Conto, O Machete, 1878

O machete

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, 1878.

Incio Ramos contava apenas dez
anos quando manifestou decidida vocao musical. Seu pai, msico da imperial
capela, ensinou-lhe os primeiros rudimentos da sua arte, de envolta com os da
gramtica de que pouco sabia. Era um pobre artista cujo nico mrito estava na
voz de tenor e na arte com que executava a msica sacra. Incio, conseguintemente,
aprendeu melhor a msica do que a lngua, e aos quinze anos sabia mais dos
bemis que dos verbos. Ainda assim sabia quanto bastava para ler a histria da
msica e dos grandes mestres. A leitura seduziu-o ainda mais; atirou-se o rapaz
com todas as foras da alma  arte do seu corao, e ficou dentro de pouco
tempo um rabequista de primeira categoria.

A rabeca foi o primeiro
instrumento escolhido por ele, como o que melhor podia corresponder s
sensaes de sua alma. No o satisfazia, entretanto, e ele sonhava alguma coisa
melhor. Um dia veio ao Rio de Janeiro um velho alemo, que arrebatou o pblico
tocando violoncelo. Incio foi ouvi-lo. Seu entusiasmo foi imenso; no somente
a alma do artista comunicava com a sua como lhe dera a chave do segredo que ele
procurara.

Incio nascera para o violoncelo.

Daquele dia em diante, o
violoncelo foi o sonho do artista fluminense. Aproveitando a passagem do
artista germnico, Incio recebeu dele algumas lies, que mais tarde aproveitou
quando, mediante economias de longo tempo, conseguiu possuir o sonhado
instrumento.

J a esse tempo seu pai era morto.
 Restava-lhe sua me, boa e santa senhora, cuja alma parecia superior 
condio em que nascera, to elevada tinha a concepo do belo. Incio contava
vinte anos, uma figura artstica, uns olhos cheios de vida e de futuro.
Vivia de algumas lies que dava e de alguns meios que lhe advinham das
circunstncias, tocando ora num teatro, ora num salo, ora numa igreja.
Restavam-lhe algumas horas, que ele empregava ao estudo do violoncelo.

Havia no violoncelo uma poesia
austera e pura, uma feio melanclica e severa que casavam com a alma de
Incio Ramos. A rabeca, que ele ainda amava como o primeiro veculo de seus
sentimentos de artista, no lhe inspirava mais o entusiasmo antigo. Passara a
ser um simples meio de vida; no a tocava com a alma, mas com as mos; no era
a sua arte, mas o seu ofcio. O violoncelo sim; para esse guardava Incio as
melhores das suas aspiraes ntimas, os sentimentos mais puros, a imaginao,
o fervor, o entusiasmo. Tocava a rabeca para os outros, o violoncelo para si,
quando muito para sua velha me.

Moravam ambos em lugar afastado,
em um dos recantos da cidade, alheios  sociedade que os cercava e que os no
entendia. Nas horas de lazer, tratava Incio do querido instrumento e fazia
vibrar todas as cordas do corao, derramando as suas harmonias interiores, e
fazendo chorar a boa velha de melancolia e gosto, que ambos estes sentimentos
lhe inspirava a msica do filho. Os seres caseiros quando Incio no tinha de
cumprir nenhuma obrigao fora de casa, eram assim passados; ss os dois, com o
instrumento e o cu de permeio.

A boa velha adoeceu e morreu.
Incio sentiu o vcuo que lhe ficava na vida. Quando o caixo, levado por meia
dzia de artistas seus colegas, saiu da casa, Incio viu ir ali dentro todo o
passado, e presente, e no sabia se tambm o futuro. Acreditou que o fosse. A
noite do enterro foi pouca para o repouso que o corpo lhe pedia depois do
profundo abalo; a seguinte porm foi a data da sua primeira composio musical.
Escreveu para o violoncelo uma elegia que no seria sublime como perfeio de
arte, mas que o era sem dvida como inspirao pessoal. Comp-la para si;
durante dois anos ningum a ouviu nem sequer soube dela.

