Conto, A chave, 1879

A chave

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em A Estao, de 12/1879 a fevereiro de 1880.

CAPTULO
PRIMEIRO

No sei se lhes diga simplesmente
que era de madrugada, ou se comece num tom mais potico: a aurora, com seus
rseos dedos... A maneira simples  o que melhor me conviria a mim, ao leitor,
aos banhistas que esto agora na Praia do Flamengo  agora, isto , no dia 7 de
outubro de 1861, que  quando tem princpio este caso que lhes vou contar.
Convinha-nos isto; mas h l um certo velho, que me no leria, se eu me
limitasse a dizer que vinha nascendo a madrugada, um velho que... Digamos quem
era o velho.

Imaginem os leitores um sujeito
gordo, no muito gordo,  calvo, de culos, tranqilo, tardo, meditativo. Tem
sessenta anos: nasceu com o sculo. Traja asseadamente um vesturio da manh;
v-se que  abastado ou exerce algum alto emprego na administrao. Sade de
ferro. Disse j que era calvo; equivale a dizer que no usava cabeleira.
Incidente sem valor, observar a leitora, que tem pressa. Ao que lhe replico
que o incidente  grave, muito grave, extraordinariamente grave. A cabeleira
devia ser o natural apndice da cabea do Major Caldas, porque cabeleira traz
ele no esprito, que tambm  calvo.

Calvo  o esprito. O Major Caldas
cultivou as letras, desde 1821 at 1840 com um ardor verdadeiramente
deplorvel. Era poeta; compunha versos com presteza, retumbantes, cheios de
adjetivos, cada qual mais calvo do que ele tinha de ficar em 1861. A primeira poesia foi dedicada a no sei que outro poeta, e continha em grmen todas as odes e
glosas que ele havia de produzir. No compreendeu nunca o Major Caldas que se
pudesse fazer outra coisa que no glosas e odes de toda a casta, pindricas ou
horacianas, e tambm idlios piscatricos, obras perfeitamente legtimas na
aurora literria do major. Nunca para ele houve poesia que pudesse competir com
a de um Dinis ou Pimentel Maldonado; era a sua cabeleira do esprito.

Ora,  certo que o Major Caldas,
se eu dissesse que era de madrugada, dar-me-ia um muxoxo ou franziria a testa com
desdm.  Madrugada! era de madrugada! murmuraria ele. Isto diz a qualquer
preta:  nh-nh, era de madrugada... Os jornais no dizem de outro modo; mas
numa novela...

V pois! A aurora, com seus dedos
cor-de-rosa vinha rompendo as cortinas do oriente, quando Marcelina levantou a
cortina da barraca. A porta da barraca olhava justamente para o oriente, de
modo que no h inverossimilhana em lhes dizer que essas duas auroras se
contemplaram por um minuto. Um poeta arcdico chegaria a insinuar que a aurora
celeste enrubesceu de despeito e raiva. Seria porm levar a poesia muito longe.

Deixemos a do cu e venhamos  da
terra. L est ela,  porta da barraca com as mos cruzadas no peito, como quem
tem frio; traja a roupa usual das banhistas, roupa que s d elegncia a quem
j a tiver em subido grau.  o nosso caso.

Assim,  meia-luz da manh
nascente, no sei se poderamos v-la de modo claro. No;  impossvel. Quem
lhe examinaria agora aqueles olhos midos, como as conchas da praia, aquela
boca pequenina, que parece um beijo perptuo? Vede, porm, o talhe, a curva
amorosa das cadeiras, o trecho de perna que aparece entre a barra da cala de
flanela e o tornozelo; digo o tornozelo e no o sapato porque Marcelina no
cala sapatos de banho. Costume ou vaidade? Pode ser costume; se for vaidade 
explicvel porque o sapato esconderia e mal os ps mais graciosos de todo o
Flamengo, um par de ps finos, esguios, ligeiros. A cabea tambm no leva
coifa; tem os cabelos atados em parte, em parte tranados,  tudo
desleixadamente, mas de um desleixo voluntrio e casquilho.

Agora, que a luz est mais clara,
podemos ver bem a expresso do rosto.  uma expresso singular de pomba e gato,
de mimo e desconfiana. H olhares dela que atraem, outros que distanciam, 
uns que inundam a gente, como um blsamo, outros que penetram como uma lmina.
 desta ltima maneira que ela olha para um grupo de duas moas, que esto 
porta de outra barraca, a falar com um sujeito.

 Lambisgias! murmura entre
dentes.

 Que ? pergunta o pai de
Marcelina, o Major Caldas, sentado ao p da barraca, numa cadeira que o moleque
lhe leva todas as manhs.

 Que  o qu? diz a moa.

 Tu falaste alguma coisa.

 Nada.

 Ests com frio?

 Algum.

 Pois olha, a manh est quente.

 Onde est o Jos?

O Jos apareceu logo; era o
moleque que a acompanhava ao mar. Aparecido o Jos, Marcelina caminhou para o
mar, com um desgarro de moa bonita e superior. Da outra barraca tinham j
sado as duas moas, que lhe mereceram to desdenhosa classificao; o rapaz
que estava com elas tambm entrara no mar. Outras cabeas e bustos surgiram da
gua, como um grupo de delfins. Da praia alguns olhos, puramente curiosos, se
estendiam aos banhistas ou cismavam puramente contemplando o espetculo das ondas
que se dobravam e desdobravam,  ou, como diria o Major Caldas  as convulses
de Anfitrite.

