm h dias um annimo teve a
idia de aconselhar ao governo um modo de acabar com a escravido. Era
estabelecer uma escala de preos para os ttulos nobilirios, e convidar as
pessoas que quisessem admisso ou promoo na classe. O autor chegou a
citar nomes de titulares conhecidos e at de senhoras. Marcou ele mesmo os
preos: um marquesado custaria cinqenta contos, etc...

A idia em si no  m. Dever
um ttulo  alforria de uns tantos escravos, pode ser menos herico, mas
no  menos cristo que dev-lo  tomada de Jerusalm. Acho a coisa
perfeitamente justa; nem  por a que a critico. Tambm Jos Clemente levantou
o Hospcio de Pedro II, por igual mtodo; lucraram os infelizes, doidos, e
lucramos todos ns, que podemos jantar  mesma mesa sem deitar os pratos  cara
um dos outros; a presuno  que temos juzo; digo a presuno legal...

No; o mal da idia  que, por
mais que acudissem aos ttulos, o dinheiro que se recolhesse no chegaria para
um buraco do dente da escravido. O livro de ouro, da Cmara,  mais
fcil de encher, porque  mais limitado.

L vou pr os meus quinhentos
mil-ris, ou mais, se mo pedirem, a troco do quiosque. Agora, principalmente,
depois que li uma folha de So Paulo, estou pronto a abrir os cordes da bolsa.
A citada folha declara que se deve votar no Sr. Comendador Malvino Reis para
deputado, por ser daqueles que agentam com as despesas pblicas. Eu at aqui,
quando as lojas de fazendas me pediam alguma coisa mais pela roupa e me diziam
que era por causa dos impostos, imaginava que elas e eu dividamos a carga ao
meio, e que l entrava o triste de mim, indiretamente, com alguma coisa nos
ordenados dos funcionrios; mas uma vez que  o Sr. Malvino que me paga a casa
e a comida, sinto-me aliviado, e posso dar mais um tanto para a festa da
Cmara.

30 de novembro

Achei agora mesmo na rua um
pedacinho de jornal, coisa de trs dedos de altura e pouco mais de
largura. A minha regra, em tais casos,  deixar o papel onde est:  a do meu
vizinho, e provavelmente a do gnero humano. Mas, no sei por que, deu-me
ccegas de apanhar este; lembrei-me de certa mxima que ouvi proferir em um
drama, que aqui se representou h muitos anos, quando as galinhas ainda
tinham dentes: 'no se deve deixar rolar papel nenhum''. E vai ento
inclinei-me, apanhei-o e li este anncio:

Contratam-se coristas de ambos os
sexos no Teatro Politeama; preferem-se moos que saibam msica.

Antes de mais nada, agradeci 
Providncia Divina este imenso favor de haver-me deparado alguma coisa que,
exprimindo um resto de superstio antiga, d-me ocasio de pedir a meus
contemporneos que hasteemos audazmente a bandeira da liberdade.

A razo da superstio  clara.
Sociedades polticas que ainda tresandam  Idade Mdia, em que tudo se dividia
em classes, no podem conceber que a liberdade das funes seja um corolrio da
liberdade das opinies. Da a exigncia, ainda vulgar, de que os melhores
sapatos so os dos sapateiros: erro funesto e odioso, direi at ridculo, que 
preciso acabar de uma vez para sempre.

Quando, por exemplo, certa folha
dizia h alguns dias que convinha pr de lado os polticos de profisso, e
votar nos que o no eram, essa folha escrevia uma grande verdade, daquelas que
devemos trazer gravadas na alma em letras perptuas. E no digo isto, nem o
disse ela, porque os polticos de profisso no possam exerc-la algumas vezes
com vantagem, como Bismark, Pitt, Richelieu e alguns outros; mas porque o
monoplio, sendo inimigo nato da liberdade (segundo elegantemente afirma o
brigadeiro Calino), faz perdurar o vcio medieval que apontei, e impede que
outros cidados levem ao governo do Estado uma parte das qualidades que lhes
so prprias. Alm disso, restringindo Bismark  poltica, impede talvez que
haja neste mundo mais um bom escrivo de rfos e ausentes. O mesmo direi do
Sr. Maia.

Nada de dios s preferncias. Por
causa delas, vimos o que aconteceu no matadouro. Mandemos governar o Estado
pessoas que no entendam de poltica; encomendemos as calas aos ourives, e os
relgios aos boticrios. S assim chegaremos  perfeita liberdade universal.
Tudo que no for isto,  voltar ao regmen das corporaes de ofcios;  fazer
da sociedade um vasto tabuleiro de xadrez, ou ainda pior; pois neste jogo, se o
tabuleiro se divide em quadrados,  certo que as peas vo de um a outro. Na
sociedade, como a criaram, as peas tm de ficar onde esto, bispo  bispo,
cavalo  cavalo.