A primeira vez que ele troou
aquele suspiro fnebre foi oito dias depois de casado, um dia em que se achava
a ss com a mulher, na mesma casa em que morrera sua me, na mesma sala em que
ambos costumavam passar algumas horas da noite. Era a primeira vez que a mulher
o ouvia tocar violoncelo. Ele quis que a lembrana da me se casasse quela
revelao que ele fazia  esposa do seu corao: vinculava de algum modo o
passado ao presente.

 Toca um pouco de violoncelo,
tinha-lhe dito a mulher duas vezes depois do consrcio; tua me me dizia que
tocavas to bem!

 Bem, no sei, respondia Incio;
mas tenho satisfao em toc-lo.

 Pois sim, desejo ouvir-te!

 Por hora, no, deixa-me
contemplar-te primeiro.

Ao cabo de oito dias, Incio
satisfez o desejo de Carlotinha. Era de tarde,  uma tarde fria e deliciosa. O
artista travou do instrumento, empunhou o arco e as cordas gemeram ao impulso
da mo inspirada. No via a mulher, nem o lugar, nem o instrumento sequer: via
a imagem da me e embebia-se todo em um mundo de harmonias celestiais. A
execuo durou vinte minutos. Quando a ltima nota expirou nas cordas do
violoncelo, o brao do artista tombou, no de fadiga, mas porque todo o corpo
cedia ao abalo moral que a recordao e a obra lhe produziam.

 Oh! lindo! lindo! exclamou
Carlotinha levantando-se e indo ter com o marido.

Incio estremeceu e olhou pasmado
para a mulher. Aquela exclamao de entusiasmo destoara-lhe, em primeiro lugar
porque o trecho que acabava de executar no era lindo, como ela dizia, mas
severo e melanclico e depois porque, em vez de um aplauso ruidoso, ele
preferia ver outro mais consentneo com a natureza da obra,  duas lgrimas que
fossem,  duas, mas exprimidas do corao, como as que naquele momento lhe
sulcavam o rosto.

Seu primeiro movimento foi de
despeito,  despeito de artista, que nele dominava tudo. Pegou silencioso no
instrumento e foi p-lo a um canto. A moa viu-lhe ento as lgrimas;
comoveu-se e estendeu-lhe os braos.

Incio apertou-a ao corao.

Carlotinha sentou-se ento, com
ele, ao p da janela, donde viam surdir no cu as primeiras estrelas. Era uma
mocinha de dezessete anos, parecendo dezenove, mais baixa que alta, rosto
amorenado, olhos negros e travessos. Aqueles olhos, expresso fiel da alma de
Carlota, contrastavam com o olhar brando e velado do marido. Os movimentos da
moa eram vivos e rpidos, a voz argentina, a palavra fcil e correntia, toda
ela uma ndole, mundana e jovial. Incio gostava de ouvi-la e v-la; amava-a
muito, e, alm disso, como que precisava s vezes daquela expresso de vida
exterior para entregar-se todo s especulaes do seu esprito.

Carlota era filha de um negociante
de pequena escala, homem que trabalhou a vida toda como um mouro para morrer
pobre, porque a pouca fazenda que deixou, mal pde chegar para satisfazer
alguns empenhos. Toda a riqueza da filha era a beleza, que a tinha, ainda que
sem poesia nem ideal. Incio conhecera-a ainda em vida do pai, quando ela ia
com este visitar sua velha me; mas s a amou deveras, depois que ela ficou
rf e quando a alma lhe pediu um afeto para suprir o que a morte lhe levara.

A moa aceitou com prazer a mo
que Incio lhe oferecia. Casaram-se a aprazimento dos parentes da moa e das
pessoas que os conheciam a ambos. O vcuo fora preenchido.

Apesar do episdio acima narrado,
os dias, as semanas e os meses correram tecidos de ouro para o esposo artista.
Carlotinha era naturalmente faceira e amiga de brilhar; mas contentava-se com
pouco, e no se mostrava exigente nem extravagante. As posses de Incio Ramos
eram poucas; ainda assim ele sabia dirigir a vida de modo que nem o necessrio
lhe faltava nem deixava de satisfazer algum dos desejos mais modestos da moa.
A sociedade deles no era certamente dispendiosa nem vivia de ostentao; mas
qualquer que seja o centro social h nele exigncias a que no podem chegar
todas as bolsas. Carlotinha vivera de festas e passatempos; a vida conjugal
exigia dela hbitos menos frvolos, e ela soube curvar-se  lei que de corao
aceitara.