O major ficou sentado a ver a
filha, com o Jornal do Comrcio aberto sobre os joelhos; tinha j luz
bastante para ler as notcias; mas no o fazia nunca antes de voltar a filha do
banho. Isto por duas razes. Era a primeira a prpria afeio de pai; apesar da
confiana na destreza da filha, receava algum desastre. Era a segunda o gosto
que lhe dava contemplar a graa e a habilidade com que Marcelina mergulhava,
bracejava ou simplesmente boiava como uma niade, acrescentava ele se falava
disso a algum amigo.

Acresce que o mar naquela manh
estava muito mais bravio que de costume; a ressaca era forte; os buracos da
praia mais fundos; o medo afastava vrios banhistas habituais.

 No te demores muito, disse o
major, quando a filha entrou; toma cuidado.

Marcelina era destemida; galgou a
linha em que se dava a arrebentao, e surdiu fora muito naturalmente. O
moleque, alis bom nadador, no rematou a faanha com igual placidez; mas
galgou tambm e foi surgir ao lado da sinh-moa.

 Hoje o bicho no est bom,
ponderou um banhista ao lado de Marcelina, um homem maduro, de suas, ar
apresentado.

 Parece que no, disse a moa;
mas para mim  o mesmo.

 O major continua a no gostar
dgua salgada? perguntou uma senhora.

 Diz que  militar de terra e no
do mar, replicou Marcelina, mas eu creio que papai o que quer  ler o Jornal
 vontade.

 Podia vir l-lo aqui, insinuou
um rapaz de bigodes, dando uma grande risada de aplauso a si mesmo.

Marcelina nem olhou para ele;
mergulhou diante de uma onda, surdiu fora, com as mos sacudiu os cabelos. O
sol que j ento aparecera, alumiava-a nessa ocasio, ao passo que a onda,
seguindo para a praia, deixava-lhe todo o busto fora de gua. Foi assim que a
viu, pela primeira vez, com os cabelos midos, e a flanela grudada ao busto, 
ao mais correto e virginal busto daquelas praias,  foi assim que pela primeira
vez a viu o Bastinhos,  o Lus Bastinhos,  que acabava de entrar no mar, para
tomar o primeiro banho no Flamengo.

CAPTULO
II

A ocasio  a menos prpria para
apresentar-lhes o Sr. Lus Bastinhos; a ocasio e o lugar. O vesturio ento 
improprssimo. Ao v-lo agora, a meio busto, nem se pode dizer que tenha
vesturio de nenhuma espcie. Emerge-lhe a parte superior do corpo, boa
musculatura, pele alva, mal coberta de alguma penugem. A cabea  que no
precisa dos arrebiques da civilizao para dizer-se bonita. No h cabeleireiro,
nem leo, nem pente, nem ferro que no-la ponham mais graciosa. Ao contrrio, a
expresso fisionmica de Lus Bastinhos acomoda-se melhor a esse desalinho
agreste e martimo. Talvez perca, quando se pentear. Quanto ao bigode, fino e
curto, os pingos dgua que ora lhe escorrem, no chegam a diminu-lo; no
chegam sequer a ver-se. O bigode persiste como dantes.

No o viu Marcelina, ou no
reparou nele. O Lus Bastinhos  que a viu, e mal pde disfarar a admirao. O
Major Caldas, se os observasse, era capaz de cas-los, s para ter o gosto de
dizer que unia uma niade a um trito. Nesse momento a niade repara que o
trito tem os olhos fitos nela, e mergulha, depois mergulha outra vez, nada e
bia. Mas o trito  teimoso, e no lhe tira os olhos de cima.

Que importuno! diz ela consigo.

 Olhem uma onda grande, brada um
dos conhecidos de Marcelina.

Todos se puseram em guarda, a onda
enrolou alguns, mas passou sem maior dano. Outra veio e foi recebida com um
alarido alegre; enfim veio uma mais forte, e assustou algumas senhoras.
Marcelina riu-se delas.

 Nada, dizia uma; salvemos o
plo; o mar est ficando zangado.

 Medrosa! acudiu Marcelina.

 Pois sim...

 Querem ver? continuou a filha do
major. Vou mandar embora o moleque.

 No faa isso, D. Marcelina,
acudiu o banhista de ar aposentado.

 No fao outra coisa. Jos,
vai-te embora.

 Mas, nhanh...

 Vai-te embora!

O Jos ainda esteve alguns
segundos, sem saber o que fizesse; mas, parece que entre desagradar ao pai ou 
filha, achou mais arriscado desagradar  filha, e caminhou para terra. Os
outros banhistas tentaram persuadir  moa que devia vir tambm, mas era tempo
baldado. Marcelina tinha a obstinao de um enfant gt. Lembraram
alguns que ela nadava como um peixe, e resistira muita vez ao mar.

 Mas o mar do Flamengo  o diabo,
ponderou uma senhora. Os banhistas pouco a pouco foram deixando o mar. Do lado
de terra, o Major Caldas, de p, ouvia impaciente a explicao do moleque, sem
saber se o devolveria  gua ou se cumpriria a vontade da filha; limitou-se a
soltar palavras de enfado.