No, ilustres contemporneos meus;
 evidente que este regmen j deu o seu cacho. A sociedade no pode ser isto.
A prpria Histria oferece exemplos salutares. Cames, que se gaba de ter tido
em uma das mos a pena, e na outra a espada, esqueceu dizer se era ele prprio
que consertava os seus cales rotos, mas provavelmente era, e ningum lhe
levou a mal. De So Paulo, sabe-se que ora apostolava, ora trabalhava de
correeiro, e no lhe saam mal feitas, nem as correias, nem as epstolas.
Reduzamos esses casos raros a um princpio fixo e eterno; tudo para todos; no
se preferem moos que saibam msica.

1886

4 de janeiro

Lulu Snior ouviu cantar o galo,
mas no soube onde.  certo que houve uma visita, mas no fui eu que a fiz; eu
 que a recebi; tambm no foi o Joo Velhinho que a fez, mas outra
pessoa mais decrpita. Trazia,  certo, um pedao de jornal, mas era a
folhinha do ano-novo.

A coisa passou-se assim; e no foi
no dia 1, mas no dia 2. Estava eu almoando, quando me vieram dizer que algum
queria falar comigo.

 Mas quem ?

 No sei, no senhor; parece
mascarado.

Se isto fosse h quarenta anos, ou
pouco menos, j eu sabia que era um bando de festas com msica  frente,
pedindo alguma coisa. Mas os bandos acabaram; no sei quem diabo se lembraria
de ir mascarado falar comigo. Mandei abrir a sala, e fui receber a visita.

Realmente, era um mascarado, ou
mais propriamente um fantasiado, pois trazia a cara descoberta; mas daqui a
pouco veremos que vestia as suas prprias roupas. Estas eram gregas e antigas.

 Com quem tenho a honra de falar?
disse eu.

 Com um infeliz, disse ele
suspirando; e venho pedir-te que me faas a esmola de ver se alcanas a minha
liberdade...

  escravo? perguntei admirado.

 Antes fosse!

 Pior que escravo?

 O escravo pode libertar-se; eu
no posso nada mais que gemer e pedir, pedir e gemer. Vs estas roupas? So
dois belos sculos de Atenas.

 Vossa Senhoria  ateniense?

 No me ds senhoria. L em
Atenas todos me tratavam por tu; o prprio Alcibades, o prprio Aristides...
Ai, Aristides! No posso falar deste homem sem cobrir-me de vergonha. Fui eu
que o exilei.

 Ora, espero! s ento aquele
votante annimo, que, cansado de ouvir cham-lo justo, condenou-o por ocasio
do ostracismo?

 No; eu sou o prprio
Ostracismo.

 Tu... Ostracismo...

 Eu mesmo. Desde que me
aposentaram, nunca mais servi, at que, em 1850 da era crist, alguns patrcios
teus foram pedir-me, como grande obsquio, que viesse ajud-los na poltica.
Recusei a ps juntos, dizendo que, depois de tantos remorsos que me pungiam,
nunca mais me viriam pr a pontaps da ptria para fora os melhores servidores
dela. Ento eles explicaram-se; no queriam ostracismo de verdade, mas s de
fraseologia, um ostracismo puramente caligrfico, e tipogrfico. Tanto que a
mesma ostra, se chegassem a empreg-la, seria ao almoo, crua, com Sauterne. 
vista disso, aceitei, sem saber que aceitava a minha priso. Sim, meu
caro, vs aqui um triste prisioneiro dos teus patrcios.

 Mas... como...

 Ainda hoje. Aqui tens uma folha,
 o Dirio do Brasil; recomenda (ainda que merecidamente) um
candidato s eleies prximas; mas que acrescenta ele sofreu com os seus
amigos o ostracismo, e que os acompanhou. Juro-te que nunca fiz sofrer ningum,
desde que me aposentei;  uma calnia, meu caro. Tenho-me calado, ouvindo
dessas e de outras, mas tambm assim cansa, no posso mais.

 Mas, enfim, que quer que lhe
faa?

 Quero que bote na Gazeta alguma
coisa em meu favor; que me libertem, ou pelo menos que me deixem descansar at
o fim do sculo; sempre  um alvio. Mais tarde, pode ser, que assim como se
pe meias solas aos sapatos, assim se possa fazer s imagens, figuras e outras
partes do estilo. Por ora estou muito acalcanhado... Ostracismo para c,
ostracismo para l;  ostracismo demais. Se os teus patrcios recusarem
libertar-me diretamente, ento lana mo de um meio indireto e infalvel:
recomenda-lhes que empreguem sempre os nomes apropriados s coisas... Vers,
vers se vou daqui dormir por alguns anos. Sim?

Disse-lhe que sim; ele saiu.
Escusado  dizer que era um doido; da a meia hora foi preso e recolhido  5a
estao.

FIM