Demais, que h a que
verdadeiramente resista ao amor? Os dois amavam-se; por maior que fosse o
contraste entre a ndole de um e outro, ligava-os e irmanava-os o afeto
verdadeiro que os aproximara. O primeiro milagre do amor fora a aceitao por
parte da moa do famoso violoncelo. Carlotinha no experimentava decerto as
sensaes que o violoncelo produzia no marido, e estava longe daquela paixo
silenciosa e profunda que vinculava Incio Ramos ao instrumento; mas
acostumara-se a ouvi-lo, apreciava-o, e chegara a entend-lo alguma vez.

A esposa concebeu. No dia em que o
marido ouviu esta notcia sentiu um abalo profundo; seu amor cresceu de
intensidade.

 Quando o nosso filho nascer,
disse ele, eu comporei o meu segundo canto.

 O terceiro ser quando eu
morrer, no? perguntou a moa com um leve tom de despeito.

 Oh! no digas isso!

Incio Ramos compreendeu a censura
da mulher; recolheu-se durante algumas horas, e trouxe uma composio nova, a
segunda que lhe saa da alma, dedicada  esposa. A msica entusiasmou
Carlotinha, antes por vaidade satisfeita do que porque verdadeiramente a
penetrasse. Carlotinha abraou o marido com todas as foras de que podia
dispor, e um beijo foi o prmio da inspirao. A felicidade de Incio no podia
ser maior; ele tinha tido o que ambicionava: vida de arte, paz e ventura
domstica, e enfim esperanas de paternidade.

 Se for menino, dizia ele 
mulher, aprender violoncelo; se for menina, aprender harpa. So os nicos
instrumentos capazes de traduzir as impresses mais sublimes do esprito.

Nasceu um menino. Esta nova
criatura deu uma feio nova ao lar domstico. A felicidade do artista era
imensa; sentiu-se com mais fora para o trabalho, e ao mesmo tempo como que se
lhe apurou a inspirao.

A prometida composio ao
nascimento do filho foi realizada e executada, no j entre ele e a mulher, mas
em presena de algumas pessoas de amizade. Incio Ramos recusou a princpio
faz-lo; mas a mulher alcanou dele que repartisse com estranhos aquela nova
produo de um talento. Incio sabia que a sociedade no chegaria talvez a
compreend-lo como ele desejava ser compreendido; todavia cedeu. Se acertara
aos seus receios no o soube ele, porque dessa vez, como das outras, no viu
ningum; viu-se e ouviu-se a si prprio, sendo cada nota um eco das harmonias
santas e elevadas que a paternidade acordara nele.

A vida correria assim
monotonamente bela, e no valeria a pena escrev-la, a no ser um incidente,
ocorrido naquela mesma ocasio.

A casa em que eles moravam era
baixa, ainda que assaz larga e airosa. Dois transeuntes, atrados pelos sons do
violoncelo, aproximaram-se das janelas entrefechadas, e ouviram do lado de fora
cerca de metade da composio. Um deles, entusiasmado com a composio e a
execuo, rompeu em aplausos ruidosos quando Incio acabou, abriu violentamente
as portas da janela e curvou-se para dentro gritando.

 Bravo, artista divino!

A exclamao inesperada chamou a
ateno dos que estavam na sala; voltaram-se todos os olhos e viram duas
figuras de homem, um tranqilo, outro alvoroado de prazer. A porta foi aberta
aos dois estranhos. O mais entusiasmado deles correu a abraar o artista.

 Oh! alma de anjo! exclamava ele.
Como  que um artista destes est aqui escondido dos olhos do mundo?

O outro personagem fez igualmente
cumprimentos de louvor ao mestre do violoncelo; mas, como ficou dito, seus
aplausos eram menos entusisticos; e no era difcil achar a explicao da
frieza na vulgaridade de expresso do rosto.