 Santa Maria! exclamou de repente
o Jos.

 Que foi? disse o major.

O Jos no lhe respondeu;
atirou-se  gua. O major olhou e no viu a filha. Efetivamente, a moa, vendo
que no mar s ficava o desconhecido, nadou para terra, mas as ondas tinham-se
sucedido com freqncia e impetuosidade. No lugar da arrebentao foi envolvida
por uma; nesse momento  que o moleque a viu.

 Minha filha! bradou o major.

E corria desatinado pela areia,
enquanto o moleque conscienciosamente buscava penetrar no mar. Mas era j
empresa escabrosa; as ondas estavam altas, fortes e a arrebentao terrvel.
Outros banhistas acudiram tambm a salvar a filha do major; mas a dificuldade
era s uma para todos. Caldas, ora implorava, ora ordenava ao moleque que lhe
restitusse a filha. Enfim, Jos conseguiu entrar no mar. Mas j ento lutava
ali, junto ao funesto lugar, o desconhecido banhista que tanto aborrecera a
filha do major. Este estremeceu de alegria, de esperana, quando viu que algum
forcejava por arrancar a moa da morte. Na verdade, o vulto de Marcelina
apareceu nos braos do Lus Bastinhos; mas uma onda veio e os enrolou a ambos.
Nova luta, novo esforo e desta vez definitivo triunfo. Lus Bastinhos chegou 
praia arrastando consigo a moa.

 Morta! exclamou o pai correndo a
v-la.

Examinaram-na.

 No, desmaiada, apenas.

Com efeito, Marcelina perdera os
sentidos, mas no morrera. Deram-lhe os socorros mdicos; ela voltou a si. O
pai, singelamente alegre, apertou Lus Bastinhos ao corao.

 Devo-lhe tudo! disse ele.

 A sua felicidade me paga de
sobra, tornou o moo.

O major fitou-o alguns instantes;
impressionara-o a resposta. Depois apertou-lhe a mo e ofereceu-lhe a casa.
Lus Bastinhos retirou-se antes que Marcelina pudesse v-lo.

CAPTULO
III

Na verdade, se a leitora gosta de
lances romanescos, a fica um, com todo o valor das antigas novelas, e pode ser
tambm que dos dramalhes antigos. Nada falta: o mar, o perigo, uma dama que se
afoga, um desconhecido que a salva, um pai que passa da extrema aflio ao mais
doce prazer da vida; eis a com que marchar cerradamente a cinco atos maudos e
sangrentos, rematando tudo com a morte ou a loucura da herona.

No temos c nem uma coisa nem
outra. A nossa Marcelina no morreu nem morre; doida pode ser que j fosse, mas
de uma doidice branda, a doidice das moas em flor. Ao menos pareceu que tinha alguma coisa disso, quando naquele mesmo dia, soube que fora
salva pelo desconhecido.

 Impossvel! exclamou.

 Por qu?

 Foi ele deveras?

 Pois ento! Salvou-te com perigo
da vida prpria; houve um momento, em que eu cuidei que ambos vocs morriam
enrolados na onda.

  a coisa mais natural do mundo,
interveio a me; e no sei de que te espantas...

Marcelina no podia, na verdade,
explicar a causa do espanto; ela mesma no a sabia. Custava-lhe a crer que Lus
Bastinhos a tivesse salvo, e isso s porque embirrara com ele. Ao mesmo
tempo, pesava-lhe o obsquio. No quisera ter morrido; mas era melhor que outro
a houvesse arrancado ao mar, no aquele homem, que afinal era um grande
metedio. Marcelina esteve inclinada a crer que Lus Bastinhos encomendara o
desastre para ter ocasio de a servir.

Dois dias depois, Marcelina voltou
ao mar, j pacificado dos seus furores de encomenda. Ao olhar para ele, teve
uns mpetos de Xerxes; f-lo-ia castigar, se dispusesse de um bom e grande
vergalho. No tendo o vergalho, preferiu flagel-lo com os seus prprios
braos, e nadou nesse dia mais tempo e mais fora do que era costume, no
obstante as recomendaes do major. Levava naquilo um pouco, ou antes, muito
amor-prprio: o desastre envergonhara-a.

O Lus Bastinhos, que j l estava
no mar, travou conversao com a filha do major. Era a segunda vez que se viam,
e a primeira que se falavam.

 Soube que foi o senhor quem me
ajudou... a levantar anteontem, disse Marcelina.

O Lus Bastinhos sorriu
mentalmente; e ia responder por uma simples afirmativa, quando Marcelina
continuou:

 Ajudou, no sei; eu creio que
cheguei a perder os sentidos, e o senhor... sim... o senhor foi quem me salvou.
Permite-me que lhe agradea? concluiu ela, estendendo a mo.

Lus Bastinhos estendeu a sua; e
ali, entre duas ondas, tocaram-se os dedos do trito e da niade.

 Hoje o mar est mais manso,
disse ele.

 Est.

 A senhora nada bem.

 Parece-lhe?

 Perfeitamente.

 Menos mal.

E como para mostrar a sua arte,
Marcelina entrou a nadar para fora, deixando Lus Bastinhos. Este, porm, ou
por mostrar que tambm sabia a arte e que era destemido,  ou por no privar a
moa de pronto socorro, caso houvesse necessidade,  ou enfim (e este motivo
pode ter sido o principal, se no nico),  para v-la sempre de mais perto, 
l foi na mesma esteira; dentro de pouco era uma espcie de aposta entre os
dois.

 Marcelina, disse-lhe o pai,
quando ela voltou a terra, voc hoje foi mais longe do que nunca. No quero
isso, ouviu?

Marcelina levantou os ombros, mas
obedeceu ao pai, cujo tom nessa ocasio era desusadamente rspido. No dia
seguinte, no foi to longe a nadar; a conversar, porm, foi muito mais longe
do que na vspera. Ela confessou ao Lus Bastinhos, ambos com a gua at o
pescoo, confessou que gostava muito de caf com leite, que tinha vinte e um
anos, que possua reminiscncias do Tamberlick, e que o banho do mar seria
excelente, se no a obrigassem a acordar cedo.

 Deita-se tarde, no ? perguntou
o Lus Bastinhos.

 Perto de meia-noite.

 Oh! dorme pouco!

 Muito pouco.

 De dia dorme?

 s vezes.

Lus Bastinhos confessou, pela sua
parte, que se deitava cedo, muito cedo, desde que estava a banhos de mar.

 Mas quando for ao teatro?

 Nunca vou ao teatro.

 Pois eu gosto muito.

 Tambm eu; mas enquanto estiver
a banhos...

Foi neste ponto que entraram as
reminiscncias do Tamberlick, que Marcelina ouviu, quando criana; e da ao
Joo Caetano, e do Joo Caetano a no sei que outras reminiscncias, que a um e
a outro fez esquecer a higiene e a situao.

CAPTULO
IV

Saiamos do mar que  tempo. A
leitora pode desconfiar que o intento do autor  fazer um conto martimo, a
ponto de casar os dois heris nos prprios paos de Anfitrite, como diria o
Major Caldas. No; saiamos do mar. J tens muita gua, boa Marcelina. Too
much of water hast thou, poor Ophelia! A diferena  que a pobre
Oflia l ficou, ao passo que tu sais s e salva, com a roupa de banho pegada
ao corpo, um corpo grego, por Deus! e entras na barraca, e se alguma coisa
ouves, no so as lgrimas dos teus, so os resmungos do major. Saiamos do mar.

Um ms depois do ltimo banho a
que o leitor assistiu, j o Lus Bastinhos freqentava a casa do Major Caldas.
O major afeioara-se-lhe deveras depois que ele lhe salvara a filha. Indagou
quem era; soube que estava empregado numa repartio de marinha, que seu pai,
j agora morto, fora capito-de-fragata e figurara na guerra contra Rosas.
Soube mais que era moo bem reputado e decente. Tudo isto realou a ao
generosa e corajosa de Lus Bastinhos, e a intimidade comeou, sem oposio da
parte de Marcelina, que antes contribuiu para ela, com as suas melhores
maneiras.

Um ms era de sobra para arraigar
no corao de Lus Bastinhos a planta do amor que havia germinado entre duas
vagas do Flamengo. A planta cresceu, copou, bracejou ramos a um e outro lado,
tomou o corao todo do rapaz, que no se lembrava jamais de haver gostado
tanto de uma moa. Era o que ele dizia a um amigo de infncia, seu atual confidente.

 E ela? disse-lhe o amigo.

 Ela... no sei.

 No sabes?

 No; creio que no gosta de mim,
isto , no digo que se aborrea comigo; trata-me muito bem, ri muito, mas no
gosta... entendes?

 No te d corda em suma,
concluiu o Pimentel, que assim se chamava o amigo confidente. J lhe disseste
alguma coisa?

 No.

 Por que no lhe falas?

 Tenho receio... Ela pode
zangar-se e fico obrigado a no voltar l ou a freqentar menos, e isso para
mim seria o diabo.

O Pimentel era uma espcie de
filsofo prtico, incapaz de suspirar dois minutos pela mais bela mulher do
mundo, e menos ainda de compreender uma paixo como a do Lus Bastinhos.
Sorriu, estendeu-lhe a mo em despedida, mas o Lus Bastinhos no consentiu na
separao. Puxou-o, deu-lhe o brao, levou-o a um caf.

 Mas que diabo queres tu que te
faa? perguntou o Pimentel sentando-se  mesa com ele.

 Que me aconselhes.

 O qu?

 No sei o qu, mas dize-me
alguma coisa, replicou o namorado. Talvez convenha falar ao pai; que te parece?

 Sem saber se ela gosta de ti?

 Na verdade era imprudncia,
concordou o outro, coando o queixo com a ponta do dedo ndice; mas talvez
goste...

 Pois ento...

 Porque, eu te digo, ela no me
trata mal; ao contrrio, s vezes tem uns modos, umas coisas... mas no sei...
O major, esse gosta de mim.

 Ah!

 Gosta.

 Pois a tens, casa-te com o
major.

 Falemos srio.

 Srio? repetiu o Pimentel
debruando-se sobre a mesa e encarando o outro. Aqui vai o mais srio que h no
mundo: tu s um... digo?

 Dize.

 Tu s um bolas.

Repetiam-se essas cenas
regularmente, uma ou duas vezes, por semana. No fim delas o Lus Bastinhos
prometia duas coisas a si mesmo: no dizer mais nada ao Pimentel e ir fazer
imediatamente a sua confisso a Marcelina; poucos dias depois ia confessar ao
Pimentel que ainda no dissera nada a Marcelina. E o Pimentel abanava a cabea
e repetia o estribilho:

 Tu s um bolas.