Estes dois personagens assim
entrados na sala eram dois amigos que o acaso ali conduzira. Eram ambos
estudantes de direito, em frias; o entusiasta, todo arte e literatura, tinha a
alma cheia de msica alem e poesia romntica, e era nada menos que um exemplar
daquela falange acadmica fervorosa e moa animada de todas as paixes, sonhos,
delrios e efuses da gerao moderna; o companheiro era apenas um esprito
medocre, avesso a todas essas coisas, no menos que ao direito que alis
forcejava por meter na cabea.

Aquele chamava-se Amaral, este
Barbosa.

Amaral pediu a Incio Ramos para
l voltar mais vezes. Voltou; o artista de corao gastava o tempo a ouvir o de
profisso fazer falar as cordas do instrumento. Eram cinco pessoas; eles,
Barbosa, Carlotinha, e a criana, o futuro violoncelista. Um dia, menos de uma
semana depois, Amaral descobriu a Incio que o seu companheiro era msico.

 Tambm! exclamou o artista.

  verdade; mas um pouco menos
sublime do que o senhor, acrescentou ele sorrindo.

 Que instrumento toca?

 Adivinhe.

 Talvez piano...

 No.

 Flauta?

 Qual!

  instrumento de cordas?

 .

 No sendo rabeca... disse Incio
olhando como a esperar uma confirmao.

 No  rabeca;  machete.

Incio sorriu; e estas ltimas
palavras chegaram aos ouvidos de Barbosa, que confirmou a notcia do amigo.

 Deixe estar, disse este baixo a
Incio, que eu o hei de fazer tocar um dia.  outro gnero...

 Quando queira.

Era efetivamente outro gnero,
como o leitor facilmente compreender. Ali postos os quatro, numa noite da
seguinte semana, sentou-se Barbosa no centro da sala, afinou o machete e ps em
execuo toda a sua percia. A percia era, na verdade, grande; o instrumento 
que era pequeno. O que ele tocou no era Weber nem Mozart; era uma cantiga do
tempo e da rua, obra de ocasio. Barbosa tocou-a, no dizer com alma, mas com
nervos. Todo ele acompanhava a gradao e variaes das notas; inclinava-se
sobre o instrumento, retesava o corpo, pendia a cabea ora a um lado, ora a
outro, alava a perna, sorria, derretia os olhos ou fechava-os nos lugares que
lhe pareciam patticos. Ouvi-lo tocar era o menos; v-lo era o mais. Quem
somente o ouvisse no poderia compreend-lo.

Foi um sucesso,  um sucesso de
outro gnero, mas perigoso, porque, to depressa Barbosa ouviu os cumprimentos
de Carlotinha e Incio, comeou segunda execuo, e iria a terceira, se Amaral
no interviesse, dizendo:

 Agora o violoncelo.

O machete de Barbosa no ficou
escondido entre as quatro partes da sala de Incio Ramos; dentro em pouco era
conhecida a forma dele no bairro em que morava o artista, e toda a sociedade
deste ansiava por ouvi-lo.

Carlotinha foi a denunciadora; ela
achara infinita graa e vida naquela outra msica, e no cessava de o elogiar
em toda a parte. As famlias do lugar tinham ainda saudades de um clebre
machete que ali tocara anos antes o atual subdelegado, cujas funes elevadas
no lhe permitiram cultivar a arte. Ouvir o machete de Barbosa era reviver uma
pgina do passado.

 Pois eu farei com que o ouam,
dizia a moa.

No foi difcil.

Houve dali a pouco reunio em casa
de uma famlia da vizinhana. Barbosa acedeu ao convite que lhe foi feito e l
foi com o seu instrumento. Amaral acompanhou-o.

 No te lastimes, meu divino
artista; dizia ele a Incio; e ajuda-me no sucesso do machete.

Riam-se os dois, e mais do que
eles se ria Barbosa, riso de triunfo e satisfao porque o sucesso no podia
ser mais completo.

 Magnfico!

 Bravo!

 Soberbo!

 Bravssimo!

O machete foi o heri da noite.
Carlota repetia s pessoas que a cercavam:

 No lhes dizia eu?  um
portento.