CAPTULO
V

Um dia assentou Lus Bastinhos que
era vergonha dilatar por mais tempo a declarao de seus afetos; urgia clarear
a situao. Ou era amado ou no; no primeiro caso, o silncio era tolice: no
segundo a tolice era a assiduidade. Tal foi a reflexo do namorado; tal foi a
sua resoluo.

A ocasio era na verdade propcia.
O pai ia passar a noite fora; a moa ficara com uma tia surda e sonolenta. Era
o sol de Austerlitz; o nosso Bonaparte preparou a sua melhor ttica. A fortuna
deu-lhe at um grande auxiliar na prpria moa, que estava triste; a tristeza
podia dispor o corao a sentimentos benvolos, principalmente quando outro
corao lhe dissesse que no duvidava beber na mesma taa da melancolia. Esta
foi a primeira reflexo de Lus Bastinhos; a segunda foi diferente.

 Por que estar ela triste?
perguntou ele a si mesmo.

E eis o dente do cime a
trincar-lhe o corao, e o sangue a esfriar-lhe nas veias, e uma nuvem a
cobrir-lhe os olhos. No era para menos o caso. Ningum adivinharia nessa moa
quieta e sombria, sentada a um canto do sof, a ler as pginas de um romance,
ningum adivinharia nela a borboleta gil e volvel de todos os dias. Alguma
coisa devia ser; talvez a mordesse algum besouro. E esse besouro no era
decerto o Lus Bastinhos; foi o que este pensou e foi o que o entristeceu.

Marcelina ergueu os ombros.

 Alguma coisa que a incomoda,
continuou ele.

Um silncio.

 No?

 Talvez.

 Pois bem, disse Lus Bastinhos
com calor e animado por aquela meia confidncia; pois bem, diga-me tudo, eu
saberei ouvi-la e terei palavras de consolao para as suas dores.

Marcelina olhou um pouco espantada
para ele, mas a tristeza dominou outra vez e deixou-se estar calada alguns
instantes: finalmente ps-lhe a mo no brao, e disse que lhe agradecia muito o
interesse que mostrava, mas que o motivo de tristeza era-o s para ela e no
valia a pena cont-lo. Como Lus Bastinhos teimasse para saber o que era,
contou a moa que lhe morrera, nessa manh, o mico.

Lus Bastinhos respirou  larga. Um
mico! um simples mico! Era pueril o objeto, mas para quem o esperava terrvel,
antes assim. Ele entregou-se depois a toda a sorte de consideraes prprias do
caso, disse-lhe que no valia o bicho a pureza dos belos olhos da moa; e da a
escorregar uma insinuao de amor era um quase nada. Ia a faz-lo: chegou o
major.

Oito dias depois houve em casa do
major um sarau,  uma brincadeira como disse o prprio major. Lus Bastinhos
foi; estava porm arrufado com a moa: deixou-se ficar a um canto; no se
falaram durante a noite inteira.

 Marcelina, disse-lhe no dia
seguinte o pai; acho que tratas s vezes mal o Bastinhos. Um homem que te
salvou da morte.

 Que morte?

 Da morte na Praia do Flamengo.

 Mas, papai, se a gente fosse a
morrer de amores por todas as pessoas que nos salvam da morte...

 Mas quem te fala nisso? digo que
o tratas mal s vezes...

 s vezes,  possvel.

 Mas por qu? ele parece-me um
bom rapaz.

Nada mais lhe respondendo a filha,
entrou o major a bater com a ponta do p no cho, um pouco enfadado. Um pouco?
talvez muito. Marcelina destrua-lhe as esperanas, reduzia-lhe a nada o
projeto que ele acalentava desde algum tempo,  que era casar os dois; 
cas-los ou uni-los pelos doces laos do himeneu, que todas foram as suas
prprias expresses mentais. E vai a moa e destri-lho. O major sentia-se
velho, podia morrer, e quisera deixar a filha casada e bem casada. Onde achar
melhor marido que o Lus Bastinhos?

 Uma prola, dizia ele a si
mesmo.

E enquanto ele ia forjando e
desforjando esses projetos, Marcelina suspirava consigo mesma, e sem saber por
que; mas suspirava. Tambm esta pensava na convenincia de casar e casar bem;
mas nenhum homem lhe abrira deveras o corao. Quem sabe se a fechadura no
servia a nenhuma chave? Quem teria a verdadeira chave do corao de Marcelina?
Ela chegou a supor que fosse um bacharel da vizinhana, mas esse casou dentro
de algum tempo; depois desconfiara que a chave estivesse em poder de um oficial
de marinha. Erro: o oficial no trazia chave consigo. Assim andou de iluso em
iluso, e chegou  mesma tristeza do pai. Era fcil acabar com ela: era casar
com o Bastinhos. Mas se o Bastinhos, o circunspecto, o melanclico, o taciturno
Bastinhos no tinha a chave! Equivalia a receb-lo  porta sem lhe dar entrada
no corao.

CAPTULO
VI

Cerca de ms e meio depois fazia
anos o major, que, animado pelo sarau precedente, quis comemorar com outro
aquele dia. Outra brincadeira, mas desta vez rija, foram os prprios termos
em que ele anunciou o caso ao Lus Bastinhos, alguns dias antes.