 Realmente, dizia um crtico do
lugar, assim nem o Fagundes...

Fagundes era o subdelegado.

Pode-se dizer que Incio e Amaral
foram os nicos alheios ao entusiasmo do machete. Conversavam eles, ao p de
uma janela, dos grandes mestres e das grandes obras da arte.

 Voc por que no d um concerto?
perguntou Amaral ao artista.

 Oh! no.

 Por qu?

 Tenho medo...

 Ora, medo!

 Medo de nao agradar...

 H de agradar por fora!

 Alm disso, o violoncelo est
to ligado aos sucessos mais ntimos da minha vida, que eu o considero antes
como a minha arte domstica...

Amaral combatia estas objees de
Incio Ramos; e este fazia-se cada vez mais forte nelas. A conversa foi
prolongada, repetiu-se da a dois dias, at que no fim de uma semana, Incio
deixou-se vencer.

 Voc ver, dizia-lhe o
estudante, e ver como todo o pblico vai ficar delirante.

Assentou-se que o concerto seria
dali a dois meses. Incio tocaria uma das peas j compostas por ele, e duas de
dois mestres que escolheu dentre as muitas.

Barbosa no foi dos menos
entusiastas da idia do concerto. Ele parecia tomar agora mais interesse nos
sucessos do artista, ouvia com prazer, ao menos aparente, os seres de
violoncelo, que eram duas vezes por semana. Carlotinha props que os seres
fossem trs; mas Incio nada concedeu alm dos dois. Aquelas noites eram
passadas somente em famlia; e o machete acabava muita vez o que o violoncelo
comeava. Era uma condescendncia para com a dona da casa e o artista!  o
artista do machete.

Um dia Amaral olhou Incio
preocupado e triste. No quis perguntar-lhe nada; mas como a preocupao
continuasse nos dias subseqentes, no se pde ter e interrogou-o. Incio
respondeu-lhe com evasivas.

 No, dizia o estudante; voc tem
alguma coisa que o incomoda certamente.

 Coisa nenhuma!

E depois de um instante de
silncio:

 O que tenho  que estou
arrependido do violoncelo; se eu tivesse estudado o machete!

Amaral ouviu admirado estas
palavras; depois sorriu e abanou a cabea. Seu entusiasmo recebera um grande
abalo. A que vinha aquele cime por causa do efeito diferente que os dois
instrumentos tinham produzido? Que rivalidade era aquela entre a arte e o
passatempo?

 No podias ser perfeito, dizia
Amaral consigo; tinhas por fora um ponto fraco; infelizmente para ti o ponto 
ridculo.

Da em diante os seres foram
menos amiudados. A preocupao de Incio Ramos continuava; Amaral sentia que o
seu entusiasmo ia cada vez a menos, o entusiasmo em relao ao homem, porque
bastava ouvi-lo tocar para acordarem-se-lhe as primeiras impresses.

A melancolia de Incio era cada
vez maior. Sua mulher s reparou nela quando absolutamente se lhe meteu pelos
olhos.

 Que tens? perguntou-lhe
Carlotinha.

 Nada, respondia Incio.

 Aposto que est pensando em
alguma composio nova, disse Barbosa que dessas ocasies estava presente.

 Talvez, respondeu Incio; penso
em fazer uma coisa inteiramente nova; um concerto para violoncelo e machete.

 Por que no? disse Barbosa com
simplicidade. Faa isso, e veremos o efeito que h de ser delicioso.

 Eu creio que sim, murmurou
Incio.

No houve concerto no teatro, como
se havia assentado; porque Incio Ramos de todo se recusou. Acabaram-se as
frias e os dois estudantes voltaram para S. Paulo.

 Virei v-lo daqui a pouco, disse
Amaral. Virei at c somente para ouvi-lo.

Efetivamente vieram os dois, sendo
a viagem anunciada por carta de ambos.

Incio deu a notcia  mulher, que
a recebeu com alegria.

 Vm ficar muitos dias? disse
ela.

 Parece que somente trs.

 Trs!

  pouco, disse Incio; mas nas
frias que vm, desejo aprender o machete.