Pode-se dizer e acreditar que a
filha do major no teve outro pensamento desde que o pai lho comunicou tambm.
Comeou por encomendar um rico vestido, elegeu costureira, adotou corte,
coligiu adornos, presidiu a toda essa grande obra domstica. Jias, flores,
fitas, leques, rendas, tudo lhe passou pelas mos, e pela memria e pelos
sonhos. Sim, a primeira quadrilha foi danada em sonhos, com um belo cavalheiro
hngaro, vestido  moda nacional, cpia de uma gravura da Ilustrao
Francesa, que ela vira de manh. Acordada, lastimou sinceramente que no
fosse possvel ao pai encomendar, de envolta com os perus da ceia, um ou dois
cavalheiros hngaros,  entre outros motivos porque eram valsadores
interminveis. E depois to bonitos!

 Sabem que eu pretendo danar no
dia 20? disse o major uma noite, em casa.

 Voc? retorquiu-lhe um amigo
velho.

 Eu.

 Por que no? assentiu
timidamente o Lus Bastinhos.

 Justamente, continuou o major
voltando-se para o salvador da filha. E o senhor h de ser o meu vis--vis...

 Eu?

 No dana?

 Um pouco, retorquiu modestamente
o moo.

 Pois h de ser o meu vis--vis.

Lus Bastinhos curvou-se como quem
obedece a uma opresso; com a flexibilidade passiva do fatalismo. Se era
necessrio danar, ele o faria, porque danava como poucos, e obedecer ao velho
era uma maneira de amar a moa. Ai dele! Marcelina olhou-o com tamanho
desprezo, que se ele lhe apanha o olhar, no  impossvel que de uma vez para
sempre ali deixasse de pr os ps. Mas no o viu; continuou a arred-los dali
bem poucas vezes.

Os convites foram profusamente
espalhados. O Major Caldas fez o inventrio de todas as suas relaes, antigas
e modernas, e no quis que nenhum camaro lhe escapasse pelas malhas: lanou
uma rede fina e instante. Se ele no pensava em outra coisa o velho major! Era
feliz; sentia-se poupado da adversidade, quando muitos outros companheiros vira
cair, uns mortos, outros extenuados somente. A comemorao de seu aniversrio
tinha, portanto, uma significao mui alta e especial; e foi isso mesmo o que
ele disse  filha e aos demais parentes.

O Pimentel, que tambm fora
convidado, sugeriu a Lus Bastinhos a idia de dar um presente de anos ao
major.

 J pensei nisso, retorquiu o
amigo; mas no sei o que lhe d.

 Eu te digo.

 Dize.

 D-lhe um genro.

 Um genro?

 Sim, um noivo  filha; declara o
teu amor e pede-a. Vers que, de todas as ddivas desse dia, essa ser a
melhor.

Lus Bastinhos bateu palmas ao
conselho do Pimentel.

  isso mesmo, disse ele; eu
andava com a idia em alguma jia, mas...

 Mas a melhor jia s tu mesmo,
concluiu o Pimentel.

 No digo tanto.

 Mas pensas.

 Pimentel!

 E eu no penso outra coisa.
Olha, se eu tivesse intimidade na casa, h muito tempo que estarias amarrado 
pequena. Pode ser que ela no goste de ti; mas tambm  difcil a uma moa
alegre e travessa gostar de um casmurro, como tu,  que te sentas, defronte
dela, com um ar solene e dramtico, a dizer em todos os teus gestos: minha
senhora, fui eu que a salvei da morte; deve rigorosamente entregar-me a sua
vida... Ela pensa decerto que ests fazendo um calembour de mau gosto e
fecha-te a porta...

Lus Bastinhos esteve calado
alguns instantes.

 Perdo-te tudo, a troco do
conselho que me deste; vou oferecer um genro ao major.

Dessa vez, como de todas as
outras, a promessa era maior do que a realidade; ele l foi, l tornou, nada
fez. Iniciou duas ou trs vezes uma declarao; chegou a entornar um ou dois
olhares de amor, que no pareceram de todo feios  pequena; e, porque ela
sorriu, ele desconfiou e desesperou. Qual! pensava consigo o rapaz; ela ama a
outro com certeza.

Veio enfim o dia, o grande dia. O
major deu um pequeno jantar, em que figurou Lus Bastinhos; de noite reuniu uma
parte dos convidados, porque nem todos l puderam ir, e fizeram bem; a casa no
dava para tanto. Ainda assim era muita gente reunida, muita e brilhante, e
alegre, como alegre parecia e deveras estava o major. No se disse nem se dir
dos brindes do major,  mesa do jantar; no podem inserir-se aqui todas as
recordaes clssicas do velho poeta de outros anos; seria no acabar mais. A
nica coisa que verdadeiramente se pode dizer  que o major declarou, 
sobremesa, ser esse o dia mais venturoso de todos os seus longos anos, entre
outros motivos, porque tinha gosto de ver ao p de si o jovem salvador da
filha.

 Que idia! murmurou a filha; e
deu um imperceptvel muxoxo.

Lus Bastinhos aproveitou o
ensejo. Magnfico, disse ele consigo; depois do caf, peo-lhe duas palavras
em particular, e logo depois a filha.

Assim fez; tomado o caf, pediu ao
major uns cinco minutos de ateno. Caldas, um pouco vermelho de comoo e de champagne,
declarou-lhe que at lhe daria cinco mil minutos, se tantos fossem precisos.

Lus Bastinhos sorriu lisonjeado a
essa deslocada insinuao; e, entrando no gabinete particular do major, foi sem
mais prembulo ao fim da entrevista; pediu-lhe a filha em casamento. O major quis resguardar um pouco a dignidade paterna; mas era impossvel. Sua
alegria foi uma exploso.

 Minha filha! bradou ele; mas...
minha filha... ora essa... pois no!... Minha filha!

E abria os braos e apertava com eles
o jovem candidato, que, um pouco admirado do prprio atrevimento, chegou a
perder o uso da voz. Mas a voz era, alis, intil, ao menos durante o primeiro
quarto de hora, em que s falou o ambiciado sogro, com uma volubilidade sem
limites. Cansou enfim, mas de um modo cruel.

 Velhacos! disse ele; com que
ento... amam-se s escondidas...

 Eu?

 Pois quem?

 Peo-lhe perdo, disse Lus
Bastinhos; mas no sei... no tenho certeza...

 Qu! no se correspondem?...

 No me tenho atrevido...

O major abanou a cabea com certo
ar de irritao e lstima; pegou-lhe das mos e fitou-o durante alguns
segundos.

 Tu s afinal de contas um
pandorga, sim, um pandorga,  disse ele, largando-lhe as mos.

Mas o gosto de os ver casados era
tal, e tal a alegria daquele dia de anos, que o major sentiu a lstima
converter-se em entusiasmo, a irritao em gosto, e tudo acabou em boas
promessas.

 Pois digo-te, que te hs de
casar, concluiu ele; Marcelina  um anjo, tu outro, eu outro; tudo indica que
nos devemos ligar por laos mais doces do que as simples relaes da vida.
Juro-te que sers o pai de meus netos...

Jurava mal o major, porque da a
meia hora, quando ele chamou a filha ao gabinete, e lhe comunicou o pedido,
recebeu desta a mais formal recusa; e por que insistisse em querer conced-la
ao rapaz, disse-lhe a moa que despediria o pretendente em plena sala, se lhe
falassem mais em semelhante absurdo. Caldas, que conhecia a filha, no disse
mais nada. Quando o pretendente lhe perguntou, da a pouco, se devia
considerar-se feliz, ele usou um expediente assaz enigmtico: piscou-lhe o
olho. Lus Bastinhos ficou radiante; ergueu-se s nuvens nas asas da
felicidade.

Durou pouco a felicidade;
Marcelina no correspondia s promessas do major. Trs ou quatro vezes
chegara-se a ela Lus Bastinhos, com uma frase piegas na ponta da lngua, e
vira-se obrigado a engoli-la outra vez, porque a recepo de Marcelina no
animava mais. Irritado, foi sentar-se ao canto de uma janela, com os olhos na
lua, que estava esplndida,  uma verdadeira nesga de romantismo. Ali fez mil
projetos trgicos, o suicdio, o assassinato, o incndio, a revoluo, a
conflagrao dos elementos; ali jurou que se vingaria de um modo exemplar. Como
ento soprasse uma brisa fresca, e ele a recebesse em primeira mo,  janela,
acalmaram-se-lhe as idias fnebres e sangneas, e apenas lhe ficou um desejo
de vingana de sala. Qual? No sabia qual fosse; mas trouxe-lha enfim uma
sobrinha do major.

 No dana? perguntou ela a Lus
Bastinhos.

 Eu?

 O senhor.

 Pois no, minha senhora.

Levantou-se e deu-lhe o brao.

 De maneira que, disse ela, j
agora so as moas que tiram os homens para danar?

 Oh! no! protestou ele. As moas
apenas ordenam aos homens o que devem fazer; e o homem que est no seu papel
obedece sem discrepar.

 Mesmo sem vontade? perguntou a
prima de Marcelina.

 Quem  que neste mundo pode no
ter vontade de obedecer a uma dama? disse Lus Bastinhos com o seu ar mais
piegas.

Estava em pleno madrigal; iriam
longe, porque a moa era das que saboreiam esse gnero de palestra. Entretanto,
tinham dado o brao, e passeavam ao longo da sala,  espera da valsa, que se ia
tocar. Deu sinal a valsa, os pares saram, e comeou o turbilho.

No tardou muito que a sobrinha do
major compreendesse que estava abraada a um valsista emrito, a um verdadeiro
modelo de valsistas. Que delicadeza! que segurana! que acerto de passos! Ela,
que tambm valsava com muita regularidade e graa, entregou-se toda ao
parceiro. E ei-los unidos, a voltearem rapidamente, leves como duas plumas, sem
perder um compasso, sem discrepar uma linha. Pouco a pouco, esvaziando-se a
arena, iam sendo os dois objeto exclusivo da ateno de todos. No tardou que
ficassem ss; e foi ento que o sucesso se formou decisivo e lisonjeiro. Eles
giravam e sentiam que eram o alvo da admirao geral; e ao senti-lo, criavam
foras novas, e no cediam o campo a nenhum outro. Pararam com a msica.

 Quer tomar alguma coisa? perguntou
Lus Bastinhos com a mais adocicada de suas entonaes.