Carlotinha sorriu, mas de um
sorriso acanhado, que o marido viu e guardou consigo.

Os dois estudantes foram recebidos
como se fossem de casa. Incio e Carlotinha desfaziam-se em obsquios. Na noite do mesmo dia, houve sero musical; s violoncelo, a instncias de Amaral,
que dizia:

 No profanemos a arte!

Trs dias vinham eles demorar-se,
mas no se retiraram no fim deles.

 Vamos daqui a dois dias.

 O melhor  completar a semana,
observou Carlotinha.

 Pode ser.

No fim de uma semana, Amaral
despediu-se e voltou a S. Paulo; Barbosa no voltou; ficara doente. A doena
durou somente dois dias, no fim dos quais ele foi visitar o violoncelista.

 Vai agora? perguntou este.

 No, disse o acadmico; recebi
uma carta que me obriga a ficar algum tempo.

Carlotinha ouvira alegre a
notcia; o rosto de Incio no tinha nenhuma expresso.

Incio no quis prosseguir nos
seres musicais, apesar de lho pedir algumas vezes Barbosa, e no quis porque,
dizia ele, no queria ficar mal com Amaral, do mesmo modo que no quereria
ficar mal com Barbosa, se fosse este o ausente.

 Nada impede, porm, concluiu o
artista, que ouamos o seu machete.

Que tempo duraram aqueles seres de
machete? No chegou tal notcia ao conhecimento do escritor destas linhas. O
que ele sabe apenas  que o machete deve ser instrumento triste, porque a
melancolia de Incio tornou-se cada vez mais profunda. Seus companheiros nunca
o tinham visto imensamente alegre; contudo a diferena entre o que tinha sido e
era agora entrava pelos olhos dentro. A mudana manifestava-se at no trajar,
que era desleixado, ao contrrio do que sempre fora antes. Incio tinha grandes
silncios, durante os quais era intil falar-lhe, porque ele a nada respondia,
ou respondia sem compreender.

 O violoncelo h de lev-lo ao
hospcio, dizia um vizinho compadecido e filsofo.

Nas frias seguintes, Amaral foi
visitar o seu amigo Incio, logo no dia seguinte quele em que desembarcou.
Chegou alvoroado  casa dele; uma preta veio abri-la.

 Onde est ele? Onde est ele?
perguntou alegre e em altas vozes o estudante.

A preta desatou a chorar.

Amaral interrogou-a, mas no
obtendo resposta, ou obtendo-a intercortada de soluos, correu para o interior
da casa com a familiaridade do amigo e a liberdade que lhe dava a ocasio.

Na sala do concerto, que era nos
fundos, olhou ele Incio Ramos, de p, com o violoncelo nas mos preparando-se
para tocar. Ao p dele brincava um menino de alguns meses.

Amaral parou sem compreender nada.
Incio no o viu entrar; empunhara o arco e tocou,  tocou como nunca,  uma
elegia plangente, que o estudante ouviu com lgrimas nos olhos. A criana,
dominada ao que parece pela msica, olhava quieta para o instrumento. Durou a
cena cerca de vinte minutos.

Quando a msica acabou, Amaral
correu a Incio.

 Oh! meu divino artista! exclamou
ele.

Incio apertou-o nos braos; mas
logo o deixou e foi sentar-se numa cadeira com os olhos no cho. Amaral nada
compreendia; sentia porm que algum abalo moral se dera nele.

 Que tens? disse.

 Nada, respondeu Incio.

E ergueu-se e tocou de novo o
violoncelo. No acabou porm; no meio de uma arcada, interrompeu a msica, e
disse a Amaral:

  bonito, no?

 Sublime! respondeu o outro.

 No; machete  melhor.

E deixou o violoncelo, e correu a
abraar o filho.

 Sim, meu filho, exclamava ele,
hs de aprender machete; machete  muito melhor.

 Mas que h? articulou o
estudante.

 Oh! nada, disse Incio, ela foi-se
embora, foi-se com o machete. No quis o violoncelo, que  grave demais. Tem
razo; machete  melhor.

A alma do marido chorava mas os
olhos estavam secos. Uma hora depois enlouqueceu.