A moa aceitou um pouco de gua; e
enquanto andavam elogiavam um ao outro, com o maior calor do mundo. Nenhum
desses elogios, porm, chegou ao do major, quando da a pouco encontrou Lus Bastinhos.

 Pois voc estava com isso
guardado! disse ele.

 Isso qu?

 Isso... esse talento que Deus
concedeu a poucos... a bem raros. Sim, senhor; pode crer que  o rei da minha
festa.

E apertou-lhe muito as mos,
piscando o olho. Lus Bastinhos tinha j perdido toda a f naquele jeito
peculiar do major; recebeu-o com frieza. O sucesso entretanto fora grande; ele
o sentiu nos olhares sorrateiros dos outros rapazes, nos gestos de desdm que
eles faziam; foi a consagrao ltima.

 Com que ento, s minha prima 
que mereceu uma valsa!

Lus Bastinhos estremeceu, ao
ouvir esta palavra; voltou-se; deu com os olhos em Marcelina. A moa repetiu o dito, batendo-lhe com o leque no brao. Ele murmurou algumas
palavras, que a histria no conservou, alis deviam ser notveis, porque ele
ficou vermelho como uma pitanga. Essa cor ainda se tornou mais viva, quando a
moa, enfiando-lhe o brao, disse resolutamente:

 Vamos a esta valsa...

Tremia o rapaz de comoo;
pareceu-lhe ver nos olhos da moa todas as promessas da bem-aventurana; entrou
a compreender os piscados do major.

 Ento? disse Marcelina.

 Vamos.

 Ou est cansado?

 Eu? que idia. No, no, no
estou cansado.

A outra valsa fora um primor; esta
foi classificada entre os milagres. Os amadores confessaram francamente que
nunca tinham visto um valsador como Lus Bastinhos. Era o impossvel realizado;
seria a pura arte dos arcanjos, se os arcanjos valsassem. Os mais invejosos
tiveram de ceder alguma coisa  opinio da sala. O major chegou s raias do
delrio.

 Que me dizem a este rapaz?
bradou ele a uma roda de senhoras. Ele faz tudo: nada como um peixe e valsa
como um pio. Salvou-me a filha para valsar com ela.

Marcelina no ouviu estas palavras
do pai, ou perdoou-lhas. Estava toda entregue  admirao. Lus Bastinhos era
at ali o melhor valsista que encontrara. Ela tinha vaidade e reputao de
valsar bem; e achar um parceiro de tal fora era a maior fortuna que podia
acontecer a uma valsista. Disse-lho ela mesma, no sei se com a boca, se com os
olhos, e ele repetiu-lhe a mesma idia, e foram ratificar da a pouco as suas
impresses numa segunda valsa. Foi outro e maior sucesso.

Parece que Marcelina valsou ainda
uma vez com Lus Bastinhos, mas em sonhos, uma valsa interminvel, numa
plancie, ao som de uma orquestra de diabos azuis e invisveis. Foi assim que
ela referiu o sonho, no dia seguinte, ao pai.

 J sei, disse este; esses diabos
azuis e invisveis deviam ser dois.

 Dois?

 Um padre e um sacristo...

 Ora, papai!

E foi um protesto to gracioso,
que o Lus Bastinhos, se o ouvisse e visse, mui provavelmente pediria
repetio. Mas nem viu nem soube dele. De noite, indo l, recebeu novos
louvores, falaram do baile da vspera. O major confessou que era o melhor baile
do ano; e dizendo-lhe a mesma coisa o Lus Bastinhos, declarou o major que o
salvador da filha reunia o bom gosto ao talento coreogrfico.

 Mas por que no d outra
brincadeira, um pouco mais familiar? disse o Lus Bastinhos.

O major piscou o olho e adotou a
idia. Marcelina exigiu de Lus Bastinhos que danasse com ela a primeira
valsa.

 Todas, disse ele.

 Todas?

 Juro-lhe que todas.

Marcelina abaixou os olhos e
lembrou-se dos diabos azuis e invisveis. Veio a noite da brincadeira, e Lus
Bastinhos cumpriu a promessa; valsaram ambos todas as valsas. Era quase um
escndalo. A convico geral  que o casamento estava prximo.

Alguns dias depois, o major deu
com os dois numa sala, ao p de uma mesa, a folhearem um livro,  um livro ou
as mos, porque as mos de um e de outro estavam sobre o livro, juntas, e
apertadas. Parece que tambm folheavam os olhos, com tanta ateno que no
viram o major. O major quis sair, mas preferiu precipitar a situao.

 Ento que  isso? Esto valsando
sem msica?

Estremeceram os dois e coraram
muito, mas o major piscou o olho, e saiu. Lus Bastinhos aproveitou a
circunstncia para dizer  moa que o casamento era a verdadeira valsa social;
idia que ela aprovou e comunicou ao pai.

 Sim, disse este, a melhor
Terpscore  Himeneu.

Celebrou-se o casamento da a dois
meses. O Pimentel, que serviu de padrinho ao noivo, disse-lhe na igreja, que em
certos casos era melhor valsar que nadar, e que a verdadeira chave do corao
de Marcelina no era a gratido mas a coreografia. Lus Bastinhos abanou a
cabea sorrindo; o major, supondo que eles o elogiavam em voz baixa, piscou o
olho.
